Por que cada vez mais pessoas estão 'casando' consigo mesmas

Didem Tali - De Istambul

No verão de 2000, a artista Gabrielle Penabaz, de Nova York, decidiu dar uma festa de casamento para si mesma enquanto tentava se recuperar de uma desilusão amorosa. Ela cuidadosamente escolheu o local, as flores, a aliança, o vestido de noiva e escreveu os seus votos.

Ela até vestiu "uma coisa emprestada e uma coisa azul" no dia, uma das simpatias que algumas noivas fazem, mesmo que o evento fosse meramente simbólico e sem um componente essencial: o noivo.

Mesmo assim, seus amigos e sua família participaram, e Gabrielle diz que ela teve "o melhor casamento" de todos os tempos. Desde então ela tem "oficializado" o casamento de outras pessoas consigo mesmas, como uma forma de performance - um serviço que ela cobra.

Seus clientes são normalmente mulheres solteiras, apesar de pessoas de todos os gêneros e de diferentes estados conjugais terem participado.

Ela diz ter "casado" mais de 1.500 pessoas em cerimônias normalmente como a dela própria, com altares erguidos, roupas específicas, bolo e votos.

"As cerimônias são normalmente muito catárticas e se tratam sobretudo de amor próprio", diz Gabrielle. "80% das pessoas que eu casei consigo mesmas se emocionam lendo os seus votos. Elas normalmente dizem coisas como: 'Eu me perdôo' e 'Eu nunca mais vou me chamar de feia'."

Sologamia

Bem-vindos ao mundo do autocasamento ou "sologamia", que vem atraindo muita atenção nos últimos anos.

Ainda não é possível se casar consigo mesmo legalmente em nenhum lugar do mundo, mas há relatos de pessoas realizando cerimônias simbólicas por várias décadas em lugares que vão de Japão a Itália, de Austrália a Reino Unido. Essas cerimônias também têm sido temas de episódios de famosas séries de TV americanas como Sex and the City e Glee.

E agora há novos negócios, como o de Gabrielle, dedicados inteiramente a ajudar as pessoas a planejarem esses autocasamentos.

Dominique Youkhehpaz oficializou seu primeiro casamento solo em 2011 no festival americano Burning Man e desde então abriu a consultoria Self Marriage Ceremonies (Cerimônias de Autocasamento, em tradução livre).

Ela oferece um curso online de 10 semanas para preparar noivas e noivos para a sologamia, assim como sessões privadas de aconselhamento. Dominique diz que já trabalhou com mais de 250 clientes e que o negócio está em alta.

"Uma cerimônia de autocasamento pode ser qualquer coisa, desde um simples ritual no quarto de alguém até uma celebração mais luxuosa", diz.

Ela também acha que esse tipo de evento pode ser totalmente terapêutico para quem decide fazer. "Conheço pessoas que deixaram relacionamentos abusivos e se dedicaram mais ao trabalho ou conheceram seus amores após terem se casado consigo mesmas."

Os defensores do autocasamento dizem que a sologamia se trata de amor próprio e aceitação individuais - já que a afirmação social é normalmente reservada aos casais que se casam.

Explosão de mercado

Não há dados oficiais sobre o número de pessoas que se decidiram pelo autocasamento, mas o interesse ocorre em um momento no qual o número de pessoas não casadas atingiu recordes em economias avançadas, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Não é surpreedente, então, algumas empresas entrarem nesse novo mercado. Em 2014, a agência de viagens japonesa Cerca Travel ofereceu um pacote de dois dias para mulheres sozinhas que quisessem se casar consigo mesmas por mais de 2.500 libras (cerca de R$ 11 mil), que incluía a prova do vestido de noiva, maquiagem e cabelo e uma sessão de fotos.

O designer de joias de Los Angeles Dan Moran diz que começou a receber ligações de clientes querendo alianças de sologamia há um ano e meio, assim como aconteceu com fotógrafos e organizadores de casamento que ele conhece.

A maioria de seus novos clientes são mulheres "urbanas, bem-sucedidas e educadas". Interessantemente, ele diz, muitas são casadas.

"Nos próximos anos, as pessoas que trabalham na indústria de casamentos terão que considerar os 'sologamistas' e ajustar seus serviços a eles", diz.

Já dá para perceber que as pessoas estão dispostas a gastar muito dinheiro com a sologamia.

A italiana Laura Mesi, de 40 anos, casou-se consigo mesma em setembro, num evento de conto de fadas com direito a 70 convidados, bolo de três andares, madrinhas e vestido branco. Ela, que tomou essa decisão após terminar um relacionamento de 12 anos, gastou 8.700 libras (cerca de R$ 38 mil) na festa.

No Reino Unido, Sophie Tanner realizou seu autocasamento em 2015. "Para mim, foi uma cerimônia importante que demonstrou meu comprometimento com a autocompaixão", disse ela à BBC.

"O casamento foi o dia mais feliz da minha vida, completo com vestido vintage, com meu pai chorando ao me entregar e com madrinhas dançantes."

'Narcisismo'

Mas nem todo mundo aceita bem a moda da sologamia. Há quem a chame de narcisista ou de "adesão sem sentido a uma instituição patriarcal".

"Não gostar de si mesmo está na raiz de tantos problemas psicológicos que casar-se consigo mesmo se trada de curar traumas do passado ou problemas de relacionamento", diz a psicóloga neozelandesa Karen Nimmo.

"Mas é importante se certificar de que seus outros relacionamentos são saudáveis. Se você depende muito de você mesmo e constantemente coloca suas necessidades à frente das de qualquer pessoa, você pode estar escorregando para um território narcisista - e essa é uma posição solitária e pouco saudável para se estar."

Alexandra Gill, cofundadora da consultoria Marry Yourself Vancouver (Case com você mesmo Vancouver) admite que casar-se consigo mesmo é um pouco narcisista, mas acrescenta: "Os casamentos tradicionais não são todos narcisistas também?".

Ela também diz que casar-se consigo mesmo não precisa ser levado tão a sério.

Desde 2011, sua empresa tem ajudado noivas solo a planejarem as festas, mas agora está lançando o conceito de ladie's night (noite das mulheres), no qual se celebra o amor próprio e a irmandade.

"Vamos ser honestos, todas as mulheres crescem com histórias de casamentos de contos de fada e a cultura da princesa ainda não está desaparecendo em nenhum lugar. Mas as cerimônias de autocasamento nos permitem reescrever essa narrativa - não precisamos de um noivo."

"De qualquer maneira, casamentos sempre têm sido uma celebração centrada na mulher. Muito mais mulheres adorariam se casar consigo mesmas, mas ficam inseguras", afirma.

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