Opinião: Sentimento antiglobalização é desafio para a UE

Christoph Hasselbach

Dificuldades para aprovar o acordo de livre comércio com o Canadá mostram que o sentimento antiglobalização é forte dentro do bloco, e a União Europeia terá de aprender a lidar com isso, opina Christoph Hasselbach.Com a Bélgica superando o impasse com suas regiões administrativas, evitou-se por pouco o constrangimento de a União Europeia (UE) não ser mais considerada um ator sério em questões de comércio internacional. E isso que estamos falando do Canadá, um parceiro relativamente próximo dos europeus. Para os puristas das competências políticas, a coisa era simples desde o início: questões comerciais da UE estão tradicionalmente nas mãos do bloco europeu e não dos estados nacionais. A Comissão Europeia conduz as negociações, e o controle legislativo é feito pelo Parlamento Europeu. Assim como em todos os parlamentos nacionais, em Estrasburgo estão representados os deputados de esquerda, os verdes e os críticos do livre comércio, e eles podem tentar impor as mudanças que desejarem. Portanto, qual é a diferença? Por essa lógica, ninguém pode falar de "imposição tecnocrata de contratos comerciais", como o ministro da Economia da Alemanha, o social-democrata Sigmar Gabriel, chamou essa abordagem estritamente europeia. Mas a questão não é tão simples assim. Pois Gabriel deu voz a um desconforto generalizado, que diz que a UE tem passado por cima dos cidadãos em suas decisões. Mesmo que política partidária tenha desempenhado um papel importante na declaração do ministro, e mesmo que essa percepção seja injustificada, esse sentimento existe, e a UE tem que saber lidar com ele. Por causa disso, Alemanha e outros países trataram de garantir – ainda que tarde demais –que seus parlamentos nacionais e regionais também fossem envolvidos. É inegável que, com isso, a percepção da legitimidade do Ceta é significativamente ampliada – mas também a complexidade do processo, como os últimos dias deixaram claro, aliás mais do que claro. Isso leva a uma conclusão desapontante: ou a UE age de forma eficiente e enfrenta alegações de falta de transparência ou ela opta pela máxima participação e se torna incapaz de agir. Em tese, qualquer tema político europeu poderia levantar esse debate crucial sobre processos decisórios. Mas não é coincidência que isso tenha acontecido justamente com o Ceta. Tanto o Acordo Integral de Economia e Comércio (Ceta) como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), a parceria entre UE e EUA, são símbolos da globalização, e esta tem uma má reputação na Europa. Muitas pessoas a associam a incerteza, desemprego e perda de identidade. Portanto, a União Europeia pode conduzir as negociações como quiser e mesmo assim não vai conseguir impedir que a resistência a quaisquer tipos de acordos de livre comércio cresça ainda mais. A UE é cada vez mais confrontada com a expectativa de que ela deve proteger os seus cidadãos da globalização. Caso contrário, terá perdido sua essência. Isso explica, em parte, o crescimento dos partidos que questionam justamente esses dois pontos: a União Europeia e a globalização. Mas aqueles que querem impedir o livre comércio precisam saber que, agindo assim, eles não conseguirão salvaguardar os cidadãos de mudanças. No fim das contas, o que os países ocidentais tentam alcançar, com o Ceta e o TTIP, é estabelecer padrões comuns que não poderão mais serem ignorados em todo o mundo. Se eles falharem, outros irão fazê-lo, especialmente a China. E esses padrões não podem ser do interesse da Europa. A crítica ao Ceta e ao TTIP é especialmente forte na Alemanha – uma situação paradoxal, pois, se existe um país no mundo que se beneficiou enormemente da globalização, esse é justamente a Alemanha.

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