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'Se Bolsonaro acha que vai tirar o lado liberal e continuar com o mesmo apoio, está enganado', diz presidente do Instituto Mises

Presidente Jair Bolsonaro em São Paulo -
Presidente Jair Bolsonaro em São Paulo

Letícia Mori - Da BBC News Brasil em São Paulo

14/08/2020 06h01

Na semana em que ministério da Economia teve debandada de auxiliares de Paulo Guedes insatisfeitos com falta de avanço de reformas, Hélio Beltrão diz que presidente tem encanto com populismo.

Diante do que o próprio ministro da economia, Paulo Guedes, classificou como um "debandada" de seus auxiliares que pediram demissão no ministério, o presidente do Instituto Mises, Hélio Beltrão, diz que, se o governo romper com o liberalismo vai perder o apoio do empresariado, que foi um dos pilares de sua eleição. "Se ele acha que vai tirar o lado liberal e continuar com o mesmo apoio que tinha antes, ele está enganado".

Beltrão é um dos principais defensores do que classifica como "ultraliberalismo econômico" no Brasil. É presidente do Instituto Mises Brasil, nomeado em homenagem ao economista liberal austríaco Ludwig von Mises.

Ele tem uma relação próxima com Guedes (fundou com ele o Instituto Millenium) e com alguns dos seus auxiliares que saíram, como Salim Mattar, agora ex-secretário especial de desestatização, e Paulo Uebel, ex-responsável pela secretaria especial de desburocratização.

A saída nesta semana de Mattar e Uebel agravou a crise de perda de funcionários insatisfeitos no ministério que já vinha acontecendo desde o início do ano. Mattar e Uebel reclamaram que as mudanças liberais previstas — reforma administrativa e agenda de privatizações —não estavam saindo.

A saída de funcionários insatisfeitos marca uma virada na postura econômica do governo, segundo analistas, de uma agenda liberal defendida por Guedes para uma postura com maior atuação estatal.

Beltrão diz à BBC News Brasil que nesse momento "não dá para caracterizar o governo como liberal" e que Bolsonaro nunca foi "propriamente um liberal", apenas percebeu que existia essa demanda e a encampou, "colocando Guedes para tocar".

Um dos fiadores de Bolsonaro entre a classe empresarial, Guedes tem feito concessões a pautas de maior atuação do Estado: como a reforma tributária que acaba com isenções (aumento de impostos) para livros, empresas de saúde e educação, entre outros, e a proposta de uma nova tarifa sobre transações financeiras — que ganhou o apelido de 'nova CPMF', por se assemelhar ao antigo imposto.

"Guedes não deixou de ser liberal, mas está tendo que lidar com forças políticas muito fortes", diz Beltrão. "O ministério continua, deu uma escorregada, e se o governo não quiser fazer as reformas, ele poderia reavaliar sair, se realmente não tem esse grau de liberdade", afirma.

Beltão diz que espera que Guedes consiga "renegociar" as privatizações, a reforma administrativa e a abertura comercial, mas afirma que um rompimento definitivo com o liberalismo tornaria muito difícil para o governo "recuperar o apoio" que conseguiu por defender uma agenda liberal durante a campanha.

"Eu suspeito que não, o presidente não consegue se eleger sem o apoio dos empresários", diz ele, que afirma também que "essa coisa de aumentar o tamanho do governo está ficando parecido com o governo de esquerda (que veio antes)".

Leia abaixo trechos da entrevista de Beltrão a BBC News Brasil

BBC News Brasil - O que a saída de diversos nomes da equipe significa para o governo?

Hélio Beltrão - A gente perde duas pessoas que são fundamentais. O Guedes não é só um enclave liberal, ele é a consciência de um organismo que é obeso mórbido, fumante, engordou 30 kg desde março e passou a fumar mais um maço de cigarro — esse organismo engloba a máquina pública, os outros ministérios, o presidente, o Congresso — parece estar sem consciência, e ele fica falando "não faça isso".

Ele continua sendo o ministro da Economia, é um liberal. Agora, eu imagino que o Guedes esteja muito emparedado pelas forças políticas e pelo presidente também, e perdeu na cabeça dele os graus de liberdade. E isso levou a uma atitude de "ah, então vamos tentar equilibrar aqui aumentando imposto para permitir acumulação de mais gastos". Aí seria o Phineas Gage (operário americano que mudou de personalidade após sofrer um acidente), não o Paulo Guedes original. Entre fazer isso e eventualmente abandonar, talvez ele poderia reavaliar sair, se ele realmente não tem esse grau de liberdade. Agora, ele está usando essa oportunidade para tentar renegociar, mostrar que não está conseguindo fazer uma porção de coisas.

BBC News Brasil - O governo está rompendo com o liberalismo?

