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Um "procedimento de rotina" que resume o inferno da imprensa na Venezuela

31/01/2019 22h29

Gonzalo Domínguez Loeda.

Caracas, 31 jan (EFE).- "É apenas um procedimento de rotina". Assim começou o pequeno inferno de 24 horas para o fotojornalista Leonardo Muñoz, da Agência Efe, em Caracas, onde ele foi detido sem uma razão clara junto com o motorista José Salas e levado ao temido Helicoide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin).

Se relatar uma detenção arbitrária é difícil, sentar-se para escrevê-la em primeira pessoa é ainda mais. São detalhes que extrapolam ou se misturam na memória depois de 48 horas sem dormir, mas que esta história sirva para narrar a vida dos jornalistas que tentam contar o que acontece na Venezuela.

Como Muñoz e Salas não atendiam o telefone desde o meio-dia, no início da noite a delegação da Efe em Caracas começou a fervilhar, devido ao temor de que algo grave tivesse acontecido com os dois na cidade mais perigosa do mundo.

"Me pegaram na Controladoria Geral por fazer uma foto da parede", comentou Muñoz, colombiano que trabalha para a Efe em Bogotá e que tinha viajado à Venezuela para reforçar a delegação da agência no país junto com a compatriota Mauren Barriga e o espanhol Gonzalo Domínguez.

Aqueles que detiveram Muñoz, que não sabia que aquela era a sede de uma entidade pública, eram membros da segurança do edifício. Pouco demoraram para chamar o Sebin, que o levou com Salas ao Helicoide.

Mas disso, naquele momento, pouco se sabia na redação, que fazia de tudo para localizar os dois companheiros desaparecidos e tentava mover todos os obstáculos possíveis para descobrir o que tinha acontecido com eles - ninguém tinha avisado sobre a detenção.

Os advogados percorreram todos os pontos de detenção das diversas entidades públicas em Caracas sem nenhum sucesso.

Tristes pelos desaparecimentos, Barriga e Domínguez foram ao hotel onde estão hospedados, que fica quase em frente à redação da Efe em Caracas.

Mas havia uma surpresa: no lobby estavam cinco membros do Sebin, armados.

"Estes funcionários estão lhes esperando", disse, com uma mistura de timidez e medo, o recepcionista.

Toda a equipe da Efe estava em alerta, à espera de um sinal dos dois colegas no hotel, caso algum órgão estatal aparecesse. Domínguez aproveitou para enviar uma mensagem à diretora da agência na Venezuela, Nélida Fernández.

Apesar da intervenção dela e de dois advogados da Efe, Barriga e Domínguez foram levados pelos funcionários do Sebin, que o tempo todo foram extremamente amáveis com ambos, ao Helicoide.

Talvez a maior surpresa naquele momento tenha sido a de que os membros foram aos quartos - "sempre acompanhados por alguém da segurança", disseram - e estavam com o passaporte espanhol de Domínguez.

Logo após chegarem ao Helicoide, os dois viram Salas e Muñoz algemados e sentados em um escritório, e sentiram um breve alívio.

Em seguida, Barriga e Domínguez foram algemados e ficaram sentados em frente a dois funcionários.

Os telefones foram desbloqueados para que os agentes pudessem mergulhar em todos os seus dados pessoais e buscar qualquer coisa que lhes parecesse suspeita.

A partir daí, e recebendo um bom tratamento, os quatro foram interrogados durante horas sob as inumeráveis efígies de Simón Bolívar e de Hugo Chávez.

Se algum dos agentes visse qualquer um deles minimamente confortável, passava a repetir as mesmas perguntas várias vezes: "Como se chama?", "Há quanto tempo mora na Colômbia?", "Há quanto tempo trabalha na Efe?", "Por que veio à Venezuela?", "Por que não vão ao Brasil ou à Argentina?".

Várias vezes, várias vezes, várias vezes.

E claro, vídeos e fotos, sendo alguns oficiais, em frente ao logotipo do Sebin e para documentar marcas peculiares como tatuagens ou cicatrizes.

Muñoz, Barriga e Domínguez tinham entrado ao país declarando ser jornalistas e tinham sido autorizados a exercer seu trabalho depois de várias horas de trâmites no aeroporto Simón Bolívar, de Caracas, incluindo entrevista com o Sebin.

No entanto, isso parecia não ser suficiente para os agentes, que voltavam a perguntar enquanto gravavam esperando uma resposta que não envolvesse essa explicação.

Após horas de interrogatórios, fotos e vídeos, os quatro foram levados a um corredor cego, onde descansaram durante um tempo que não eram capazes de determinar, porque era um espaço sem janelas que não permitia saber o passar do tempo.

Perguntar o horário costumava ter como resposta um sinal negativo. Pedir uma ligação era impossível.

Os membros do Sebin continuavam fazendo seu trabalho, e enquanto um deles, particularmente amável e loquaz, falava da atitude das avós, outro se dirigiu a Domínguez e lhe disse: "A sua acaba de completar 93 anos, vi nas fotos do telefone".

Por volta das 10h, os quatro foram separados. Os dois colombianos e o espanhol foram levados ao Serviço Administrativo de Identificação, Migração e de estrangeiros (Saime), devido à possibilidade de serem deportados, e Salas, sem aviso prévio, ficou no Helicoide.

"Somos uma equipe e não vamos te deixar para trás. Vamos chamar por você e sua mulher até que saia" foi a última coisa que disseram a Salas antes de se separarem.

No Saime, pela primeira vez em 24 horas para Muñoz e em 12 para Barriga e Domínguez, as algemas foram retiradas, e todos entenderam por que, nos filmes, se esfregam os punhos para melhorar a círculação.

Lá, enquanto decidiam como deportariam os três estrangeiros, chegou o "deus ex maquina".

"Passem por aqui, vem alguém importante", disse um funcionário, antes de levar a equipe a uma sala de descanso em que tinham passado por reconhecimento médico.

Identificar as vozes era impossível. Saber o que diziam, menos ainda.

O certo é que, na saída, funcionários disseram que não haveria deportação: livres sem acusações.

Como se fosse pouco, um funcionário de alto escalão do Sebin se aproximou para pedir desculpas pela detenção arbitrária e ressaltou o bom tratamento, muito real, que todos receberam.

Assim terminou o inferno que começou com "um procedimento de rotina" e que, além disso, foi adoçado após a libertação do nosso quarto companheiro, o motorista José Salas. EFE