Pé na praia: O MC e os bem dotados

Thomas Fischermann

Uma conversa com um veterano do mundo do funk no Rio de Janeiro ajuda a entender o que está por trás do fenômeno cultural, sua relação com o tráfico de drogas e com a violência.Minha pesquisa mais recente, como correspondente de um jornal alemão no Brasil, é sobre baile funk. Ouvi falar que nas prefeituras do Rio de Janeiro, São Paulo e no Senado em Brasília tem havido diversas tentativas de proibi-los – e esse tipo de coisa interessa muito a meus leitores na Alemanha. Os alemães já ouviram falar do "baile funk", pelo menos por causa dos filmes Tropa de Elite. E em geral não gostamos quando querem proibir qualquer tipo de expressão cultural. Já tivemos isso demais em nossa história. Então fui tomar um café no fim de semana com MC Leonardo. O homem é um veterano no mundo do funk. Seu maior sucesso, o Rap das Armas, fez parte da trilha sonora nos filmes Tropa de Elite. "Com certeza você deve estar pensando: vai aparecer um tipo com correntes de ouro pesadas no pescoço", disse o MC e sentou-se à minha mesa. Pedimos café e ficamos observando os turistas do outro lado da praça, onde fica o templo da cultura no Rio, o Theatro Municipal. Não, MC Leonardo não estava usando correntes de ouro. Em redor de seu pescoço estava pendurado um cordão azul com uma placa de identificação. Estava fazendo um trabalho na Câmara, bem na esquina de onde estávamos. Estava usando um boné de rapper alaranjado e uma camisa polo azul e branca compatível com o gosto dos coxinhas ("Até faço shows com esse tipo de roupa"). MC Leonardo é a face burguesa do funk carioca, uma pessoa respeitável. Em comparação com outros, faz uma música amena, inventa as letras e acostumou-se a responder perguntas políticas de forma rotineira. "Nossos críticos dizem: o funk não é música, não é cultura", afirmou logo após nos cumprimentarmos, fazendo um pequeno discurso. "Dizer isso é pior que assassinato. Nega a nossa existência". Por que tantas pessoas querem proibir o funk, MC Leonardo? "Racismo", respondeu o músico com uma única palavra. Contou que nas favelas policiais atiravam em alto-falantes. Que eles passam sobre o equipamento de som com o caveirão, e que tropas da PM dispersavam um baile funk após o outro. Até a virada do milênio ainda havia 800 bailes funk por fim de semana no Rio de Janeiro, em 2008 eram cerca de 300 e atualmente "mais nenhum baile funk de verdade". Em toda a cidade só daria para encontrar um punhado de empresários dispostos a montar seu equipamento de som para um baile funk. "Uma cultura está sendo desmantelada", disse MC Leonardo. Pelo estado e pela cultura da classe média, predominantemente branca e que não sabe muito a respeito da vida nas favelas. "Tudo bem, MC Leonardo", disse, "mas temos que discutir mais a fundo a este respeito". Eu já tinha ido a bailes funk. Não é verdade que eles não existem mais. Já fui a áreas na cidade próximas ao aeroporto onde facções do tráfico mantinham os bailes, meus tímpanos explodiram bem embaixo de equipamentos gigantescos de som e luz. Achei a música interessante. Os drinks eram baratos, o cheiro de maconha no ar não me incomodou. O que me deixou nervoso foram os inúmeros jovens nas esquinas com seus fuzis encarando o visitante exótico alemão, mas eles foram amáveis comigo. Com relação às letras, me lembro que falavam de rapazes bem-dotados e aberturas corporais apertadas, e de muita violência e morte. Da mesma forma, o estilo de dançar não era muito compatível com a visão de um católico da Renânia. Meu ponto é que baile funk é o programa de diversão clássico do tráfico de drogas. Eles os organizam e os patrocinam. Vários policiais do Rio me explicaram: precisam proibir os bailes em certos locais porque as facções de traficantes usam esses eventos para recrutar jovens. E não é preciso ser racista para criticar as letras de muitas músicas do baile funk, que tematizam a violência e o sexo violento. Até onde eu sei, inúmeras igrejas nas favelas do Rio de Janeiro também são contra, e elas sempre estão lotadas de negros. Conheço pais nas favelas do Rio de Janeiro que não acham nada bom que seus filhos frequentem eventos de baile funk. Disse tudo isso ao MC Leonardo. "Os moleques só usam certas expressões porque é proibido. Só por isso!", ele respondeu. Olhei cético para ele, mas conversamos ainda por um longo tempo: sobre a vida na favela, sobre a violência do cotidiano, sobre exclusão social e sentimento de inferioridade dos favelados. "Uma música que se ocupa com violência não é a mesma coisa que violência", disse MC Leonardo. "É uma diferença fundamental." "Sim", respondi, "mas quando os músicos falam o tempo todo sobre violência e sexo, transformam isso em uma coisa banal. Então os jovens que escutam passam a achar isto normal." "E eles podem ir a igreja para conversar a respeito?", respondeu o MC. "Não, não podem. Quando vivenciam isso o tempo todo têm que falar sobre isso em algum lugar. Em algum lugar tem que haver um espaço para conversar. Para muitas pessoas este lugar é o funk." "Sim", reconheci. "Concordo. Mas na maioria das vezes os bailes funk são organizados pelos traficantes, responsáveis por muita violência nesta cidade". MC Leonardo balançou negativamente a cabeça. "Nas favelas das quais você fala tudo é controlado pelo tráfico. Sem o tráfico ninguém faz nada – nem mesmo uma igreja." "Existe uma ligação forte entre o tráfico e o funk!", contestei. A discussão ficou indo para um lado e para outro, eu não concordei com tudo que o MC contou. Mas quanto mais conversávamos, mais eu me perguntava: ao invés de proibir o baile funk, não seria melhor mudar as condições nas favelas tão drasticamente descritas pelos MCs em suas canções? "O tráfico gosta do funk porque todos eles são favelados", disse MC Leonardo ao se despedir, quando já estava na hora de voltar para seu emprego na Câmara, e sorriu. "Senão, com certeza eles iriam à ópera!" Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna "Pé na Praia" faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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