Macri consolida poder e inicia segunda parte do mandato com reformas

Rodrigo García.

Buenos Aires, 22 dez (EFE).- A vitória dos candidatos governistas nas eleições legislativas de outubro representou para Mauricio Macri um ganho de fôlego para a segunda metade do seu mandato, que será marcada pelas reformas e a presidência argentina do G20 em 2018, algo que o governo atribui à confiança do mundo no país.

Passados dois anos desde sua chegada ao poder, após os mandatos de Néstor Kirchner (2003-2007) e sua esposa Cristina Kirchner (2007-2015), 2017 foi o ano no qual Macri pôde consolidar seu papel como chefe de Estado, ainda que não tenham sido poucas as dificuldades - principalmente para sair de uma economia em letargia e pelos protestos sociais.

"Avançamos muito desde o primeiro dia. Esta mudança gera apoio no mundo inteiro", disse o presidente em recente discurso no qual pediu aos argentinos para trabalhar juntos "sem mais atalhos", já que a única coisa que geraram é "muita pobreza" no país.

Precisamente os dados de pobreza - que atingia 28,6% da população no primeiro semestre do ano - são os que seguem preocupando o governo, que tem como prioridade lutar contra ela e também contra a incontrolada inflação (21% em 2017).

Por outro lado, o Produto Interno Bruto (PIB) experimentou de julho a setembro uma melhoria de 0,7%, e acumula três trimestres consecutivos positivos.

O desemprego também caiu ligeiramente nesse período e ficou em 8,3%, e em outubro a indústria registrou um crescimento anualizado de 4,4%, o sexto mês em alta.

As agências internacionais parecem não estar alheias a essa tendência. A Moody's, por exemplo, projetou um aumento do PIB para 2018 de 3,5% e previu um descenso do déficit fiscal.

Neste contexto e com otimismo, o Executivo fez do seu triunfo nos pleitos de outubro uma espécie de cheque em branco para realizar reformas a priori pouco populares, mas, segundo sua opinião, necessárias para o país.

"A Argentina não tem que ter medo das reformas, porque reformar é crescer, algo que vai nos levar a viver melhor ", afirmou Macri após a vitória da coalizão governista Cambiemos, quando anunciou mudanças, principalmente, nos âmbitos trabalhista, tributário e fiscal.

No entanto, a reforma da previdência, criticada pelo suposto desfalque que ocasionará nos bolsos dos aposentados, se tornou uma das piores crises para o Executivo pela forte rejeição política e social que provocou.

Em meados de dezembro, os protestos contra este projeto, que o oficialismo considerava vital para lutar contra o déficit fiscal, mas ao mesmo tempo benéfico para os pensionistas, deixaram dezenas de feridos - entre policiais e manifestantes - e outros tantos detidos.

"Todos estas mudanças geram incomodidade, mas são necessárias", ressaltou o presidente, que atribuiu a violência suscitada a uma operação que atribuiu quase diretamente à oposição.

Uma menção à parte, pelo impacto social que causou, merece o desaparecimento do submarino da Marinha "ARA San Juan", que com 44 tripulantes a bordo está perdido no Atlântico Sul desde 15 de novembro sem que as autoridades tenham esperança alguma de encontrar sobreviventes.

Embora a gestão do governo seja constante alvo de críticas opositoras, atualmente não se vislumbra um líder claro da oposição e seu principal expoente, o peronismo, segue dividido desde que Daniel Scioli perdeu para Macri nas urnas em 2015.

A recente eleição da ex-presidente Cristina como senadora não fez mais que aquecer o ambiente, mais ainda pela decisão da Justiça de deter membros do seu governo por suposta corrupção, inclusive ela mesma, que por enquanto não será presa por ter privilégios parlamentares.

"Queremos um país onde a corrupção seja intolerável", já chegou a dizer a Macri, a quem Cristina acusa de influenciar os juízes para que atuem contra ela, algo que ele nega categoricamente.

O enfrentamento entre o peronismo kirchnerista e o macrismo segue constante: os primeiros acusam o governo de aplicar enormes ajustes econômicos e elevar a dívida pública a favor dos mais poderosos e os segundos reiteram que Cristina deixou o país à beira da falência e mergulhado em corrupção.

"Longe de afundar em uma crise como a de 2001, a Argentina foi se recuperando: começamos a crescer, recuperamos a relação com o mundo e o crédito voltou", destacou Macri em dezembro.

Esta confiança é a que, para o presidente, permite que a Argentina ostente a presidência do G20 em 2018 e que Buenos Aires tenha acolhido a última reunião da Organização Mundial do Comércio.

Um protagonismo que, segundo o governo, pode consagrar a abertura econômica e atrair investidores, embora por enquanto estes pareçam em dúvida sobre voltar a confiar em um país no qual segue havendo forte oposição social a qualquer indício de mudança.

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