O hotel construído por ex-integrantes das Farc para recriar a vida de guerrilheiros na selva

Natalio Cosoy - BBC Mundo

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    Hóspedes poderão dormir e comer 'como um rebelde'

    Hóspedes poderão dormir e comer 'como um rebelde'

Dormir nas profundezas da selva colombiana, caminhar por trilhas há tempos encaradas como proibidas e comer alimentos básicos cozidos em um forno improvisado.

O que pode soar como a rotina de um guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) poderá, depois de um acordo de paz do grupo com o governo, se tornar uma experiência para hóspedes de um hotel no mínimo atípico. Isto, claro, sem as armas e batalhas com forças oficiais de segurança.

Antigos membros da Farc estão construindo um hotel que simulará o que costumava ser sua rotina, em um local que já foi um dos postos de controle do grupo - a maior guerrilha associada a ideologias de esquerda do Ocidente.

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Ex-rebeldes têm se reunido em cooperativas após tratado de paz com o governo colombiano

Desmobilização - e depois?

O grupo paramilitar assinou um acordo de paz com o governo colombiano em novembro de 2016, levando à desmobilização da maioria de seus membros.

Sob o acordo, cada ex-membro desmobilizado da Farc recebe 620 mil pesos colombianos (cerca de R$ 696) por mês, durante dois anos, para que possa fazer a transição para a vida civil.

Muitos ex-rebeldes têm usado o dinheiro para montar cooperativas nas áreas que costumavam controlar. A Cooperativa Gran Paz é uma delas e está por trás dos planos do hotel.

Einer López, um ex-comandante de uma unidade das Farc, está entusiasmado com o projeto.

"Fizemos isso com o nosso próprio esforço, usando a remuneração que recebemos", diz ele.

O resultado é um edifício de um andar chamado de Casa Verde, em referência tanto às suas paredes esverdeadas quanto ao nome do antigo posto da guerrilha.

A construção fica perto do vilarejo de La Guajira, na província de Meta, onde dezenas de ex-rebeldes estão atualmente baseados em um campo de treinamento e reintegração sob os termos do acordo de paz.

Os ex-guerrilheiros esperam que, uma vez finalizado, o hotel seja sua principal fonte de renda - complementada com o cultivo de bananas, abacates e outras frutas e vegetais.

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Einer López está entusiasmado com a construção do empreendimento

De volta ao básico

López diz que o atrativo do hotel será fazer da experiência a mais realista possível.

"Vamos construir barracas básicas, como aquelas em que costumávamos viver, com plástico, algumas folhas de palmeira e um mosquiteiro", diz ele.

Mas aqueles que preferirem o conforto a uma experiência radicalmente realista podem escolher ficar em um dos quartos da Casa Verde.

O hotel terá também um restaurante que servirá pratos que eram comumente preparado pelos rebeldes, como a cancharina farina e o 'arroz guerrilheiro',

López está convencido de que o hotel será um grande sucesso entre os turistas, apesar de o projeto não ter um plano de negócios que vá muito além do básico.

O grupo de ex-guerrilheiros deste campo de reintegração, um entre os 26 existentes no país, poderá ser muito beneficiado por um sucesso destes.

Aproximadamente metade daqueles que chegaram ao campo há um ano deixaram o local desde então.

"Todo mundo chegou aqui com muitas expectativas, mas elas desapareceram com o tempo", explica López. "Alguns voltaram para suas famílias, outros saíram em busca de trabalho e o resto, não sabemos muito para onde foram".

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Einer López está entusiasmado com a construção do empreendimento

Grupos dissidentes

Desde que as Farc assinaram o acordo de paz, grupos dissidentes armados têm surgido - mas López diz não poder precisar se uma parte dos ex-guerrilheiros que deixaram os campos se juntou a estes grupos.

"Você pode realmente controlar as pessoas enquanto elas estão aqui, mas depois que elas saem, é difícil saber o que vão fazer", diz o ex-comandante.

"Só sabemos como trabalhar e como fazer guerra", ele diz sobre seus ex-combatentes.

É por isso que o sucesso de projetos como o hotel das Farc é fundamental para a reintegração destas pessoas.

"Nós podemos trabalhar dia e noite, mas se não temos um lugar para trabalhar, o que devemos fazer?" ele pergunta.

Por enquanto, ele e seus antigos camaradas estão apostando no Hotel Casa Verde.

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