Deputada causa polêmica ao levar bebê e amamentá-lo no Congresso da Espanha

Antonia Méndez Ardila

Em Madri

  • Juan Medina/Reuters

A decisão de uma deputada espanhola de levar seu bebê à cerimônia de posse dos novos parlamentares no Congresso e amamentá-lo em plenário provocou uma onda de reações de políticos e grupos sociais sobre as dificuldades dos pais para compatibilizar a vida familiar e profissional.

A imagem da deputada Carolina Bescansa, do partido de esquerda Podemos, com seu filho Diego de sete meses nos braços durante a abertura da legislatura foi destaque nesta semana em todos os meios de comunicação espanhóis e motivo de comentários em jornais e redes sociais.

O debate levantado foi se a decisão de Bescansa é uma reivindicação do direito a conciliar a vida familiar e profissional ou um simples gesto para conseguir notoriedade para seu partido, uma legenda nova que se tornou a terceira maior bancada na Câmara.

Sobre este fato se manifestaram diversos políticos, começando pelo presidente do Congresso, o socialista Patxi López, que reconheceu que não gostou da cena --inclusive a chamou de "anedota"-- e lamentou que uma "opção pessoal" se transforme em "categoria geral".

No entanto, o líder do partido socialista PSOE, Pedro Sánchez, declarou que a deputada do Podemos "está em seu direito de fazer o que fez".

A própria deputada defendeu a decisão de levar seu filho ao parlamento e de amamentá-lo na cadeira parlamentar porque, em sua opinião, quando se cria um bebê, é preciso ir com ele "a todas as partes". Ela defendeu o direito de que todos tenham que criar seus filhos "como podem e querem".

No entanto, outras deputadas lembraram que o Congresso tem uma creche para os filhos dos parlamentares e dos demais funcionários que trabalham na Câmara, uma situação que não se repete na maioria das empresas espanholas.

Entre as críticas, a Rede Feminista lembrou à deputada em várias mensagens de Twitter que o Congresso tem creche e lamentou que a maternidade seja usada "como elemento de exibição".

A Federação de Mulheres Progressistas também considerou que o gesto de Bescansa lança uma mensagem "contraprodutiva, muito pouco afortunada e que causa muito prejuízo", pois não se trata tanto de apostar na conciliação das atividades, mas na corresponsabilidade no cuidado dos filhos.

No entanto, muitos internautas elogiaram a postura da deputada porque, segundo sua opinião, contribuiu para chamar a atenção para a necessidade de promover a conciliação trabalhista.

O gesto de Carolina Bescansa põe sobre a mesa uma realidade da sociedade espanhola: as dificuldades das famílias, principalmente as mulheres, para conciliar a vida familiar e a profissional, em um país com longas jornadas de trabalho e escassez de creches.

Além disso, como na Espanha os salários das mulheres ainda são mais baixos que os dos homens, é mais fácil que elas abram mão de seu trabalho caso não possam compatibilizar a vida familiar com o trabalho.

A legislação espanhola oferece 16 semanas de licença-maternidade, das quais seis devem ser tiradas obrigatoriamente pelas mulheres após o parto, e o resto do período pode ser dividido entre os pais.

Além disso, as mães têm direito a um tempo de lactação durante os primeiros nove meses do bebê.

O fato de políticas mostrarem seus filhos ou continuarem exercendo seus cargos durante as gestações contribui para tornar visível esta realidade e reivindicar melhoras.

Na história recente da Espanha outras políticas compatibilizaram sua maternidade com o exercício de altos cargos, como é o caso da atual vice-presidente do governo, Soraya Sáenz de Santamaría, que deu à luz quando ocupava o posto.

No entanto, na época a vice-presidente foi criticada por não ter tirado todo o período de licença-maternidade oferecido pela lei e por ter voltado a trabalhar menos de um mês depois do parto.

Mas talvez a imagem mais chamativa tenha sido a da socialista Carme Chacón após ser nomeada ministra da Defesa no ano 2000, passando as tropas em revista em avançado estado de gestação.

No entanto, essa política criticou a atuação de Bescansa e lembrou que, quando foi ministra da Defesa, levava a seu bebê à Câmara e lhe dava de mamar em seu escritório, sem necessidade de levá-lo ao plenário.

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