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Covid-19: Espanha confina cerca de 1 milhão em bairros pobres na região de Madri

18/09/2020 16h44

Diante da explosão de casos de Covid-19, a capital espanhola impôs restrições de entrada e saída a oito bairros, principalmente os mais pobres e que concentram boa parte da imigração. Os 858 mil pessoas, ou 13% da população da capital, que vivem em regiões desfavorecidas da zona sul, não poderão, a partir de segunda-feira (21), deixar seus bairros a não ser por motivos essenciais como trabalhar, ir ao médico ou levar filhos à escola. O descumprimento das regras de restrição sanitária será punido com multas de pelo menos € 600 (cerca de R$ 3.800).

As áreas afetadas pelas novas medidas de segurança localizam-se principalmente no sul da capital espanhola e na região da Grande Madri, onde a precariedade é maior do que em outras localidades e onde há graves problemas de superlotação, o que multiplica as possibilidades de contágio.

A falta de recursos econômicos faz com que muitas famílias, compostas principalmente por migrantes, sejam obrigadas a compartilhar pequenos espaços nesses bairros populares, onde a renda per capita também é muito inferior à média nacional, com abundância de trabalhadores manuais, que usam principalmente os transportes público.

Parques e jardins fechados

"A entrada e saída nessas áreas são restritas, exceto para questões básicas necessárias, como assistência médica, trabalhista, legal, obrigações educacionais, o cuidado de idosos, ou qualquer questão de força maior. É permitida a circulação dentro destes perímetros, mas as reuniões privadas terão de ser reduzidas a seis pessoas e a atividade em parques e jardins está suspensa até novo aviso ", anunciou a prefeita de Madri, Isabel Díaz Ayuso.

"Devemos evitar o confinamento, devemos evitar um desastre econômico ", disse Ayuso em uma coletiva de imprensa. "Não achamos que seja hora de impor restrições a todos os cidadãos, mas sim aplicar medições em áreas que identificamos como de risco", afirmou.

A série de novas restrições chega também em um momento em que o governo de Madri, do Partido Popular [de direita], e sua chefe, Isabel Díaz Ayuso, recebem fortes críticas da oposição e dos sindicatos por seus constantes erros na gestão da crise, incluindo a falta de investimento no setor de saúde, que pode transbordar se a pandemia continuar a crescer.

Imigrantes estigmatizados

Moradores dos bairros mais pobres de Madri se sentem abandonados e estigmatizados e temem que estas novas restrições lhes roubem uma fonte de renda valiosa. Ayuso foi criticada nesta semana por dizer que "o estilo de vida do imigrante" foi parcialmente responsável pelo forte aumento nos casos de contaminação nessas regiões.

Vallecas, um dos bairros afetados pelas medidas, no sul da capital, concentra um alto índice de pobreza e imigração e tem uma das maiores taxas de infecção de Madri, seis vezes mais que o bairro nobre de Chamberi, no norte. O sistema de saúde de Vallecas está "paralisado", reclamou uma aposentada, Mari Paz Gonzalez. "Estamos abandonados. Eles nos deixaram nas mãos de Deus".

"Assim que você cruza a ponte, as coisas mudam, desde que você mude de bairro", acrescentou outra aposentada, Carmen Ibarra, nas ruas de Vallecas.

A Espanha, um dos países da Europa mais enlutados pela pandemia de coronavírus, registrou quase 30.500 mortes devido à Covid-19.