Debate impõe maior teste a Hillary e Trump na campanha

Evento coloca presidenciáveis frente a frente na televisão pela primeira vez. Ambos estarão escrevendo história - e sendo testados como nunca antes na atual corrida à Casa Branca.Quando Hillary Clinton e Donald Trump pisarem o palco da Universidade Hofstra, em Nova York, nesta segunda-feira (26/09), para o primeiro de três debates presidenciais, ambos estarão escrevendo história, por diversos motivos. É a primeira vez uma mulher participa de um debate presidencial; a primeira em que os candidatos são os dois menos apreciados pelo eleitorado; e pela primeira vez o candidato republicano não enfrentará diversos oponentes, e sim apenas um. "Há muito em jogo para ambos neste debate", reconhece o estrategista político republicano Reed Galen, que atuou nas campanhas presidenciais de George W. Bush e John McCain. O consultor político Robert Shrum, que acompanhou os candidatos democratas Al Gore e John Kerry, concorda que os debates serão cruciais: devido às preocupações internacionais em torno de Trump, afirma, "será o evento televisivo mais visto em todo o mundo desde a aterrissagem na Lua". Fator de incerteza A questão mais instigante antecipando o debate é: qual Trump comparecerá? "O maior fator de incerteza é o que vai fazer Donald Trump", observa Galen. "Será que ele tentará ser o político mais tradicional, apresentando argumentos sobre questões específicas, ou vai simplesmente fazer como nos debates republicanos, dizendo maluquices e não se posicionando claramente sobre nenhum assunto?" Certo é que simplesmente "mandar ver" – como tem sido descrita a estratégia do magnata – não bastará no debate presidencial. Nos debates republicanos bas primários, ele dividiu o palco com até dez outros candidatos, o que lhe deixava relativamente pouco tempo para falar e desenvolver ideias concretas sobre sua visão política. Num grupo de concorrentes relativamente desconhecidos, era essencial dominar o debate e deixar uma impressão duradoura – uma tarefa em que Trump provou ser muito bom. Sair-se bem num duelo de 90 minutos ininterruptos será uma história totalmente diferente, aponta Jennifer Mercieca, que analisou os debates preliminares de ambos os candidatos e seu desempenho no recente fórum sobre segurança nacional, organizado pela rede de TV NBC. "Acho que nesta ocasião ele precisará ter uma política para apresentar", comenta a especialista em retórica política da Universidade Texas A&M. Nos debates anteriores, mesmo tendo apenas um minuto para cada resposta, o republicano teve dificuldade em expor argumentos substanciais. No desta segunda-feira, Hillary e Trump disporão de dois minutos, respectivamente. "A resposta de dois minutos, na verdade, é um tempo longo para Donald Trump", afirma Mercieca. Vantagem das expectativas baixas O estrategista Reed Galen prevê que nos debates presidenciais a tática consagrada de Trump, de "despistar e atacar", não mais bastará. "Despistar" significa: em caso de desconhecimento, falar sobre algo não relacionado, até o tempo se esgotar. "Atacar" é reagir a uma questão percebida como desfavorável investindo contra o mediador. Com tal procedimento, o republicano ganhará mais pontos junto a seus apoiadores fervorosos, mas conseguirá persuadir o grupo crucial do eleitorado: os indecisos, que ambos os candidatos precisam alcançar, diz Galen. Devido a seus desempenhos anteriores, Trump não precisa fazer muito para impressionar positivamente, prossegue o estrategista republicano, já que "todo o mundo está esperando que ele vá subir ao palco e basicamente atirar o tablado na plateia". Mas, apesar de expectativas tão baixas, apenas evitar observações despropositadas não bastará para Trump. Afinal, o povo americano espera de um candidato presidencial que, além de saber como o mundo e o país funciona, ele ou ela apresente planos concretos para resolver os problemas dos Estados Unidos. "A questão é se Donald Trump é capaz de sequer começar a ilustrar como faria isso", frisa o consultor democrata Robert Shrum. "Ele tem que atravessar o limiar da aceitabilidade e, ao mesmo tempo, demonstrar conhecimento e mestria genuínos sobre questões substanciais." Até o momento, "ele tem se safado sem nada disso". Problemas de credibilidade Os especialistas concordam que, em comparação com Trump, para Hillary Clinton será relativamente fácil encarar o formato e os temas políticos do debate. Desde sua primeira campanha para o Senado, no ano 2000, ela tem participado de diversos eventos semelhantes, sendo o mais recente a primária democrata contra Bernie Sanders. Por outro lado, a candidata domina tão bem todas as questões relevantes que precisa tomar cuidado para não se mostrar pedante nem acadêmica demais. "A dificuldade de Hillary Clinton é que ela tende a hiperexplicar", aponta Mercieca. "Ela pode aparentar ser premeditada ou ensaiada demais, de modo a parecer indigna de confiança ou antipática, enquanto líder." Este debate é crucial para Hillary, pois as pesquisas de opinião recentes lhe têm sido menos favoráveis, e sua confiabilidade e saúde vêm sendo cada vez mais postas em dúvida. Por isso, seu principal desafio no primeiro debate não será tanto ter um bom desempenho, mas sim "suas próprias questões de credibilidade", como formula Galen. As enquetes têm mostrado que grande parte do eleitorado americano não a considera – assim como Trump – nem honesta nem confiável. Mesmo não sendo possível apagar essa impressão nos debates, prevê o republicano Galen, Hillary tentará se apresentar como uma opção estável, lógica e segura neste pleito, uma líder com experiência e temperamento para ser presidente. "Se alguém vai acreditar, é outra história. Mas essa é a imagem que ela está tentando projetar." Questões de gênero Para Galen, Hillary Clinton igualmente vê no debate uma oportunidade para retirar sua controversa afirmação de que a metade dos adeptos de Trump caberia num "cesto de deploráveis". "Mas ela também fará questão de lembrar aos eleitores latinos e afro-americanos que 'este é um cara que não gosta de vocês; e também tem atrás de si um monte de gente realmente não gosta de vocês'", prediz o estrategista – em alusão aos comentários pejorativos do candidato republicano sobre ambos os grupos. Considerando que Hillary é a primeira candidata presidencial na história americana, a especialista em retórica Jennifer Mercieca crê que a dinâmica de gêneros entre os dois concorrentes será outro aspecto a se observar. Sobretudo considerando o tratamento polêmico de Trump a mulheres como a apresentadora da Fox News Megyn Kelly ou a concorrente presidencial republicana Carly Fiorina. "Tipicamente, os americanos não gostam de ver um homem ser agressivo com uma mulher num debate, mas acho que os apoiadores de Trump adorariam vê-lo ser agressivo em relação a ela [Hillary Clinton]." Por outro lado, Mercieca não está segura de qual seria o efeito sobre os indecisos. "Eu pensaria que isso reforçaria a visão de que ele é um misógino, e – como os incidentes com Megyn Kelly e Carly Fiorina – o faria parecer menos presidencial." Indagados sobre o possível resultado do primeiro debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, nenhum dos especialistas consultados pela DW quis arriscar um prognóstico. Em vez disso, aconselham que se aguarde para ver se o republicano terá algum trunfo escondido na manga neste 26 de setembro.

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