Turismo contribui para emancipação feminina nos Andes Patagônicos

Javier Ureta.

Huilo Huilo (Chile), 24 mar (EFE).- O turismo atraído pela reserva biológica Huilo Huilo, situada nos Andes Patagônicos, se transformou em um instrumento que ajuda na emancipação das mulheres desta região do sul do Chile, que ao longo dos anos tiveram que viver à sombra dos homens.

Há dez anos, a Fundação Huilo Huilo iniciou um programa para dar emprego às mulheres de Neltume, Puerto Fuy e outras localidades próximas à reserva.

Até então elas se dedicavam a cuidar da casa, criar os filhos e fazer a comida dos maridos, dedicados à indústria madeireira, antigo motor econômico da região.

"Desenvolvemos oficinas de artesanato para elas, para que possam se expandir profissionalmente e levem um sustento para sua casa. Foi um trabalho incrível. Agora são mais fortes, mais independentes, mais orgulhosas de si mesmas", declarou à Agência Efe Macarena Cubillos, porta-voz da Fundação Huilo Huilo.

A iniciativa começou com um pequeno grupo, mas com o passar do tempo foi se expandindo até chegar a 25 artesãs que elaboram seus produtos para depois vendê-los à reserva ou aos turistas, que nos últimos anos aumentaram exponencialmente.

"Nos ensinaram a fabricar nossos produtos, a vendê-los, a coletar as sementes da floresta e a utilizá-las para criar nossas 'fadas', um dos artesanatos que melhor vendemos e que estão muito ligados à natureza da reserva", detalhou Jeanette Burgos, que, além de artesã, é bombeira, tem marido, dois filhos e um neto.

"Em minha casa há um matriarcado. E quer saber? Me sinto super bem. Já assumi isso e acredito que lido muito bem", afirmou Burgos, que está alerta nas 24 horas do dia como bombeira, faz as tarefas da casa de manhã e trabalha à tarde.

A artesã explicou que, apesar no início as coisas não terem sido fáceis, agora já não se pode queixar do apoio que recebe de sua família.

"Eles adotaram a seguinte fórmula: se não pode com ela, junte-se a ela", ironizou, para depois ressaltar que há muito tempo este respaldo deixou de ser simplesmente moral.

"Meu filho me ajuda com as cestas e as coisas mais pequenininhas das fadas artesanais e meu marido pinta as carinhas das bonecas", contou.

Uma companheira sua, Guadalupe Troncoso - também com marido, filho e outro trabalho -, honra com sua atitude um ditado com o qual brincam os maridos região e que ilustra bem a mudança de mentalidade: "Antes as mulheres pediam permissão para fazer qualquer coisa, agora já nem avisam".

Troncoso declarou que no total trabalha 18 horas ao dia, mas destacou que compensa levar um bom sustento para casa e poder mandar os filhos para estudar em uma universidade.

"Após trabalhar durante o dia todo, ou estou cozinhando ou estou terminando algum dos meus artesanatos, que são bordados e requerem bastante concentração", comentou.

No entanto, ela tem claro qual é a recompensa de todas as horas de esforço.

"A segurança como mulher de não depender de ninguém. Tempos atrás vivíamos somente dos recursos de nossos maridos. Agora não temos que ficar pedindo nem esperando que outra pessoa nos dê", destacou.

"Cada uma decide o que faz com seu dinheiro. Se o investimos bem ou mal, não importa, é nosso", resumiu orgulhosa Troncoso, símbolo de uma geração que pouco a pouco deixa de viver à sombra do homem para erguer-se como mulheres fortes, valentes e lutadoras.

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