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Internacional

Holanda rejeita extrema-direita de Geert Wilders em ano de divisão política

29/12/2017 19h59

Imane Rachidi.

Haia, 29 dez (EFE).- A Holanda protagonizou o primeiro golpe do ano contra o avanço da extrema-direita na Europa, impedindo Geert Wilders de chegar ao governo e obrigando quatro partidos políticos, de diferentes ideologias, a dialogarem e se unirem em uma coalizão cuja sobrevivência está cercada de dúvidas.

"O atual governo tem grandes ambições, embora seja um gabinete muito arriscado, de quatro partidos. É o mais diversificado da Europa. A oposição está muito dividida, da esquerda e da direita. Alguns não se suportam", disse à Agência Efe o analista político holandês Diederik Brink sobre as consequências do avanço da extrema-direita na Holanda.

As eleições gerais de 15 de março nos Países Baixos, que aumentaram o poder de Wilders no Parlamento, foram o primeiro teste do ano para determinar se a "onda populista", inaugurada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continuaria durante 2017 na Europa.

Wilders, líder do Partido da Liberdade (PVV), conseguiu colocar a imigração e o islã no centro da agenda política da campanha eleitoral, em busca de desafiar o liberal Mark Rutte, do Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD).

O drama eleitoral foi menor do que o previsto, apesar da campanha anti-imigração, em meio à onda de refugiados, e de uma repentina crise diplomática com a Turquia, resultado da expulsão de dois ministros turcos que pretendiam fazer campanha na Holanda a favor do referendo que concederia mais poder ao seu presidente, o islamita Recep Tayyip Erdogan.

O PVV se enfraqueceu, embora tenha aumentado sua presença no Parlamento para 20 cadeiras, e os liberais perderam apoio popular, mas se mantiveram como primeiro grupo parlamentar em Haia com 31 deputados.

O panorama geral após as eleições foi de fragmentação total de um Parlamento com 12 partidos políticos de ideologias totalmente opostas e com uma coalizão governamental que demorou sete meses para se formar, um recorde.

O liberal VVD, Apelo Democrata-Cristão (CDA) e os progressistas do Democratas 66 (D66) se viram na posição de ter que aceitar as exigências da União Cristã (5 cadeiras) para conseguir o mínimo de 76 cadeiras necessárias para formar governo e evitar a repetição das eleições.

Wilders, que tinha feito uma campanha eurofóbica e antimigratória no Twitter, passou a liderar a oposição, uma vez que nenhum partido estava disposto a negociar com ele como aliado de governo.

Por sua vez, os mais liberais tiveram que renunciar às suas propostas de campanha, como a legalização do cultivo do cannabis, a ampliação da lei de eutanásia às pessoas idosas, a pesquisa científica com embriões e a autorização aos médicos de família para receitar pílulas abortivas.

Embora esta coalizão tenha conseguido frear a extrema-direita holandesa, as 20 cadeiras de Wilders deram a ele o papel de oposição, que até então só exercia pelo Twitter e com algum protesto pontual, e o animaram a sair da sua zona de conforto.

Assim, o PVV participará das eleições municipais de março de 2018 em 30 cidades holandeses, ao invés de se limitar, como fez até agora, a alguns poucos municípios onde tem sucesso garantido, como Venlo e Volendam.

Esta ruptura de tendência, com a qual pretende estender sua presença nas câmaras municipais, o leva a brigar pelos municípios de Utrecht e Groninga, redutos dos progressistas do D66, ou em Leeuwarden, onde lideram os trabalhistas do PvdA.

Wilders também está tentando ganhar força em Roterdã, uma cidade de "extrema-esquerda", onde o PVV apresentou há alguns dias sua campanha diante de uma mesquita, com sua expressão clássica de "desislamizar" o país.

No entanto, Wilders, que começou o ano liderando as pesquisas, está sendo ultrapassado por Thierry Baudet, líder de Fórum para a Democracia, um partido novo e inclusive mais à extrema-direita que o PVV.

"Thierry Baudet entrou no parlamento nas últimas eleições. Para sua surpresa, obteve duas cadeiras e agora supera Wilders nas pesquisas. Está na mesma linha que o PVV, mas com um estilo diferente e mais elitista", acrescentou Brink.

Baudet, que lembra orgulhoso em todas as suas entrevistas que tem uma namorada de origem iraniana que "adotou o estilo de vida ocidental", foi declarado o político do ano em 2017 e é um crítico fervoroso "deste Governo multicultural que tolera tudo".

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