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Campanha contra lockdown e "comunismo" deve fortalecer direita nas eleições regionais em Madri

04/05/2021 06h29

A população da comunidade de Madri vai às urnas nesta terça-feira (4) para votar nas eleições antecipadas convocadas pela atual governadora, Isabel Díaz Ayuso. A campanha contra medidas sanitárias e os ataques ao primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez deve consolidar a liderança da política no Partido Popular, de direita. Durante a campanha, houve até ameaças de morte a candidatos ? fato que levou a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, a manifestar sua solidariedade a um dos representantes de esquerda.

A população da comunidade de Madri vai às urnas nesta terça-feira (4) para votar nas eleições antecipadas convocadas pela atual governadora, Isabel Díaz Ayuso. A campanha contra medidas sanitárias e os ataques ao primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez deve consolidar a liderança da política no Partido Popular, de direita. Durante a campanha, houve até ameaças de morte a candidatos ? fato que levou a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, a manifestar sua solidariedade a um dos representantes de esquerda.

Denise Menchen, correspondente da RFI em Madri

À frente da administração que menos adotou medidas restritivas para conter a epidemia do coronavírus na Espanha, a chefe do governo regional de Madri, Isabel Díaz Ayuso, convocou eleições antecipadas com a esperança de sair fortalecida do pleito e ampliar o poder de influência do Partido Popular, segunda força política do país. No poder desde 2019, ela espera obter maioria absoluta de votos e conseguir governar sem a necessidade de uma coalizão pelos próximos dois anos.

As pesquisas apontam que, de fato, o partido de Ayuso terá um crescimento significativo em relação às eleições regionais de 2019, passando de 25% a 41% dos votos. Grande parte do apoio vem de empresários e trabalhadores dos setores de gastronomia e comércio, que, ao contrário do que ocorreu em outras regiões da Espanha, puderam seguir de portas abertas desde o fim do lockdown nacional, em abril do ano passado.

Não por acaso, a campanha de Ayuso foi estruturada em torno da ideia de liberdade, que ela contrapõe ao que classifica como "comunismo" do governo central, do socialista Pedro Sánchez. Já a oposição ironiza o slogan, dizendo que a liberdade existente na comunidade de Madri, formada pela capital e municípios vizinhos, é a de circulação do vírus. A província de Madri, que compreende a área da comunidade de mesmo nome, é a nona com mais mortes por mil habitantes dentre as 50 existentes na Espanha.

Dependência da extrema direita

Mesmo que as pesquisas indiquem crescimento vertiginoso do PP, Ayuso provavelmente continuará dependendo do apoio do partido de ultradireita Vox para seguir no poder. Na Espanha, diferentemente do Brasil, vigora o parlamentarismo, que exige maioria legislativa para governar. Segundo as últimas pesquisas, a ultradireita receberia cerca de 10% dos votos.

Nas últimas eleições regionais, em 2019, a governadora conseguiu se eleger com o apoio do Vox e do partido de centro-direita Cidadãos, que desta vez corre o risco de não obter o mínimo de 5% dos votos necessário para aceder à Assembleia.

O enfraquecimento do Cidadãos já vinha se verificando a nível nacional e foi um dos motivos que levaram Ayuso a romper com o partido e convocar as eleições antecipadas, ao vislumbrar a oportunidade de lograr um governo sem a centro-direita e, idealmente, também sem o Vox.

A possibilidade de que apenas a saída do Cidadãos se confirme é um cenário que preocupa analistas políticos do país, já que o partido muitas vezes funcionava como um anteparo a medidas mais radicais do Vox.

Representados pela arquiteta Rocío Monastério, filha de um empresário cubano que deixou a ilha após ter seus negócios expropriados pela ditadura de Fidel Castro, os ultradireitistas centraram a campanha nas críticas às políticas de apoio a menores estrangeiros que chegam ao país desacompanhados e na oposição ao aborto e à eutanásia, direitos garantidos por lei.

Ameaças de morte

Monastério também protagonizou um episódio polêmico ao se recusar a condenar uma ameaça de morte recebida pelo candidato de esquerda Pablo Iglesias, que deixou seu cargo como vice-primeiro-ministro da Espanha para disputar o governo de Madri pelo partido Unidas Podemos.

No último dia 22 de abril, foram interceptados três envelopes com mensagens ameaçadoras e projéteis de armas de fogo que estavam dirigidas a Iglesias, ao ministro do Interior e à diretora-geral da Guarda Civil. No dia seguinte, no que seria o segundo debate entre os candidatos ? já sem a presença de Ayuso, que decidira participar apenas do primeiro programa ? a candidata do Vox lançou dúvidas sobre a veracidade das ameaças. Indignado, Iglesias decidiu abandonar o estúdio, no que foi sucedido pelos demais candidatos de esquerda.

Depois desse episódio, cartas similares chegaram novamente a Iglesias e a outros políticos e ex-políticos espanhóis de esquerda. Por fim, também a candidata à reeleição em Madri, Isabel Díaz Ayuso, foi alvo de correspondência similar. Até agora, foi identificado apenas o autor da ameaça contra a ministra de Indústria, Comércio e Turismo: um homem com transtornos mentais que confessou a autoria do crime. Não se sabe se os demais envios foram realizados por uma ou mais pessoas.

Socialistas na liderança

De acordo com as pesquisas, as chances de a esquerda conseguir formar governo nestas eleições são remotas. Projeções feitas pelo jornal El País indicam uma probabilidade de 16%. Nesse espectro político, o partido que reúne maior percentual de intenções de votos é o PSOE, do primeiro-ministro Pedro Sánchez, que entrou na disputa com o candidato Ángel Gabilondo (em segundo nas pesquisas, com 21%). Em seguida vêm o Mais Madri, representado pela médica Mónica García, e o Unidas Podemos, de Iglesias. Juntos, os três somam cerca de 45% das intenções de votos.

Na reta final da campanha, no último domingo (2), Iglesias divulgou no Twitter um vídeo em que a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, manifesta sua solidariedade por causa das ameaças recebidas por ele. "As forças cada vez mais radicais e fascistas da direita ameaçam a democracia, produzindo medo e aprofundando o ódio e a violência em nossas sociedades. Mas não passarão, não conseguirão", disse Dilma, que Iglesias definiu como alguém que "experimentou na própria pele do que o fascismo é capaz".

Para tentar evitar novos contágios nos colégios eleitorais, a votação ocorrerá entre as 9h e as 20h desta terça-feira, com faixas de horário prioritárias para idosos e pessoas com suspeita ou confirmação de Covid-19. A expectativa é que os resultados das urnas sejam conhecidos até as 23h no horário local (18h de Brasília).