Pé na Praia: Sete guerreiros e um casaco

Thomas Fischermann

Na coluna desta semana, o jornalista Thomas Fischermann conta como, durante uma reportagem sobre desmatamento na Amazônia, foi difícil acompanhar o ritmo dos índios que o guiavam.Frequentemente me perguntam como consigo fazer meu trabalho de correspondente para um jornal alemão aqui no Brasil. Como é que dá para um jornalista, sozinho, fazer tantas reportagens sobre um país tão imenso? O Brasil tem várias faixas climáticas e de fuso horário, e minha pátria, Alemanha, caberia nele mais de 23 vezes. A resposta é, invariavelmente: é claro que não dá. Quando dá, só com vários ajudantes, especialistas, em muitos lugares. Trabalho com ajudantes conhecidos como "fixers". Antes de minha chegada a São Paulo, Belo Horizonte ou Cuiabá, eles marcam entrevistas com as pessoas relevantes. Em outros lugares, fazem o serviço de guarda-costas, focados na segurança: por exemplo, quando é necessário investigar laboratórios clandestinos de drogas. Mas meus ajudantes nunca foram tão extraordinários como em uma reportagem que fiz sobre os madeireiros no Amazonas. Na ocasião, eu estava viajando com meu colega jornalista Philipp, com meu amigo italiano e fotógrafo Giorgio e com um guia de florestas chamado Davilson, que mora em Copacabana. Estávamos numa reserva indígena, quando nosso bando ilustre decidiu entrar num campo de madeireiros ilegal. Só tinha um jeito de a ideia dar certo: precisávamos que um grupo de nativos nos acompanhasse. Assim nos deparamos com os suruís: um povo ancião de aproximadamente mil habitantes, divididos em vários povoados em uma reserva entre Mato Grosso e Rondônia. Algumas aldeias cooperam com os madeireiros, deixam que desmatem a floresta por dinheiro. Outros lutam contra isso até o amargo fim. Fomos a uma aldeia de militantes: de índios que são contra o desmatamento. Um jovem nos avisa que o cacique vai nos receber "daqui a pouco". Deixaram que puséssemos nossas redes em sua escola, na periferia da aldeia. E aí se passaram horas. Não fomos autorizados a entrar. Quando o calor do dia passou, e nuvens de mosquitos começaram sua caçada, fomos levados até uma oca no meio da aldeia. O cacique, Joaquim Suruí, usava jeans e botas de camurça. Tinha uma cara séria e amargurada. Os suruís sentaram-se ao nosso redor, numa espécie de conselho. "Uma vez estávamos caçando macacos e encontramos brancos com motosserras", disse Joaquim. "Ameaçaram matar toda a aldeia." Muitos homens fizeram longos monólogos em tupi-guarani, iam traduzindo, de vez em quando, só alguns trechos. E assim ficaram, por duas horas. Aí, de uma só vez, levantaram-se. Iríamos no dia seguinte, logo ao amanhecer. Havíamos resolvido nosso problema de segurança. Sete guerreiros armados nos acompanhavam. Um tinha uma espingarda, outros levavam arcos e flechas, os facões balançando em seus cintos. Mas surgiu outro problema. Seguir com guerreiros suruís, pela floresta e por alguns quilômetros, não se aprende na Faculdade de Jornalismo. Guerreiros indígenas não fazem caminhadas assobiando alegremente, como eu, alemão, tinha imaginado. Eles correm, ladeira abaixo e ladeira acima. Nem consideram a hipótese de fazer uma parada. Neste dia, estava chovendo gotinhas minúsculas, a lama funda agarrava a cada passo. Uma vez ouvimos um porco do mato debaixo de uns gravetos, e nossos acompanhantes quase o pegaram. Outra vez vimos no chão a pegada de uma onça. Em resumo, fazer corpo mole naquela situação simplesmente não era uma opção. Ninguém conseguia parar os indígenas, e nós reunindo as últimas forças para acompanhá-los. Meu casaco de chuva, modelo hightech da Adventure-Store da Alemanha, ficou ensopado em segundos, por dentro e por fora. Tirei-o, com raiva, e também desisti de lutar contra o ataque de mosquitos. Na ocasião, Giorgio tirou umas fotos minhas. Dá para me ver, acompanhado por bravos guerreiros e quase morto de exaustão. Diante dos meus pés estava o casaco, caro, inútil e coberto de lama. Horas depois, de repente, os suruís pararam. Escutaram, concentrados, e seguraram seus arcos com mais força. Estávamos entrando numa clareira: tocos de árvores rachados, troncos serrados, rastros de veículos de carga, galões de diesel jogados fora, garrafas de Coca. "Eles fugiram", disse nosso acompanhante. Pela primeira vez os indígenas riram, aliviados. Na hora da despedida o cacique pediu meu casaco de chuva. Você me dá? Tão chique... Na sua próxima caminhada pela floresta, ele vai usá-lo. Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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