Opinião: Alemanha não pode olhar impassiva para França

Richard Fuchs (md)

Uma vitória do populismo de direita nas eleições francesas pode acarretar o fim da ideia europeia. Governo e sociedade alemã não só podem como devem trabalhar para que isso não ocorra, opina o jornalista Richard Fuchs.Marine Le Pen não trata com delicadeza seus inimigos políticos – nem mesmo a Alemanha. O país vizinho é, aos olhos da populista de direita francesa, corresponsável pela difícil situação econômica e política da França. O euro é, para Le Pen, a "arma política" dos alemães. "Ordens alemãs" teriam roubado a autonomia de seu país; e o terrorismo islâmico, chegado à França com ajuda do caos migratório criado por Merkel. Em suma, esta Alemanha deve ser combatida, alerta a líder da Frente Nacional, se dirigindo a seus seguidores. E sua lista de exigências é tão curta quanto radical – sob medida para almas simplórias –, incluindo a saída do Espaço Schengen e da União Europeia. Na corrida à presidência francesa, Le Pen é tida, com sua retórica de isolamento, como favorita. Ela deve ganhar pelo menos o primeiro dos dois turnos. Um quarto dos eleitores atualmente votaria nela e em seus slogans. Se eles serão ainda mais, é uma incógnita. Mas desde o Brexit e a eleição de Trump, vale a divisa "surpresas não podem mais ser descartadas". Se o "Frexit" vier, ele seria o fim da cooperação europeia como a conhecemos hoje. Sem a dupla franco-alemã, o mito de fundação da UE se perderia – uma desintegração ainda maior seria quase inevitável. Seria recomendável entender o fracasso da ideia europeia como aquilo que ela é atualmente: um perigo real. E este perigo não fica menor no momento em que o ignoramos. Isto se aplica ao governo alemão, da mesma forma que a todos àqueles que se importam com a amizade franco-alemã. Isto significa, em consequência: não basta mais ser um observador neutro e independente, sentado confortavelmente do outro lado do rio Reno. O Brexit nos mostra que chegou a hora de um debate europeu – também em campanhas eleitorais nacionais. Muitos estavam convencidos de que as forças pró-europeias no Reino Unido conseguiriam convencer a maioria dos eleitores das inúmeras vantagens de uma adesão à UE. Eles falharam miseravelmente, como sabemos hoje. Isto se deveu, em parte, à incitação de medos irracionais e à propagação de mentiras e meias-verdades pelos defensores do Brexit. Isto se deveu, por outro lado, também ao fato de que não havia ninguém que pudesse incorporar pessoalmente e de forma crível os sucessos da Europa. E exatamente este espaço vazio não deve existir uma segunda vez durante a eleição presidencial francesa. O meio político alemão pode e deve, por isso, desempenhar o papel de propagandista do futuro comum na casa europeia. Isto inclui tomar partido pelos sucessos da Europa, que são tão óbvios que muitas vezes passam despercebidos. Isto inclui o trânsito sem atrasos e filas através das fronteiras internas; a segurança jurídica em outros países, sem concessões; direitos humanos garantidos e vinculativos. A lista pode e deve ser infinitamente mais longa. Em suma, a Europa é muito mais do que a sua burocracia. E exatamente esta Europa comum pode e deve nos fazer um pouco orgulhosos. Se os políticos da Alemanha, assim como a sociedade civil, se envolverem na campanha eleitoral francesa com esta mensagem, isto seria um bom investimento no nosso futuro comum. E quem ama um projeto, pode também encontrar as respostas corretas para as reformas, sem dúvida, necessárias. A mão estendida através do Reno, que torna inesquecível até hoje o fundador da UE Robert Schuman, continua a ser a resposta certa para as hostilidades de uma Marine Le Pen.

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