Opinião: A tentativa de evitar o pior nas eleições francesas

Max Hofmann

Nova aliança centrista na França é uma boa notícia para todos que veem uma presidente Le Pen como o pior dos males. Ainda assim, o pleito está ameaçado de infarto populista, opina o jornalista Max Hofmann.Que consequências teria para as eleições na França, se o ultraesquerdista e lobo solitário Jean-Luc Mélenchon resolvesse mesmo apoiar o candidato socialista, Benoît Hamon? As pesquisas de intenção de voto atuais acusam um potencial de cerca de 26% para tal aliança na (extrema) esquerda do espectro político. Isso é mais do que obtiveram os conservadores e seu maltratado candidato, François Fillon. E possivelmente também mais do que o queridinho da mídia Emmanuel Macron, mesmo que ele tenha encontrado um novo e importante aliado em François Bayrou, figura altamente influente do centro político. Neste caso, quem se confrontaria no inevitável segundo turno de 7 de maio seria a populista de direita Marine Le Pen e o socialista ferrenho Hamon. Os programas econômicos de ambos se caracterizam por um desligamento consequente entre a realidade francesa e a europeia. Make France great again? Desse jeito, definitivamente não. Aos eleitores, restaria a escolha entre a peste e a cólera, o que para Le Pen poderia ser uma boa chance de vencer o segundo turno do pleito presidencial. Pânico total! Somente graças a Mélenchon será possível evitar esse cenário de horror. O velho guerreiro é tão cabeça-dura quanto esquerdista, e cooperação não é sua especialidade. Portanto, os franceses precisam terminantemente conseguir enviar para o segundo turno um candidato igualmente elegível pelos conservadores e pelos socialistas. Talvez seja preciso tapar o nariz e fechar os olhos – mas a repulsa não pode ser demasiada! Isso já exclui Hamon. E, a rigor, também Fillon: o candidato dos republicanos pode ter se recuperado um pouco nas sondagens, mas a avalanche de escândalos em torno das atividades passadas de sua esposa permanece imperdoável. Muitos eleitores também veem assim a questão. Portanto só resta Macron. De antemão, saiba-se que o ex-ministro de 39 anos não conseguirá cumprir tudo o que seus entusiásticos adeptos esperam dele. Caso ele de fato se revele como o Barack Obama francês – conforme afirmam alguns –, então será antes o Obama dos últimos anos de mandato, e não o Messias da campanha eleitoral americana de 2008. Apesar de todo o incensamento, também Macron não será capaz de encarnar a tão desejada "descalcificação" da política francesa. Ele serve vinho velho em garrafas novas, em cujo rótulo brilha o nome de seu novo movimento, "En Marche" (em marcha). Mas o fato é que ele se formou pela elitista École Nationale d'Administration (ENA), foi ministro da Economia de um desastroso governo François Hollande e banqueiro de investimentos. Para o eleitorado francês, são três maldições de uma só vez. Ainda assim, Macron segue sendo a resposta mais convincente a Le Pen. Ele entendeu que não faz sentido pescar votos nas águas turvas da Frente Nacional (FN), como fez o ex-presidente e ex-candidato Nicolas Sarkozy. Os eleitores da legenda populista parecem mesmo incapazes de perceber o que quer que ocorra do lado de fora de sua própria seita política: eles só escutam a guru Marine, que sorri toda simpática enquanto aplica a injeção de veneno. Aconteça o que acontecer, Le Pen pode contar com seus fiéis eleitores – ainda que a Justiça reviste as dependências dela e exija de sua assistente a devolução de 340 mil euros: nada disso é capaz de afetar "Marine Tefal". De volta a Macron: em seu programa eleitoral pró-União Europeia, cosmopolita, equilibrado entre a esquerda e a direita, muitos franceses poderão projetar o que quiserem. Ele é suficientemente vago, e Macron pode utilizar seu carisma e sua história pessoal como superfície de projeção – um tanto no estilo de Obama. No entanto, nas últimas sondagens os sinais vitais da campanha de Macron se apresentaram mais fracos. Por isso, o experiente Bayrou realizou a necessária operação de emergência, retirando a própria candidatura. Trata-se de uma tentativa de estabilização, a fim de evitar o gabinete dos horrores dos demais candidatos – acima de tudo Le Pen. E a campanha presidencial da França permanece em aberto, apesar dessa cirurgia.

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