Empresas definem seus próprios preços para mercado de carbono

Por Ross Kerber e Simon Jessop e Peter Henderson

BOSTON/DUBAI/SAN FRANCISCO (Reuters) - Uma lista crescente de empresas globais está estabelecendo um preço ou cobrando de si mesmas por cada tonelada métrica de suas emissões de carbono, buscando moldar seus investimentos e negócios para futuros impostos sobre poluição ou outras novas regras climáticas.

Os preços são variados, desde menos de 1 dólar por tonelada de emissões de carbono até 1.600 dólares, o mais alto de todas as empresas do mundo, estabelecido pela farmacêutica californiana Amgen.

Os órgãos reguladores também ofereceram uma série de preços, incluindo o "custo social" do carbono do governo dos Estados Unidos, em torno de 200 dólares, e uma sugestão do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que esse custo deveria ser de pelo menos 85 dólares até 2030.

A incorporação do custo do dióxido de carbono e de outras emissões de gases de efeito estufa nas decisões comerciais tem sido o sonho dos ativistas climáticos há décadas, como forma de forçar as empresas a reduzir as emissões.

Embora um preço global padronizado para o carbono não seja definido na cúpula climática COP28, em andamento em Dubai, o conceito tem muitos usos nos negócios, como permitir que os executivos cobrem mais de suas divisões para usar energia de combustíveis fósseis, tornando assim as energias renováveis mais atraentes.

"Embora existam outras estratégias para fazer isso, o não uso dessa ferramenta pode significar que as empresas podem não estar planejando adequadamente as realidades de médio e longo prazos do custo do carbono", disse Amir Sokolowski, diretor global de mudanças climáticas do CDP.

Uma análise feita pela organização sem fins lucrativos para a Reuters constatou que 20% das 5.345 empresas globais que fazem divulgações relacionadas ao clima disseram que usaram um preço interno de carbono no ano passado, em comparação com 17% no ano anterior. Outras 22% planejam fazer isso nos próximos dois anos, embora, historicamente, apenas uma fração das empresas que planejam implementar um preço interno de carbono o tenha feito.

A análise do CDP revela que as empresas adotaram a nova ferramenta de planejamento, mas também que ainda há muito debate sobre quais preços estimularão ações significativas das empresas para a redução de emissões.

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Diante das tendências, vários analistas disseram à Reuters que o quadro emergente é o de executivos que estão se preparando para algum tipo de nova regulamentação de emissões, mesmo que não tenham uma noção clara do que está por vir.

As empresas estão "se preparando para a realidade de que isso será exigido", disse Joseph Stiglitz, economista da Universidade de Columbia. Mas os preços medianos ainda são muito baixos para causar um impacto importante na tomada de decisões das empresas, disse o ganhador do Prêmio Nobel.

As empresas não têm um caminho simples a seguir, uma vez que o uso de um preço alto de carbono pode mudar drasticamente os planos de investimento, enquanto o uso de um preço baixo pode trazer acusações de "greenwashing".

Vários executivos que conversaram com a Reuters disseram que os planos internos de precificação os ajudam a reduzir as emissões e a esclarecer as implicações de investimentos e de outras atividades comerciais.

Os preços de mercado para compensações de carbono podem variar de 5 a 1.500 dólares por tonelada, disse Joe Speicher, diretor de sustentabilidade da produtora de software Autodesk.

A Autodesk tem aumentado constantemente seu preço interno de carbono para 20 dólares. O ideal seria que os órgãos reguladores esclarecessem como as empresas devem tratar os custos de emissões, disse Speicher. "Não seria bom ter uma autoridade pública para ajudar a criar um mercado mais coerente?", disse ele.

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A empresa usa o preço para ajudar a identificar coisas como o valor de seus investimentos em projetos de remoção de carbono, disse ele.

VINCULAÇÃO AOS MERCADOS

Vários mercados de carbono operam globalmente, inclusive o Sistema de Comércio Europeu, onde o carbono é negociado atualmente em torno de 70 dólares a tonelada.

Muitas empresas criaram seus próprios mecanismos internos. Quando a montadora Volvo adotou a precificação interna de carbono, não conseguiu encontrar um bom modelo a ser seguido porque "pouquíssimas empresas" usavam esses preços em seus negócios, disse Jonas Otterheim, diretor de ação climática da companhia.

A Volvo incorporou um "preço-sombra" de 1.000 coroas suecas por tonelada, cerca de 92 dólares, em decisões que vão desde o modelo de veículo a ser produzido até os materiais a serem usados nas fábricas. Acrescentar o custo da poluição de carbono ao alumínio, por exemplo, fez com que o uso de alumínio criado com energia renovável se tornasse uma "prioridade muito alta", porque ele gera menos de um quarto das emissões de carbono do material normalmente produzido, disse ele.

Da mesma forma, a Volvo reconsiderou o custo real de seus carros maiores à medida que regras mais rígidas da UE entraram em vigor.

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A discussão "na verdade, nos fez mudar todo o planejamento de volume da empresa para dizer que não devemos priorizar alguns carros em relação a outros, mesmo que pareçam mais lucrativos, porque na verdade eles nos darão uma espécie de penalidade que outros carros não terão", disse Otterheim.

A fabricante de medicamentos Amgen cobra uma "taxa interna" de 1.000 dólares por tonelada em projetos de maior emissão. Os recursos são então usados para financiar projetos de redução de emissões. Por exemplo, um projeto de expansão de serviços públicos na Irlanda acrescentou 700 mil dólares ao seu orçamento de sustentabilidade, disse um porta-voz.

Em relatório climático CDP 2023, a Amgen disse que também usa um "avaliador de investimentos" para julgar se deve comprar novos equipamentos de redução de emissões, usando um preço ainda mais alto para o carbono.

"Os projetos de sustentabilidade que custam mais do que os projetos tradicionais, mas que custam menos de 1.600 dólares por tonelada de emissões de CO2, são considerados razoáveis", afirma o relatório. A Amgen, como uma empresa de base científica, pretende ser neutra em carbono em suas próprias operações até 2027, disse o porta-voz.

UM PREÇO QUE INCOMODA

Vários analistas que conversaram com a Reuters ofereceram uma série de opiniões sobre o preço que as empresas deveriam usar.

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Gunther Thallinger, membro da diretoria da seguradora alemã Allianz e membro de um conselho consultivo sobre o clima da ONU, disse que um mercado global abrangente de carbono seria "um grande impulso" para os esforços de redução de emissões. Mas a atual variação de preços é um problema, especialmente com alguns preços abaixo de 5 dólares por tonelada.

"Temo que isso esteja indo na direção do greenwashing", disse ele.

Entretanto, Anita McBain, chefe da EMEA ESG Research do Citi, disse que os usos práticos são mais importantes do que os preços altos.

"Preferimos ver um preço de 25 dólares que esteja realmente influenciando decisões, em vez de um preço de 75 que não faça diferença", disse ela.

((Tradução Redação São Paulo, 55 11 56447753))

REUTERS AAJ ES

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