UE entre linha dura e soluções construtivas para Reino Unido

Bernd Riegert, de Bruxelas (av)

Brexit desperta emoções fortes na cúpula da UE em Bruxelas. Enquanto os britânicos pedem tempo, maioria dos europeus exige pressa e objetividade, colocando negociações informais fora de questão.

Para quase todos os participantes, a cúpula da União Europeia iniciada nesta terça-feira (28/06) é uma triste estreia. Pela primeira vez, os chefes de Estado e de governo europeus deliberam em Bruxelas não sobre a ampliação, mas sobre a redução da UE. Depois de 43 anos, o Reino Unido quer abandonar a comunidade europeia.

O primeiro-ministro David Cameron, que anunciara sua renúncia em seguida à vitória dos partidários do Brexit, tem que explicar aos demais dirigentes a situação no país e as intenções de seu governo. Ele não tem pressa em começar as negociações formais para a saída da UE. A decisão cabe exclusivamente ao Reino Unido, dissera ainda na véspera, na Câmara dos Comuns em Londres.

Na abertura do encontro, Cameron mostrou-se vago, falando aos jornalistas de "relações o mais estreitas possíveis" e de uma separação suave. "Eu gostaria que o processo transcorresse tão construtivamente quanto possível", comentou.

Essa postura lhe renderá críticas maciças em Bruxelas. A Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e a maioria dos Estados-membros pressionam por um divórcio rápido do Reino Unido, agora que os eleitores britânicos tomaram sua decisão.

Farage ainda ameaça e enfurece

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, disse sentir como se tivesse perdido um bom amigo em sua "casa Europa". Mas a casa também é valiosa, ressalvou: o que aconteceu, aconteceu, "agora é preciso seguir adiante". Tusk disse que convidará os demais países-membros para uma cúpula extraordinária em setembro, onde se refletirá sobre o futuro da União Europeia.

A França e a Itália exigiram clareza quanto ao curso a ser adotado, instando os britânicos a aplicarem o mais breve possível o Artigo 50 do Acordo de Lisboa, pois só depois disso serão possíveis negociações sobre um complexo pacto de desligamento. As instituições europeias rejeitam com veemência quaisquer conversas informais antes desse passo.

Nigel Farage, deputado europeu populista de direita e defensor vitorioso do Brexit, exigiu no Parlamento Europeu em Bruxelas, sob vaias de seus colegas, que a UE firme um acordo aduaneiro com o Reino Unido, a fim regulamentar as relações futuras.

"Seremos os melhores amigos", anunciou Farage, triunfante. "E se não houver um acordo, eles vão sofrer mais do que nós", ameaçou o político que não ocupa nenhum cargo no próprio país.

"Não estamos mais cuidando dos interesses dos britânicos"

Ao chegar à sede do Conselho Europeu, Merkel rejeitou a sugestão de negociações preliminares informais. "Para mim é muito importante nestes dias, quando procurarmos soluções para que a Europa progrida, que o façamos todos os 27, juntos. Mas o Reino Unido permanece sendo um amigo e parceiro."

O ministro britânico das Finanças, George Osborne, também expressara o desejo de negociações informais. Mas horas antes, no Parlamento em Berlim, Merkel declarara que não ia mais haver privilégios especiais para os britânicos. É preciso haver uma diferença entre um Estado-membro da UE e um país que não mais integra o bloco, frisara.

Diplomatas da UE predizem negociações extremamente difíceis com a parte britânica. "Eles precisam compreender que não estamos mais cuidando dos interesses deles. Agora são 27 contra um", resumiu uma das fontes. Reagindo à pressão de Bruxelas, o Partido Conservador do Reino Unido já se moveu um pouco. Apesar das férias de verão, o líder partidário sucessor de Cameron já deverá estar indicado em 2 de setembro, e não apenas em outubro.

A União Europeia conta que só no fim do ano poderão começar as verdadeiras negociações sobre uma retirada do Reino Unido, pois antes é possível que ainda ocorram eleições parlamentares no país. "Mas esse cronograma é aceitável", comentou um diplomata da UE.

Uma nota de humor

Entre alguns chefes de Estado e governo da UE, à decepção pela perspectiva da saída concreta do Reino Unido, precipitando o bloco numa verdadeira crise, mistura-se também a ira contra o premiê britânico: Cameron é o responsável pelo desastre, dizem, e agora deve arcar com as consequências e realizar as negociações para saída o mais depressa possível.

Uma preocupação em Bruxelas é a falta de clareza quanto ao que o Reino Unido deseja alcançar nas futuras negociações sobre a nova relação com a UE. A maioria dos Estados-membros descarta que o país mantenha o acesso ao mercado interno europeu sem contribuir para o orçamento conjunto. Quem quer participar do mercado interno tem que aceitar a livre circulação, ou seja, a imigração a partir dos demais Estados da UE, enfatizam funcionários da Comissão Europeia encarregados do tema.

No entanto uma das principais promessas da ala pró-Brexit foi sustar o afluxo de imigrantes da Polônia, Romênia e outros países da UE. Nos últimos dias, poloneses, portugueses e alemães relataram sobre incidentes xenófobos no país. Cameron criticou severamente os acontecimentos: o Reino Unido quer e tem que permanecer uma nação cosmopolita.

A presidente lituana, Dalia Grybauskaite, pelo menos conseguiu conferir ao cabo-de-força em Bruxelas uma nota bem humorada: caso os britânicos não apliquem o Artigo 50 e não declarem a intenção de sair da UE, ela responderia "Welcome back", disse ela, riu e desapareceu na sede do Conselho Europeu.

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