De pequenos delitos ao terrorismo

Stephanie Höppner (md)

Suposto autor de atentado em Berlim tinha extenso histórico de problemas com a Justiça. Estudo mostra que passado criminoso de jihadistas atuantes na Europa é característica mais comum do que se pensa.Anis Amri, suposto autor do atentado em Berlim, passou quatro anos em prisões na Itália, condenado por roubo, agressão e por incendiar o prédio de uma escola. Ele foi preso também no seu país de origem, a Tunísia, por delitos relacionados a drogas, de acordo com a agência de notícias francesa AFP. O jornal alemão Die Welt noticia que lá ele teria sido condenado também a cinco anos de prisão por roubo. As biografias de outros autores de atentados ocorridos nos últimos meses apresentam características semelhantes. Os autores dos ataques de Paris, que em novembro de 2015 mataram 130 pessoas em cinco lugares diferentes, eram fichados na polícia. Um deles, o francês de 29 anos Ismael Omar Mostefai, já havia sido condenado oito vezes pelas autoridades judiciais francesas por pequenos delitos. Também Mohamed Bouhlel, que avançou com um caminhão neste verão contra uma multidão em Nice, na França, matando 86 pessoas, teve passagem pela polícia. Os terroristas de Bruxelas, que em março detonaram bombas em um aeroporto da cidade, matando 31 pessoas, também tinham um passado de crimes. "Maioria tem histórico criminoso" Segundo um estudo realizado pelo Centro Internacional para Estudo da Radicalização e da Violência Política (ICSR), em Londres, essas trajetórias não são incomuns. "Em muitos países europeus, a maioria dos jihadistas tem um passado criminoso", constata o relatório "Criminal Pasts, Terrorist Futures: European Jihadists and the New Crime-Terror Nexus" (Passados Criminosos, futuros terroristas: jihadistas europeus e o novo nexo do crime terrorista). Para o estudo, foram analisados históricos de 79 jihadistas europeus, que já eram criminosos antes de sua radicalização. Para isso, os estudiosos analisaram artigos de jornais, documentos judiciais e documentos oficiais. Além disso, os pesquisadores realizaram entrevistas com especialistas em centros antiterroristas. O estudo não mostra quantos jihadistas têm um passado criminoso, mas sim como é possível que o radicalismo se desenvolva a partir de um passado criminoso. O levantamento torna claro que o ambiente e a rede social se sobrepõem consideravelmente. Criminosos e terroristas que ainda estão à procura de comparsas para seus crimes fazem o recrutamento dentro do próprio meio. O documento não consegue levantar evidências de que agrupamentos jihadistas realmente costumam recorrer a criminosos. "Mas a explicação mais plausível é a de que esses dois meios se sobrepõem fortemente, fazendo com que criminosos e jihadistas muitas vezes possam ser encontrados em um mesmo lugar", observa o documento. Isso contradiz teorias que apontam que terroristas recrutam principalmente das classes média e alta e que as sobreposições entre os ambientes criminosos e de terroristas são pouco frequentes. A convergência desses dois grupos conseguiu se dar de forma despercebida, por causa dessa crença generalizada, criticam os estudiosos. Busca de perdão dos pecados Para cerca de dez dos muçulmanos radicalizados do estudo, a prática religiosa, em que o indivíduo supostamente esperava conseguir o perdão, desempenhou um papel importante. Um acontecimento súbito, uma crise pessoal mudou a perspectiva de vida deles. Eles passaram a achar que agiram mal em suas vidas, que pecaram demais. Assim é a história do traficante de drogas Abderrozak Benarabe, radicalizado após o diagnóstico de câncer de seu irmão. "Muitas pessoas morreram pelas minhas mãos. Isso se tornará um problema quando eu me encontrar com Deus", disse. Benarabe foi para a Síria, lutar contra as forças do governo. Mais tarde, ele enviou dinheiro da Dinamarca a amigos jihadistas na Síria, diz o estudo. O jihadismo passa a ser para esses jovens uma forma de reparação, e práticas religiosas moderadas e não violentas não lhes atraem. "O jihadismo não constitui somente uma forma de obter perdão para o passado criminoso, mas também de satisfazer as necessidades deles", diz o estudo. Grupos jihadistas oferecem – assim como grupos criminosos – uma sensação de poder, violência, aventura, além de uma possibilidade de se rebelar contra a sociedade. Prisão como lugar de aliciamento A prisão também desempenha um papel importante para muitos jihadistas. No levantamento do ICSR, 57% deles já estiveram na prisão – com penas entre um mês e dez anos. O tempo atrás das grades tem consequências fatais. Quase um terço se radicalizou nesse período. Foi o caso de Harry Sarfo, que assaltou um supermercado. Na prisão na Alemanha, ele conheceu o jihadista alemão René Marc Sepac, que o convenceu de que Sarfo servia ao "falso islã" e lhe fornece livros salafistas. Sarfo também foi para a Síria e recebeu treinamento do grupo extremista "Estado Islâmico". Para jihadistas, prisões são, portanto, lugares onde eles podem obter uma audiência receptiva à sua ideologia. Também a difícil readaptação à vida em sociedade pode levar ex-presidiários à radicalização. Por isso, os especialistas recomendam que as penitenciárias sejam mais bem equipadas com pessoal especializado e que funcionários do sistema carcerário recebam treinamentos mais intensos sobre extremismo. A presença de imãs liberais nessas instalações também pode ser uma solução, sugere o estudo.

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