Bibliothek: Pensando em Claire Waldoff

Ricardo Domeneck

Talvez estranhe falar sobre o trabalho de uma cantora de cabaré nesta página dedicada à literatura. Mas o cabaré foi um elemento muito importante para a escrita de alguns artistas alemães.Nesta última quinta-feira, 21/07, estive em uma das casas dedicadas à literatura mais bonitas de Berlim, o Literarisches Colloquium, para assistir a uma leitura e discussão entre autores da escrita queer alemã. Eram eles Traude Bührmann, Gunther Geltinger, Hans Pleschinski, Angela Steidele e Antje Rávic Strubel. Sediado em uma belíssima casa antiga às margens do Wannsee, o lago mais famoso da cidade, o Literarisches Colloquium é uma das instituições literárias mais respeitadas de Berlim, organizando leituras e residências na capital alemã para autores nacionais e estrangeiros. Só o local já vale uma visita. O evento havia sido organizado pela Antidiskriminierungstelle des Bundes (Agência Federal Antidiscriminação) e ocorria num momento bastante oportuno: neste fim de semana, Berlim viveu mais uma vez seu CSD (Christopher Street Day), conhecido no Brasil como Parada do Orgulho LGBTI, e a comunidade queer alemã tinha muito para comemorar, com duas conquistas históricas nos últimos meses: a legalização do casamento igualitário, sem distinção de gênero, e a reabilitação daqueles que haviam sido condenados pelo chamado Parágrafo 175, que tornou ilegal a homossexualidade na Alemanha entre 1871 e 1994. Após a leitura e às margens do lago numa roda de pessoas, a cabaretista contemporânea Sigrid Grajek começou a cantar algumas canções alemãs da época da República de Weimar, especialmente do repertório da excelente Claire Waldoff (1884-1957), uma cantora bastante conhecida em sua época, mas lançada na obscuridade com a ascensão do partido nazista ao poder, quando o Parágrafo 175 entrou mais uma vez com força total em vigor após o período de tolerância da República de Weimar. Uma das canções que as pessoas na roda cantavam junto de Sigrid Grajek, especialista na obra de Claire Waldoff, era "Wir sind anders als die anderen", que traz já no título um jogo de palavras difícil de traduzir, brincando com "anders" (diferente) e "anderen" (outros). Nós somos diferentes dos outros era o refrão. Era incrível acompanhar a letra e ver como Claire Waldoff cantava já na década de 1920 algumas das reivindicações que se tornariam parte comum do debate político contemporâneo por igualdade de direito, ao mesmo tempo que defende o direito à diferença. Talvez estranhe a alguém falarmos sobre o trabalho de uma cantora de cabaré nesta página dedicada à literatura alemã. Mas o cabaré foi um elemento muito importante para a escrita de alguns artistas alemães de renome internacional. Basta pensarmos nas grandes colaborações entre Bertolt Brecht e Kurt Weill. Brecht viria a usar em várias peças de teatro e poemas a estrutura formal das canções de cabaré. Kurt Tucholsky (1890-1935), um poeta hoje estabelecido no cânone literário da língua alemã, viria a escrever textos que acabaram na voz de Claire Waldoff. É importante notar algo, porém: muitas das canções de Claire Waldoff não estão exatamente em alemão, mas no chamado dialeto berlinense, e podem ser verdadeiros desafios para nós estrangeiros se não estivermos habituados às trocas de sons comuns da fala berlinense. Nesta semana de comemorações da comunidade queer alemã, aceite o desafio de ouvir e tentar compreender em alemão a fala berlinense de algumas canções de Claire Waldoff, como "Nach meene Beene is ja janz Berlin verrückt". Algo da poesia moderna alemã ainda se movimenta nesta antiga tradição do cabaré. Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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