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Tim Vickery: Como a América do Sul conquistou as plateias europeias na história das Copas

Marko Djurica/Reuters
Imagem: Marko Djurica/Reuters

Tim Vickery

Colunista da BBC News Brasil

29/06/2018 15h15

A história anda esquecida ou subvalorizada, mas a Copa do Mundo é um produto de integração sul-americana - e um grande exemplo do que o continente é capaz quando junta forças.

Há exatos 80 anos, o Brasil chegou à semifinal da terceira Copa do Mundo, na França, onde, sofrendo um pênalti bem duvidoso, perdeu por 2 a 1 para a Itália. Mesmo assim, a Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro ficou feliz. "Os brasileiros", declarou o jornal na prosa charmosa da época, "reafirmaram na peleja de ontem o seu valor desportivo e as tradições do 'football' sul-americano".

Olhando sob a perspectiva de hoje, é curioso e fascinante que o jornal coloque a façanha brasileira num contexto continental. Mas, na ótica da época, fazia todo sentido, pois aquele foi o primeiro momento em que o futebol brasileiro mostrou que seria uma potência global. Até então, tinha sido claramente a terceira força do continente, atrás de Uruguai e Argentina.

O crescimento do futebol no Cone Sul no início do século passado é um acontecimento impressionante, que ninguém poderia ter previsto algumas décadas antes. Tem a ver com a explosão da população urbana e da imigração.

Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro e São Paulo cresceram exponencialmente, com milhões de pessoas chegando da Europa e do interior, criando um ambiente sedento por novidades.

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O futebol logo conquistou essas pessoas por suas próprias características: é fácil de jogar, aberto para qualquer biotipo e dispensa equipamentos caros. Também foi resultado de um processo histórico em três atos: chegou, nas mãos (ou pés) dos ingleses, cheio de prestígio de primeiro mundo, foi reinterpretado pelos sul-americanos, transformado em um esporte ideal para o jogador com centro de gravidade baixo, e essa reinterpretação resultou em triunfos e reconhecimento internacional - muito importantes numa região tão carente dessas coisas.

O Uruguai liderou esse processo - o que não é nenhuma coincidência. Aconteceu porque a pequena república já contava com um Estado de bem-estar social. Portanto, houve menos resistência à dinâmica em que o futebol baixou da elite para as massas.

A partir da primeira disputa continental de seleções, em 1916, o Uruguai já estava escalando jogadores pobres e negros - algo impensável no Brasil naquele momento.

E essa taça - hoje em dia a Copa América, anteriormente chamada de Copa Sul-Americana das Seleções - desempenhou um papel fundamental. Nasceu mais de 40 anos antes de a Europa começar seu próprio torneio. Em 1916, é claro, as nações europeias estavam ocupadas se massacrando nos campos sangrentos da Primeira Guerra Mundial.

A concorrência sul-americana era bem mais saudável. No início, a copa aconteceu quase todos os anos. Os enfrentamentos tão frequentes e tão disputados entre os times de Uruguai, Argentina e Brasil produziram uma elevação incrível no nível do jogo praticado - como ficou evidente quando o Uruguai levou um time para participar no torneio do futebol nos Jogos Olímpicos de Paris em 1924.

Esses desconhecidos de um país pequeno do outro lado do Atlântico não somente ganharam a medalha de ouro com facilidade, como o fizeram com um estilo que deixou maravilhada a plateia europeia.

Gabriel Hanot, um jornalista francês de grande influência na época, escreveu que a grande qualidade do time vencedor foi "uma maravilhosa virtude em receber, controlar e usar a bola. (...) Eles estão perto da perfeição na arte da finta, da guinada e do drible, mas também sabem como jogar direta e rapidamente. (...) Eles criaram um futebol bonito, elegante e ao mesmo tempo variado, rápido, poderoso e eficiente. Esses bons atletas estão para os profissionais ingleses assim como os cavalos puro-sangue estão para os cavalos de fazenda."

É o tipo de descrição que poucas décadas depois seria utilizada para elogiar a Seleção Brasileira. E a referência para os profissionais ingleses é muito importante. As Olimpíadas eram somente para amadores. Na época, os ingleses ainda eram vistos como medida de qualidade no jogo. Nasceu ali a necessidade de um torneio mundial de futebol, aberto para amadores e profissionais, para descobrir quem realmente tinha o melhor time.

Tal sensação só cresceu na Olimpíada seguinte, os Jogos de Amsterdã, em 1928. Daquela vez, a Argentina também enviou uma seleção - e levou a prata, com o Uruguai mais uma vez conquistando o ouro.

Dois anos mais tarde, o Uruguai sediou a primeira Copa do Mundo, e ganhou também, mais uma vez superando a Argentina na final. Ou seja, há uma linha direta entre a decisão pioneira de criar uma taça sul-americana em 1916 e o nascimento, somente 14 anos mais tarde, do megaevento que atualmente prende a atenção do planeta.

Outros países têm a sua história, diz o ditado, mas Uruguai tem o seu futebol. Na verdade, isso se aplica um pouco também para Brasil e Argentina. Para os países do Cone Sul, a Copa do Mundo é um evento de importância cívica enorme. A seleção é o país em chuteiras, aparecendo diante do planeta como vencedora.

Mas o resto do continente também quer participar. É só dar uma olhada nos países onde mais se compraram ingressos para a Copa na Rússia. Em primeiro lugar são os Estados Unidos - que nem se classificaram, mas que abrigam muitos latinos. O Brasil está em segundo lugar, a Colômbia em terceiro, e a Argentina em sexto, seguida por Peru.

A enorme e colorida torcida peruana foi destaque nos primeiros dias de competição. Muitos fizeram loucuras para comprar as passagens para Rússia. E viajaram sem esperanças de vitória. Jogando a primeira Copa desde 1982, os peruanos tiveram uma oportunidade para afirmar sua existência diante de uma plateia mundial. "A gente existe", foi a mensagem, "e, como sul-americanos, temos todo direito de fazer parte da festa."

*Tim Vickery é colunista da BBC News Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.