Beltrão - Olha, a campanha foi o Jair Bolsonaro encampando uma agenda liberal e colocando o Guedes para tocar essa agenda liberal. Ele não deixou de ser liberal. Está em uma situação muito difícil, tendo que lidar com forças políticas incríveis que defendem seus próprios interesses. O Estado é assim. O Bolsonaro nunca foi propriamente um liberal, e deixou claro isso, mas percebeu que na sociedade brasileira havia uma demanda por ideias liberais. O ministério de Paulo Guedes é liberal desde o começo, e continua sendo a não ser pela reforma tributária e o CBS (o novo imposto sobre transações financeiras). Deu uma escorregada, inclusive chamei a atenção, que se for por esse caminho melhor sair do governo, porque a pauta liberal continua sendo proposta pela sociedade. E se o governo não quiser fazer, que vá fazer as besteiras dele sozinho.

BBC News - Você falou do ministério da Economia como algo separado, mas e o governo Bolsonaro como um todo, ele mantém o mesmo compromisso com o liberalismo?

Beltrão - É difícil colocar um rótulo... é muito difícil porque o governo é uma coisa muito complexa, com muitos ministérios, autarquias, interesses. Como o próprio Salim falou, os liberais puro-sangue tentando tocar essa reforma cabem numa minivan, então não dá para caracterizar o governo assim. O governo, que prometeu romper com o crescimento desenfreado dos governos de esquerda, vinha nesse bom caminho. Mas agora, no ano eleitoral, essa coisa de aumentar o tamanho do governo está ficando parecido com o governo de esquerda. O que vai acontecer pra frente eu não sei, mas é ano eleitoral, continuam esses ministérios querendo aumentar gastos, o próprio presidente tem um encanto do populismo. A grande pergunta é: será que acordaram? Que vão levar a reforma administrativa (para o Congresso)? Se não levarem, vai ser muito ruim.

BBC News Brasil - No início do governo você deu entrevistas mostrando expectativas muito otimistas. Como enxerga a atuação do governo até agora?

Beltrão - Qualquer coisa que não seja a esquerda radical gera otimismo. Era essa a opção que você tinha lá atrás. Entre PT e Bolsonaro eu continuo achando que foi a melhor opção e vou achar amanhã. Mas nunca subestimei o poder das forças políticas em bloquear. Não é algo que me surpreende mais. Se as ideias na sociedade não mudam, você não encontra viabilidade para implementar. Em um pior cenário, é porque nós, liberais, não conseguimos fazer com que as ideias estejam maduras. Se por acaso não mandarem a reforma administrativa, forem num caminho de mais gastos, e o Guedes sair, temos que reorganizar as ideias na sociedade.

BBC News Brasil - Você falou em 'bloqueio', mas o próprio presidente não está incluso quando se fala em vontade política? Por exemplo para mandar a reforma pro Congresso?

Beltrão - Ele deve estar com um ouvido no que funciona, e o outro está na eleição, e ele pode achar que aquilo não é bom para eleição.

BBC News Brasil - Boa parte dos acordos com o centrão são apontados como um desejo de proteção, até uma tentativa de evitar um impeachment...

Beltrão - Para se proteger contra potenciais riscos contra sua imagem, ele tem que fazer acordos políticos. Isso influencia o ministério do Guedes, então, em tese, qual é o interesse em privatizar se o seu aliado político pede cargos? Fica mais difícil privatizar. Sem dúvida o centrão está de olho em cargos, e isso influencia o ministério do Guedes.

BBC News Brasil - E quanto ao próprio presidente, essas investigações de suposta corrupção na família não são uma fragilidade política dele? Ou você continua achando ele um ótimo político?

Beltrão - Olha, o escândalo da rachadinha ainda não está julgado, etc, mas cheira muito mal. É algo bastante ruim. Não pior do que qualquer outro governo passado, mas sem dúvida muito ruim. E isso afeta as decisões do presidente, numa tentativa de defesa. É péssimo, óbvio.

BBC News Brasil - O que acontece se Guedes sair, ou se houver rompimento do governo com o liberalismo mesmo com ele lá?

Beltrão - Eu não digo que o Guedes deveria sair, mas o próprio Guedes, se não conseguir a agenda dele, vai sair. Se isso acontecer, talvez não seja tão terrível. É porque as forças políticas não querem fazer, azar, é um dado, aí a gente pode reagrupar a sociedade e ir para uma nova rodada.

BBC News Brasil - Alguns auxiliares disseram à imprensa que a mudança de postura do governo tem mais a ver com desejos de reeleição do presidente do que com bloqueios de militares e do Congresso. Se ele abandonar a agenda liberal, consegue apoio dos empresários que em grande parte o apoiaram por essa agenda? Ele consegue se reeleger?

Beltrão - Eu suspeito que não. Ele foi eleito angariando algumas forças da sociedade. Ele é um nacionalista, tinha um grupo restrito, e identificou dois grupos com os quais tinha afinidade: os conservadores em geral, que inclui religiosos, e os liberais. São as duas forças principais. Se ele simplesmente acha que vai tirar esse lado liberal e vai continuar com o mesmo apoio que tinha antes, ele está enganado. Ele vai perder todo esse grupo... Pode não ser a maioria, mas é um dos pilares fundamentais do governo. Se ele retira essas ideias, porque abandona o representante dessas ideias, que é o Guedes, sinceramente acho que vai ser muito difícil ele recuperar isso de outra forma.