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Cheiro de morte ressurge dentre os escombros da cidade antiga de Mossul

26/02/2018 10h01

Yasser Yunes.

Mossul (Iraque), 26 fev (EFE).- Na parte antiga da cidade setentrional de Mossul, a chuva que caiu nos últimos dias trouxe de volta o cheiro dos corpos que ainda jazem entre os escombros após a batalha travada no ano passado entre as forças iraquianas e os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI).

O fedor é insuportável na cidade velha, como pôde constatar a Agência Efe, e os residentes que retornaram a este bairro têm que conviver não só com isso, mas também com as vielas inundadas devido às fortes chuvas e aos escombros que bloqueiam a passagem da água.

A maioria dos corpos que ainda se encontra no interior das casas derrubadas do bairro velho pertencem aos combatentes do EI, que se entrincheiraram e resistiram durante semanas na parte antiga depois de terem perdido o controle dos outros distritos da cidade que foi sua "capital" no Iraque.

O chefe da Câmara Municipal de Mossul, Abdelsatar al Habu, disse à Efe que calcula-se que ainda haja mais de 200 corpos de civis e 1.950 corpos de jihadistas que não foram retirados de debaixo dos escombros, o que representa um perigo para a saúde pública.

Habu acrescentou que nos últimos dois meses foram recuperados 2.700 civis mortos que tinham permanecido sob os escombros desde que terminaram os combates em Mossul, em julho do ano passado.

O administrador local estimou que cerca de 6.000 moradores da cidade morreram durante os combates para expulsar o grupo radical, que duraram nove meses.

Por outro lado, Habu afirmou que a equipe encarregada de limpar os destroços dos edifícios destruídos levantou milhares de toneladas de escombros, mas que resta muito trabalho a fazer devido à falta de máquinas e apoio financeiro do governo central para este trabalho titânico.

Nesse sentido, destacou que a Câmara Municipal precisa de um "grande financiamento" tanto para limpar os escombros como para a reconstrução, uma vez que milhares de moradias foram destruídas, principalmente na parte oriental da cidade e, em concreto, no centro histórico, que foi palco da batalha mais dura.

Segundo a ONU, dos 54 bairros do oeste de Mossul - dividida em duas partes pela passagem do rio Tigre -, 15 se viram completamente destruídos e mais de 16.500 edifícios foram danificados ou destruídos somente na parte oriental.

Por outra parte, um funcionário local das Nações Unidas, Raad al Abasi, declarou à Efe que é essencial limpar os escombros para facilitar o regresso dos cidadãos aos seus lares e para reabrir as ruas cortadas.

No entanto, destacou que os encarregados desta tarefa enfrentam a cada dia o cheiro da morte e os restos de sangue dos que morreram quando suas casas demoliram sob as bombas, e inclusive encontram entre os escombros pedaços de cadáveres.

Um dos encarregados de mover os escombros, o engenheiro Salem Ali, afirmou à Efe que os habitantes da cidade velha também convivem com a falta de serviços básicos, como água corrente e eletricidade, e a dificuldade de mover-se pelas ruelas do bairro devido aos destroços dos edifícios.

Ali acrescentou que o governo está sendo muito lento na hora de limpar os escombros, razão pela qual os residentes de Mossul tomaram a iniciativa para poder retornar pouco a pouco à normalidade.

Além disso, começaram a arrumar as moradias com seus próprios recursos, porque não recebem financiamento público para isso, segundo Ali.

A ONU calculou após a libertação da metade oeste de Mosul que cerca de 40.000 imóveis precisariam ser reabilitados ou reconstruídos.

As Nações Unidas estão apoiando a reabilitação dos serviços básicos, de água e luz até escolas e centros médicos, mas com as últimas chuvas ficou patente a pobre situação das infraestruturas, incluindo a rede de esgoto.

Uma senhora de 60 anos do bairro antigo de Al Faruk, Um Mohamed, retornou ao seu lar após a libertação de Mossul, mas sofre com a falta de água potável e eletricidade, e o cheiro de putrefação.

A mulher disse à Efe que, além da moléstia, existe o perigo de que ainda haja artefatos explosivos no interior das casas e das reviravoltas da cidade velha de Mossul, na qual o cheiro da guerra ainda pode ser sentido.