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"Tenho uma relação muito emocional com o Brasil"

Renate Krieger

20/12/2017 12h54

A bióloga Stephanie Splett estudou em Brasília por acaso, depois que seu pai, repentinamente, decidiu aceitar um cargo na embaixada alemã. Desde então, ela nutre um carinho especial pelo país."Minha relação com o Brasil não começou por impulso meu – foram meus pais que decidiram mudar para Brasília em 1985. Meu pai trabalhou na embaixada alemã na capital federal como adido de agricultura e florestas. Honestamente, não me lembro porque meus pais ficaram tão interessados em mudar para um país quente como o Brasil – eles, que sempre tiraram férias com meus dois irmãos mais novos e comigo na Escandinávia.

Eu tinha 19 anos e acabado de encerrar o ensino fundamental, tinha começado meus estudos de Biologia na universidade em Bonn e não acompanhei meus pais. Mas visitava minha família em Brasília – meu irmão e minha irmã foram junto com meus pais – nas férias da faculdade. E também comecei a pensar em como poderia conciliar os estudos com o Brasil.

Assim, no início de 1990, consegui fazer o meu trabalho de conclusão de curso da universidade alemã em parceria com a Universidade de Brasília. Eu fazia parte de um instituto de sistemática e estudava, entre outras coisas, fenômenos que levam a uma maior biodiversidade. Me concentrei numa família de plantas e cartografei as ocorrências no Distrito Federal. Minhas estadias no Brasil, nessa época, não foram tão longas – por duas ou três vezes, passei um mês no país para fazer a pesquisa de campo.

Foi diferente durante o doutorado. Meus pais já tinham voltado a morar na Alemanha e eu fiz pesquisas de campo mais extensas, durante um ano e meio, entre 1994 e 1995.



Sem dúvida, essas experiências com o Brasil mudaram a minha vida. Foi uma mudança de fato emocional, tanto para mim quanto para os meus pais, que, mesmo depois de voltar para a Alemanha, mantinham muito o contato com as pessoas no país. Meu irmão acabou se casando com uma brasileira – atualmente, eles moram em Washington, nos EUA, e minha cunhada diz estar desiludida tanto com a situação da segurança quanto com a política brasileira. Eu acho que a situação atual do Brasil é bastante complexa.

Ainda domino o português e tento me manter informada sobre o Brasil. No trabalho, sou chefe do grupo América aqui do DLR (sigla em alemão para Centro Aeroespacial Alemão) há quase dez anos – mesmo tendo passado bastante tempo fora do âmbito ligado ao Brasil, já que não existiam postos que tinham relação com o país quando entrei aqui e, por isso, fui designada para trabalhar com a Europa Oriental por um longo período. Hoje em dia, quase sempre os assuntos dos quais trato tem relação com o Brasil, mas não é um contato diário.

Também quero que meus dois filhos, de 15 e 17 anos, estabeleçam uma relação com a América Latina – talvez eles se voltem mais para o Chile, porque minha irmã se mudou para lá e eles já conhecem o país.

Tenho uma ligação muito especial com o Brasil. Acho que trouxe uma postura de tranquilidade de lá: quando enfrento situações difíceis ou que não dão certo num primeiro momento, encaro com o bordão 'vai funcionar de algum jeito'. A música também é muito importante para mim. E gosto da forma mais solta, mais leve de lidar com a vida dos brasileiros. Percebi muito essa leveza quando voltei para a Alemanha.

Também acho que aprendi a valorizar o que temos aqui Europa. Eu sofri um acidente de trânsito em Brasília na época da faculdade e, por não dominar muito bem o português, fiquei bem insegura. Acabei tendo que pagar por danos no automóvel do homem que, na verdade, causou o acidente: um engavetamento no qual meu carro ficou preso no meio. Foi uma experiência negativa, já que eu não tinha certeza de que teria o apoio das autoridades quando fui à polícia.

Na série Como o Brasil mudou minha vida, a DW conta a história de alemães que viveram no país.