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Raoni e filha de Chico Mendes lançam aliança contra Bolsonaro

15.jan.2020 - O cacique Raoni (ao centro), liderança da tribo Caiapó, a líder indígena Sonia Guajajara (ao seu lado direito) e Ângela Mendes (de camiseta branca, sentada) posam para uma foto em Piaracu, perto de São José do Xingu, em Mato Grosso   - Carl de Souza/AFP
15.jan.2020 - O cacique Raoni (ao centro), liderança da tribo Caiapó, a líder indígena Sonia Guajajara (ao seu lado direito) e Ângela Mendes (de camiseta branca, sentada) posam para uma foto em Piaracu, perto de São José do Xingu, em Mato Grosso Imagem: Carl de Souza/AFP

16/01/2020 08h10

Em encontro com lideranças indígenas no Mato Grosso, cacique pede união "para defender nosso povo, nossa causa, nossa terra". "Não aceito mineração e madeireira na terra indígena", afirma o líder caiapó.

O cacique caiapó Raoni, diversas outras lideranças indígenas e Ângela Mendes, filha do líder seringueiro Chico Mendes, lançaram ontem uma aliança para se contrapor ao que consideram retrocessos impostos pelas políticas ambientais e indígenas do governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Em torno de 320 membros de várias etnias se reuniram na terra indígena Capoto-Jarina, localizada em Mato Grosso, na região do Xingu, para o encontro promovido pelo Instituto Raoni. O objetivo é discutir maneiras de resistir a medidas tomadas por Bolsonaro para enfraquecer a proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas.

No início deste mês, o governo finalizou a minuta de um projeto para permitir a exploração de terras indígenas para atividades como mineração, construção de usinas hidrelétricas, pecuária, extrativismo, exploração de petróleo e gás, entre outras.

Bolsonaro chegou a afirmar que os indígenas possuem terras demais e diz querer tirar essas comunidades da pobreza. O presidente também já fez várias críticas a Raoni, afirmando que ele não representa as demais comunidades indígenas do país.

Em resposta, o cacique caiapó convocou a reunião, que deve resultar numa carta aberta que será enviada ao Ministério Público e ao Congresso Nacional. A líder indígena Sônia Guajajara também está presente no encontro, que se encerra amanhã.

"Esse encontro não é para planejar uma guerra, um conflito. Estamos aqui para defender nosso povo, nossa causa, nossa terra. Eu quero pedir mais uma vez que o homem branco nos deixe viver em paz, sem conflito, sem problema", disse Raoni em entrevista coletiva. "Estamos reunidos aqui para nos defender. Não aceito, não aceito conflito. Nem conflito entre nós", afirmou.

"Quero falar para Bolsonaro: veja se faça coisas bonitas, veja se faça as coisas direito. Ajude seu povo. Ajude o povo indígena. Você vem fazendo as coisas querendo destruir. Você mesmo não está respeitando o seu povo. Você não está respeitando meu povo indígena. Vê se me escuta. Vê se minha voz chega a você, para você respeitar seu povo e o povo indígena. Não gosto de você prejudicar o povo indígena e seu povo", disse o cacique.

"Ele tem falado muita coisa com que eu não concordo e está fazendo divisão entre nós. Isso que ele está falando e fazendo eu não aceito", reiterou. "Eu não aceito mineração na terra indígena. Eu não aceito madeireira na terra indígena."

Ângela Mendes afirmou que a ideia é formar um pacto semelhante à Aliança dos Povos da Floresta, uma iniciativa lançada por seu pai, assassinado em 1988, nos anos 1980 para defender as comunidades indígenas e os seringueiros. Ela disse, no entanto, que o cenário atual é mais preocupante do que o de 30 anos atrás.

Ela ressaltou a necessidade de unir forças para resistir. "Eles têm o poder e a autoridade do Estado a favor deles, mas nós temos uns aos outros e a força das águas, das florestas e dos nossos ancestrais", afirmou, citada pelo jornal Folha de S. Paulo.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) afirmou através de nota que o encontro não está "alinhado à política institucional" do órgão e diz que não apoia iniciativas "alheias ao projeto governamental" da fundação.

Cotidiano