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Quem é Luis Fernando Camacho, o "Bolsonaro boliviano" que desponta em meio à renúncia de Evo

Luis Fernando Camacho, à direita, principal figura da oposição a Evo Morales - Reuters
Luis Fernando Camacho, à direita, principal figura da oposição a Evo Morales Imagem: Reuters

Boris Miranda

Da BBC News Mundo

11/11/2019 16h34

Pouco conhecido há seis meses, Camacho se transformou em um líder da direita que pressionou Evo Morales até a renúncia. Por outro lado, o político, que sempre fala "em nome de Deus", tem sido chamado de fascista, fundamentalista e preconceituoso.

Seis meses atrás, poucos na Bolívia conheciam esse líder da oposição de 40 anos, mas hoje ele é um dos principais protagonistas da mobilização que forçou a renúncia de Evo Morales, no domingo.

Evo decidiu sair horas depois de o comandante das Forças Armadas da Bolívia, general Williams Kaliman, declarar que o presidente deveria deixar o cargo, no intuito de resolver o impasse da crise política que assola o país desde as controversas eleições presidenciais, em 20 de outubro.

Nas eleições, que tiveram denúncias de fraudes a favor de Evo, Camacho não se candidatou. No entanto, ele conseguiu entrar no antigo Palácio do Governo, em La Paz, e depositou uma Bíblia em cima da bandeira boliviana alguns minutos antes do anúncio da renúncia do presidente.

Gestos como esse e suas constantes menções ao "poder de Deus" não passaram despercebidos no país, e, em meio a uma enorme crise política, Camacho já foi chamado de "Bolsonaro boliviano", em referência ao presidente do Brasil e seus discursos de cunho religioso.

Camacho é um político que diz não fazer política. Conservador e ao mesmo tempo carismático, ele é proveniente das elites empresariais. Toda vez que se dirige às multidões que o apoiam, ele faz uma "oração ao Todo-Poderoso".

"O presidente"

Camacho atua como presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, uma entidade que, na cidade mais populosa da Bolívia, Santa Cruz de la Sierra, é chamada de "governo moral". Nos últimos anos, a cidade se transformou em uma espécie de quartel-general da oposição a Evo.

Durante as últimas três semanas de protestos em todo o país, o líder da oposição foi apresentado em Santa Cruz como "o presidente".

Filho de empresários, o esforço de Camacho para obter reconhecimento nas instituições de Santa Cruz foi rápido, assim como sua irrupção no cenário nacional.

Em sua última aparição na cidade, em um dos vários conselhos organizados contra Evo Morales, Camacho entrou em cena acompanhado de uma imagem da Virgem Maria e com uma cruz como pano de fundo.

Os comitês cívicos da Bolívia reúnem diferentes setores das principais cidades do país, incluindo empresas, sindicatos e comunidades.

Essa oposição centralizada em Santa Cruz foi uma constante dor de cabeça para Morales em seus 13 anos, nove meses e 18 dias de mandato.

O mais radical

Quando as eleições na Bolívia começaram a ser questionadas por múltiplos setores da sociedade, o ex-presidente e candidato Carlos Mesa era considerado o principal nome do meio político para mobilizar a oposição a Evo.

A princípio, todos os grupos bolivianos de oposição e detratores de Evo se alinharam com a reclamação de Mesa sobre possíveis fraudes nas eleições.

Na noite do pleito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a transmissão da contagem dos votos com 83% das urnas apuradas, quando o resultado indicava segundo turno entre Morales e Mesa.

No dia seguinte, o sistema de contagem de votos, chamado Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (TREP), foi subitamente reativado com 95% das urnas apuradas, indicando uma vitória apertada de Morales já no primeiro turno.

As suspeitas suscitadas pela interrupção da divulgação da contagem dos votos e a súbita guinada na tendência do resultado levaram a oposição a denunciar uma "fraude escandalosa".

Até as missões de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia pediram um segundo turno das eleições presidenciais.

Enquanto parte da oposição pedia um segundo turno, Camacho aumentou a aposta.

O líder civil passou a reivindicar a renúncia de Evo. Muitos nomes da oposição, incluindo apoiadores de Mesa, criticaram o "radicalismo" de Camacho, acreditando que seria impossível pressionar Evo até uma renúncia.

Uma cruz em La Paz

Após o ultimato e a elaboração inédita de uma carta de demissão "para Evo Morales assinar", Camacho anunciou que chegaria a La Paz para entregar o documento ao governo.

Quase três dias de suspense cercaram a tentativa do líder da oposição até que ele finalmente pousou na capital.

Milhares de pessoas o receberam no aeroporto na quarta-feira e, um dia depois, ele foi a estrela de cenas raramente vistas na história da Bolívia.

Camponeses, produtores indígenas e produtores de coca receberam Camacho e o aplaudiram de forma entusiasmada.

Santa Cruz de La Sierra historicamente desempenhou um papel de contrapeso político contra o povo de La Paz, cidade mais ligada a Evo. Esse antagonismo causou atritos regionais que marcaram a agenda do país em mais de uma ocasião.

Dessa vez, e apesar de seu discurso conservador, Camacho abraçou mulheres e aceitou um colar feito com folhas de coca.

Por outro lado, o apelido que ele recebeu de grupos de apoio, "Macho Camacho", acabou sendo repudiado por organizações sociais e coletivos feministas, que o chamam de misógino e ultradireitista.

"Bolsonaro boliviano"

"Como outros representantes da nova direita regional, como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, Camacho usa um discurso com forte teor religioso", diz a jornalista Mariela Franzosi.

Em uma análise sobre Camacho, ela afirma que o líder usa "um discurso que, embora tente associar à paz e unidade do povo boliviano, acaba sendo repleto de racismo, ódio de classe e provocações".

Julio Cordova, sociólogo boliviano especializado em movimentos evangélicos, disse que Camacho "legitima sua posição autoritária com o discurso religioso no estilo Bolsonaro".

O pesquisador argumenta que o líder civil é "uma expressão da direita protofascista boliviana".

Em seu momento de vitória, minutos após a renúncia de Morales, ele voltou a mostrar um crucifixo nas mãos.

Camacho diz que não será candidato à Presidência e que, quando terminar sua liderança no âmbito civil, ele retornará aos seus negócios particulares.

Mas, neste momento na Bolívia, é difícil esconder que um novo líder popular de direita surgiu às margens da esquerda que governou o país por 13 anos.

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