O adeus às armas das Farc para entrar na política

Jaime Ortega Carrascal.

Bogotá, 23 set (EFE).- As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a guerrilha mais numerosa e melhor armada da América Latina, deu um passo que merece ser catalogado como histórico ao renunciar aos fuzis e passar à política como resultado do acordo de paz com o governo colombiano.

A decisão, tomada na Décima Conferência Nacional Guerrilheira que terminou nesta sexta-feira, embora esperada, não deixa de ser transcendental porque implica no adeus às armas de um grupo que chegou a ter mais de 20.000 combatentes em seu melhor momento, no ano de 2002.

Então as Farc eram uma força temível que tinha aproveitado os diálogos de paz com o presidente Andrés Pastrana (1998-2002) para fortalecer-se a partir da zona desmilitarizada de 42.000 quilômetros quadrados que o governo tinha criado entre os departamentos de Caquetá e Meta, com a cidade de San Vicente del Caguán como sede da negociação.

Segundo fontes militares, a luta implacável das forças armadas contra as Farc a partir desse ano, principalmente durante os dois governos de Álvaro Uribe (2002-2010), reduziu a cerca de 7.000 o número de combatentes dessa guerrilha, que conta com um número similar de milicianos em tarefas de apoio.

Os homens em armas das Farc estão distribuídos atualmente em sete blocos formados por 54 frentes e 12 colunas móveis, uma das quais, a Teófilo Forero, é uma espécie de força elite à qual são atribuídos alguns dos mais brutais ataques cometidos no sul do país contra civis, policiais e militares.

Na mesma área de San Vicente del Caguán, que faz parte da imensa savana de Llanos del Yarí, as Farc concluíram hoje sua última conferência como grupo armado na qual aprovaram "em sua totalidade" o acordo de fim do conflito negociado em Havana, que será assinado na próxima segunda-feira em Cartagena das Indias.

"Por tal razão, decidimos sortir todos os preparativos necessários para o trânsito de nossa estrutura político-milita rumo a um novo partido político cujo congresso de fundação será realizado no mais tardar em maio de 2017, se forem implementados os acordos, como está convido", afirma a declaração final da conferência.

O analista Rafael Silva, professor da Universidade Icesi de Cali, disse à Agência Efe que o acordo para que as Farc deixem as armas "não é o melhor em termos dos padrões que alguns desejariam, como a oposição, mas em termos realistas é o que melhor cabe dentro das condições atuais do país, fundamentalmente para terminar um conflito armado de mais de 50 anos".

Após a euforia pela assinatura da paz virá a aplicação do acordo de cinco pontos, começando pelo de "Fim do conflito", que representa o trânsito das Farc à vida civil.

A passagem da luta armada à política será um processo longo porque no dia seguinte da assinatura da paz, ou seja, em 27 de setembro, começará a contar o período de 180 dias para o abandono de armas e o deslocamento dos guerrilheiros às áreas de reunião estipuladas com o governo.

A ONU liderará a Missão de Verificação da comunidade internacional que se encarregará de colher e armazenar as armas e munição entregues que, uma vez destruídas, serão fundidas para a construção de três monumentos à paz na Colômbia, em Cuba e na sede das Nações Unidas em Nova York.

O desarmamento é o ponto de partida de todo o processo porque o governo foi enfático em assinalar que não haverá "política com armas" nem "uma paz armada", o que implica que as Farc terão que formar um novo partido político cujo nome ainda não divulgaram.

"O acordo entre o Estado colombiano e as Farc é apenas um primeiro passo para um caminho muito longo de construção de paz para que um país que esteve atravessado por tantas décadas de conflito possa consolidar uma vida mais sossegada e com maior bem-estar para a maioria da população", resumiu Silva.

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