Após Brexit e Trump, Itália pode ver novo triunfo do populismo

Elizabeth Schumacher (av)

Referendo constitucional de 4 de dezembro pode custar cargo ao premiê Matteo Renzi e jogar o país num futuro incerto. Mesmo assim, italianos tendem a optar por esse caminho, segundo as pesquisas eleitorais.Muitos veem no pleito presidencial da França, no início de 2017, o próximo grande teste para ver se os eleitores vão continuar cedendo aos apelos do populismo contra o establishment – em seguida aos abalos sofridos com o voto britânico a favor da saída da União Europeia (Brexit) e a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. Antes disso, porém, o referendo constitucional de 4 de dezembro na Itália tem potencial para gerar a próxima reviravolta no grupo das dez maiores economias do mundo, mostrando até que ponto os eleitores da Europa estão dispostos a expressar seu rechaço às políticas do establishment, mesmo ao preço de um futuro incerto. O primeiro-ministro Matteo Renzi colocou em jogo o destino do país e a sua própria carreira, na esperança que, com seu "sim", a maioria dos italianos apoie a manobra dele para reduzir a instabilidade e o impasse político em Roma. As medidas exatas da consulta popular são complicadas: a startup italiana ProntoPro está até mesmo oferecendo um serviço explicativo para os votantes indecisos. Em termos simples, porém, elas reduziriam o número de membros e as prerrogativas da câmara superior, o Senado, conferindo mais poder ao Executivo. Referendo e moção combinados: uma escolha infeliz Embora, em tese, uma assembleia legislativa numerosa seja mais democraticamente representativa, na prática o Parlamento italiano tende à inércia. Com um total de 951 membros, ele é o terceiro maior do mundo, e seu bicameralismo cem por cento igualitário implica que a legislação pode ser empurrada de um lado para o outro ad infinitum. "Mesmo que só se mude uma vírgula na lei, ela tem que ser enviada de volta para a outra câmara", explica à DW Franco Pavoncello, presidente da John Cabot University de Roma. "O país tem lutado contra isso há décadas." À primeira vista, a escolha parece fácil: votar "sim" para reduzir o peso morto político e respaldar o governista Partido Democrático (PD), de centro-direita; ou votar "não" para manter o status quo e impedir que o Executivo consolide seu poder. No entanto, Renzi prometeu que deixará a chefia de governo se o "não" prevalecer, fazendo confluírem, assim, a emenda constitucional e o apoio a seu mandato. E – embora nas últimas semanas ele tenha confundido os eleitores, primeiro retirando, depois reiterando sua promessa – "a probabilidade é bastante elevada" de que um Renzi derrotado não dure muito tempo no Palazzo Chigi, aponta Pavoncello. "Ele transformou um momento constitucional num momento político, e isso é bastante infeliz", avalia o cientista político americano sediado na capital da Itália. Sozinho no topo do escalão As pesquisas de opinião dão uma dianteira folgada para um "não" à moção do PD. E, mesmo que as inesperadas vitórias do Brexit e de Trump tenham ensinado os votantes a desconfiarem de enquetes, o fato é que o primeiro-ministro toscano está sendo atacado por todos os flancos. De um lado está a ala direitista, em parte liderada pelo espectro do ex-premiê Silvio Berlusconi – uma espécie de Trump à la italiana. Do outro, o relativamente jovem Movimento Cinco Estrelas (M5S), uma nebulosa legenda de tendência esquerdista encabeçada pelo humorista Beppe Grillo, notória por combater o establishment a qualquer preço. "Do ponto de vista estratégico, foi errado usar o referendo como uma moção de confiança pessoal", analisa Luca Verzichelli, professor de política italiana da Universidade de Siena. Paradoxalmente, a oposição a Renzi também parte de seu próprio partido: "A centro-direita, a esquerda radical, uma pequena galáxia de micropartidos, até alguns do PD: todos são contra ele." É justamente a esses grupos – "que juntos não são capazes de concordar sobre absolutamente nada, exceto que são pelo 'não'" – que caberia arrumar os escombros de uma derrota do premiê, acrescenta Verzichelli. "E mesmo que o 'não' prevaleça, será uma vitória de Pirro, pois a oposição sabe que a reforma constitucional é necessária. Não estou dizendo que se trate da última chance, mas é uma oportunidade muito rara de mudar alguma coisa." Populismo ambidestro A presença do Cinco Estrelas na lista dos opositores de Renzi é digna de nota. De certa forma, o caso da Itália é único, pois as vozes populistas que assombram os políticos estabelecidos não partem só da direita, mas também de um partido ostensivamente de esquerda. Contudo, tanto o M5S como o direitista Berlusconi têm feito comentários que dificultam qualquer tentativa de rotulá-los com uma ideologia distintiva, numa séria de guinadas bem sintomáticas da complexidade do atual debate. Quando Trump se tornou presidente eleito dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, o eurocético Grillo proclamou em seu popular blog que "os verdadeiros idiotas, populistas e demagogos são os jornalistas e os intelectuais do establishment [...] Há semelhanças entre a história americana e o Movimento." Por outro lado, apesar de incitar seus eleitores a votarem "não", na quinta-feira (25/11) o magnata da mídia Silvio Berlusconi declarou, em entrevista à rádio RTL, que Renzi "é o único líder político" que ainda resta na Itália. A hora dos indecisos Para a Itália, o avanço dos populistas deveria ser uma preocupação tão grande como foi nos EUA ou no Reino Unido, afirma Verzichelli. Afinal, "os efeitos 'bola de neve' do populismo de direita e de esquerda" poderão transformar a simples questão de "fazer emendas técnicas a um sistema que permanecerá basicamente o mesmo" num novo período de incerteza econômica para um país cuja dívida externa já alcança 135% do PIB nacional. No momento, apesar de o "não" estar vencendo nas enquetes, quase um quarto dos eleitores italianos ainda estão indecisos. Um deles, Nicholas B., de 31 anos, do Vêneto, revela à DW: "Se eu fosse votar agora, escolheria o 'não' – e isso faz eu me sentir extremamente triste. Mesmo assim, acredito que é a coisa certa a fazer." "Os italianos vão dizer 'não'", prossegue o eleitor, "como sempre disseram à inovação, à mudança e ao futuro – o que, na verdade, nos confirma como um país antiquado, tradicionalista, até reacionário". Ainda assim, para ele, transformar o Senado num órgão "não eleito" é ir um pouco longe demais. Outro entrave para Nicholas B. é a inclusão da União Europeia na Constituição da Itália. A seu ver, certos aspectos econômicos que o bloco assumiu nos últimos anos "representam uma das maiores ameaças à prosperidade italiana". Já Renzi vem realizando uma série de comícios, num desesperado apelo para que os indecisos se inclinem a seu favor, apostando numa estratégia que fracassou manifestamente para os democratas americanos. Vale mencionar que o gerente da campanha pelo "sim" é ninguém menos do que Jim Messina, que desempenhou a mesma função para Barack Obama em 2012. Segundo Pavoncello, uma última esperança da ala de Renzi é que os indecisos acabem votando a seu favor "só por não quererem que quem assuma o poder seja o Cinco Estrelas – que é inexperiente em governar, como ficou evidenciado agora que ele está dirigindo a municipalidade de Roma". Por outro lado, com 63 governos nacionais em 70 anos, é improvável que a perspectiva de mais instabilidade possa intimidar seriamente o eleitorado italiano.

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