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Pressionado por acusações de corrupção, presidente do Peru Kuczynski renuncia

21/03/2018 19h56

Por Marco Aquino, Teresa Cespedes e Mitra Taj

LIMA, 21 Mar (Reuters) - O presidente do Peru, o conservador Pedro Pablo Kuczynski, renunciou nesta quarta-feira ao cargo, pressionado por acusações de corrupção que provocaram uma crise política em uma das economias de maior crescimento na América Latina.

O ex-banqueiro, que assumiu o poder em 2016, perdeu apoio popular e sua saída era exigida por opositores e por integrantes do governo. O Congresso tramitava um pedido de destituição e iria interrogá-lo na quinta-feira.

“Diante desta difícil situação que foi gerada e que me faz aparecer injustamente como culpado de atos dos quais nunca participei, penso que o melhor para o país é que eu renuncie à Presidência da República”, disse Kuczynski em mensagem gravada e transmitida na TV.

“Não quero ser um problema para que nossa nação encontre o caminho da unidade e a harmonia que tanto necessita e foi negada para mim”, afirmou o presidente de 79 anos, rodeado pela maioria de seu gabinete, reunida no Palácio de Governo.

Representantes dos partidos políticos no Congresso peruano aceitaram a renúncia de Kuczynski, disse o chefe do Poder Legislativo, Luis Galarreta, acrescentando que o vice-presidente Martín Vizcarra assumirá na sexta-feira o cargo de chefe de Estado.

Kuczynski havia escapado de uma primeira tentativa de destituição em dezembro no Congresso, que o acusava de ter se favorecido de contratos de consultoria com a brasileira Odebrecht.

Naquela ocasião, diversos parlamentares opositores do partido fundado pelo ex-presidente Alberto Fujimori inclinaram a balança a favor do presidente. Pouco depois, Kuczynski ordenou um indulto a Fujimori, que cumpria condenação de 25 anos de prisão por violações aos direitos humanos.

A maioria dos peruanos se mostrou a favor da renúncia, de acordo com pesquisas.

A gota d'água foi quando dirigentes do maior partido opositor, Força Popular, mostraram vídeos e áudios de parlamentares dissidentes oferecendo separadamente a um colega da oposição apoio oficial para obras em troca de que rejeitasse o impeachment na sessão legislativa de quinta-feira.

Apesar da pior turbulência política do país em quase duas décadas, Kuczynski seria anfitrião da Cúpula das Américas, nos dias 13 e 14 de abril em Lima, na qual planejava se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

TRANSIÇÃO ORDENADA

Depois do anúncio, os ministros apresentaram sua renúncia em solidariedade a Kuczynski, informou um membro do gabinete.

Kuczynski disse esperar uma transição constitucional e ordenada para superar um clima de “ingovernabilidade” pelos constantes confrontos com o Congresso. O presidente recomendou a realização de uma reforma constitucional para não voltar a viver estas situações.

Agora o primeiro vice-presidente Vizcarra, até hoje também embaixador no Canadá, será o novo chefe de Estado até completar o atual mandato em 2021, segundo diretrizes da Constituição.

“É importante para nossa nação que sigamos em frente com reformas políticas constitucionais que irão nos permitir não voltarmos a passar por esse difícil período e podermos assim iniciar um novo capítulo para o progresso e a justiça”, disse Kuczynski.

Um assessor de Vizcarra disse que ele estava ainda nesta quarta-feira cumprindo funções diplomáticas no Canadá.

A renúncia de Kuczynski ocorre a menos de três semanas da cúpula, que será a primeira viagem de Trump à América Latina. Um funcionário da Casa Branca, que falou sob condição de anonimato, disse à Reuters que Trump ainda planeja participar da cúpula.