Telefonema e ameaça de demissão: Venezuela pressiona servidores a votar no domingo

Alexandra Ulmer

Em Caracas

  • Ronaldo Schemidt/Reuters

    Crianças passam por mural com o rosto do presidente Hugo Chávez

    Crianças passam por mural com o rosto do presidente Hugo Chávez

Funcionários estatais na Venezuela receberam chamadas telefônicas, foram pressionados por seus chefes e ameaçados de demissão para forçá-los a votar neste domingo (30), na eleição dos integrantes da polêmica Assembleia Constituinte promovida pelo presidente Nicolás Maduro para reescrever a Constituição.

O presidente socialista avança com o seu plano para criar um poderoso organismo apesar dos quatro meses de protestos no país, em que mais de 100 pessoas morreram durante a repressão. O país ainda sofre com a escassez de alimentos, medicamentos, a índices de inflação fora de controle e forte delinquência. Maduro afirma que a Assembleia Constituinte de 545 cadeiras, com poder para dissolver os poderes públicos, vai superar a "insurreição armada" e trazer paz para a Venezuela. Seus opositores afirmam que a votação é uma manobra para cimentar a sua ditadura.

A pressão sobre funcionários públicos é maior do que nunca, de acordo com entrevistas feitas com trabalhadores de mais de 20 instituições que vão desde a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) até o Metrô de Caracas, além do acesso a SMSs, comunicação interna e vídeos obtidos pela Reuters.

"Qualquer diretor, superintendente e supervisor tentando bloquear a Assembleia Constituinte, que não votar ou que seus colaboradores não apareçam para votar, deve deixar seu trabalho na segunda-feira", disse o vice-presidente da PDVSA Nelson Ferrer, durante uma reunião com os trabalhadores desta semana, de acordo com um resumo que circula dentro da empresa e visto pela Reuters.

Em um vídeo de um comício político na PDVSA, um representante de uma empresa não-identificada, vestindo camisa vermelha e gritando em um microfone, diz que os funcionários que não votarem serão demitidos. "Nós não estamos brincando", disse.

Trabalhadores detalham as pressões sofridas: mensagens de texto a cada 30 minutos, telefonemas, reuniões políticas obrigatórias durante o expediente, pedindo que cada trabalhador recrute outros dez para votar e até ordens para se reportar a uma "sala de situação" depois de votar.

É difícil estimar quantos dos mais de 2,8 milhões de trabalhadores estatais votarão, mas boa parte dos entrevistados disse que uma maioria significativa provavelmente votará, seja por lealdade ou medo.

Alguns venezuelanos disseram também que agentes do Partido Socialista ameaçaram deixar de distribuir as cestas básicas subsidiadas pelo governo a quem não votar. "Vemos um mar de gente chorando pela impotência de não saber o que fazer. Há muito medo", disse um funcionário da PDVSA entrevistado sob anonimato para evitar represálias.

O Ministério da Informação da Venezuela e a PDVSA não atenderam aos pedidos da reportagem da Reuters para declarações sobre as denúncias.

Votar ou não?

Sob o comando de Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chávez muito menos carismático que seu mentor, a moeda venezuelana entrou em colapso, enfraquecendo salários a algumas dezenas de dólares por mês, aumentando o descontentamento.

Com mais de 30 milhões de habitantes mergulhados no quarto ano consecutivo de recessão, muitos funcionários lutam para manter seus empregos por causa dos benefícios, como seguro-saúde, alimentos subsidiados ou até pelo desemprego crescente no país.

"Minha mãe está doente, minha esposa está grávida. Se perder o meu emprego, fico pior do que estou. Tenho que votar", disse um trabalhador da siderúrgica venezuelana Sidor.

Outros trabalhadores decidiram ignorar a pressão e alguns estão apostando que seus patrões relevarão a desobediência, enquanto outros afirmam ter informações comprometedoras sobre corrupção ou irregularidades que poderiam protegê-los de demissões. Muitos deles afirmam estar dispostos a arriscar seus empregos para se opor a Maduro.

"Estamos cansados de trabalhar e trabalhar e não economizar, não poderíamos mudar o carro, reformar a casa", disse o diretor de uma escola pública. "Nós concordamos em assumir todas as consequências", acrescentou.
 

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