Divisão e guerra aumentam na Líbia após fracasso de plano ONU

Trípoli, 15 dez (EFE).- O fracasso do plano de paz forçado pela ONU em dezembro de 2015 e o crescimento sustentado de poder do obscuro marechal Khalifa Hafter no leste do país aumentaram a divisão na Líbia e multiplicaram as incertezas sobre o futuro de um Estado falido dominado por máfias e milícias.

Além da situação de anarquia e guerra, existe a presença de diferentes grupos jihadistas, que conservam sua influência ameaçadora, apesar de terem perdido este ano o controle da cidade mediterrânea de Sirte, o bastião mais ocidental da braço africano da organização terrorista Estado Islâmico (EI).

Os radicais conquistaram este importante porto em fevereiro de 2015 e o mantiveram em seu poder até agosto deste ano, quando aviões de combate americanos se juntaram à ofensiva lançada dois meses antes por uma Aliança formada pelas principais milícias do oeste da Líbia.

Lideradas pela cidade de Misrata e por grupos que apoiam o governo de unidade designado pela ONU em abril, essa força heterogênea rompeu a resistência em outubro e expulsou os jihadistas definitivamente em dezembro, após seis meses de combates no qual morreram mais de 700 homens e cerca de 3 mil ficaram feridos.

A vitória, que além de prestígio militar concede um papel político de destaque às milícias de Misrata no futuro, não representa, no entanto, o fim da ameaça jihadista no país e na região.

Responsáveis de Inteligência locais e estrangeiros coincidem em assinalar que grande parte dos líderes fugiram do citado porto no final de agosto, quando os bombardeios norte-americanos estavam aumentando, em direção às áreas desérticas do sul, onde já começaram a se reagrupar.

Além disso, os radicais mantêm suas posições na cidade de Benghazi, cenário desde maio de 2014 de intensos combates entre as forças leais a Hafter, vinculados ao governo de Tobruk, e as milícias fiéis ao antigo governo islamita moderado de Trípoli, considerado rebelde.

E também em Derna, cidade próxima da fronteira com o Egito onde os jihadistas implantaram sua primeira base.

O triunfo em Sirte coloca também a possibilidade de abertura de uma nova frente de conflito, desta vez entre Misrata e Hafter, chefe do antigo Exército Nacional líbio e homem forte na região leste do país.

Em setembro, e aproveitando-se da intervenção dos EUA, o controvertido militar assumiu o controle de Sidra e Ras Lanuf, os principais portos petrolíferos da Líbia, situados a poucos quilômetros de Sirte, cidade agora sob controle das milícias de Misrata.

Hafter, antigo integrante da cúpula militar que levou Muammar Kadafi ao poder, mas que anos depois se converteu em seu principal opositor no exílio, advertiu que não retrocederá até que conquiste Benghazi e marche sobre Trípoli.

Apoiado por Rússia, Egito e Arábia Saudita, Hafter também não reconhece o governo de união nacional que resultou do plano de reconciliação da ONU, já que nunca o aceitou.

Hafter e os políticos ligados a ele manobraram durante meses para que o parlamento de Tobruk, a única autoridade que ainda conserva reconhecimento internacional na Líbia, não concedesse ao citado Executivo a legitimidade que este necessita para governar.

E torpedearam todos os esforços de um Executivo que hoje demonstra ser extremamente frágil, e sequer é capaz de controlar a capital, palco de duros combates em novembro entre as diversas milícias tribais que se distribuem pelos diferentes bairros e áreas de influência econômica.

A esta crescente tendência de "somalização" (em referência à Somália) e "balcanização" (relativo ao conflito no Balcãs durante o esfacelamento da antiga Iuguslávia) do país se acrescentou em 2016 a ressurreição dos chamados movimentos "neokadafistas", integrados por defensores nostálgicos da ditadura.

Além de Hafter, que conta com o respaldo, mas também com o ódio de várias tribos do oeste da Líbia, estes se dividem em dois grupos.

Por um lado, o denominado Comitê Revolucionário Internacional, uma organização estabelecida na Tunísia que agrupa ex-integrantes do alto escalão da Administração de Kadafi que propõe a recomposição, pela via pacífica, da "Jamahiriya", o sistema de dominação que foi projetado pelo ditador.

Por outro, os simpatizantes de Seif al Islam, o filho mais famoso e politicamente mais ativo do tirano.

Condenado à morte em julho de 2015, Seif permanece em poder de uma das milícias da cidade ocidental de Zintan, onde desfruta de um regime penitenciário muito relaxado que lhe permitiu recuperar laços com outras tribos e começar a armar sua própria milícia no oásis meridional de Fezzan.

Bem organizado, Seif foi inclusive capaz de reabrir alguns dos canais secretos que seu pai utilizava para se comunicar e negociar com governos ocidentais, especialmente com Reino Unido, França e Itália.

Segundo fontes de Inteligência, muitos dos que se aproximam do filho do antigo ditador são aqueles que temem o retorno do marechal Hafter e que não confiam no poder militar de Misrata, nem no papel decrescente do governo de unidade.

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