Disputas de terra viram foco permanente de conflito no Vietnã

Eric San Juan.

Ho Chi Minh (Vietnã), 11 jul (EFE).- Apesar do desejo de controlar os dissentes, o Partido Comunista do Vietnã não tem conseguido evitar confrontos entre moradores e autoridades por causa de expropriações forçadas nas zonas rurais do país.

Segundo o professor Phan Xuan Son, da Academia de Ciências Políticas de Ho Chi Minh, 70% dos casos de conflito no Vietnã nos últimos 20 anos foram causados por disputas por terra.

Um dos últimos incidentes ocorreu em abril, em My Duc, nos arredores de Hanói, quando um grupo de moradores se amotinou e fez reféns 38 policiais, em protesto contra as expropriações de algumas terras a favor da companhia de comunicações Viettel.

O confronto, o maior dos últimos anos, se desenrolava há meses e explodiu quando a polícia deteve com violência um idoso escolhido como representante.

Os moradores se entrincheiraram por uma semana, protegidos por barricadas que tinham construído com troncos e pedras, até que chegaram a um acordo com as autoridades, que prometeram revisar o caso e não fazer represálias.

Ainda que inicialmente os meios de comunicação, ferrenhamente controlados pelas autoridades, tenham escondido a disputa, a propagação de imagens e vídeos pelas redes sociais os obrigou a informar, revelando a dificuldade do regime comunista para resolver este tipo de conflito.

O forte crescimento econômico dos últimos 20 anos acaba prejudicando os camponeses, obrigados a ceder suas terras por um preço muito inferior ao do mercado para abrir caminho para infraestruturas, novas moradias e complexos industriais.

"Alguns funcionários ou governantes locais tiraram proveito das suas posições (...) Alguns expropriaram terras para vendê-las ou usá-las como propina", afirmou Xuan Son em um artigo da revista "Political Theory".

Em uma pesquisa realizada em 2015 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 25% dos cidadãos entrevistados diziam estar preocupados com estas disputas de terra e 50% asseguravam que nada se faz para resolvê-los.

Antes do caso de My Duc, um dos incidentes mais notórios aconteceu em 2012, quando um homem usou armas de fabricação caseira para se defender dos policiais que queriam desalojá-lo.

No ano passado o monge budista Thich Khong Tanh teve que deixar seu pagode nos arredores de Ho Chi Minh (antiga Saigon) depois de anos de resistência e o viu ser demolido para a construção de um novo distrito financeiro.

O governo tentou melhorar a situação em 2014 com uma lei que exige mais transparência das autoridades e tenta aproximar as compensações do preço de mercado, mas os especialistas concordam que a origem de todos os problemas não é combatida: na República Socialista do Vietnã, o Estado é dono da terra.

"Em muitos casos, o Estado é utilizado como fonte de apoio incondicional aos investidores", critica o professor Xuan.

Os conflitos não são novos no Vietnã, mas a repercussão social é um elemento que antes não estava incluído no problema.

O governo continua controlando os meios de comunicação tradicionais, mas é incapaz de conter o fluxo de informação nas redes sociais no país, onde mais de 30 milhões de vietnamitas dispõe de contas no Facebook.

O analista Toan Le destacou no site "The Diplomat" que, no conflito de My Duc, a pressão das redes sociais obrigou a imprensa estatal a informar. Forçou também as autoridades a ter uma atitude condescendente e a prometer que não fariam represálias contra os amotinados.

No entanto, as expectativas desta promessa entre alguns ativistas acabaram no dia 12 de junho quando o governo anunciou a abertura de uma investigação criminal contra os amotinados.

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