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Patrimônio natural do planeta, canto dos pássaros está desaparecendo

Pássaros comuns na Europa tomaram espaços deixados por espécies mais exóticas - Fotomontagem RFI/ Adriana de Freitas/Wikipédia
Pássaros comuns na Europa tomaram espaços deixados por espécies mais exóticas Imagem: Fotomontagem RFI/ Adriana de Freitas/Wikipédia

02/12/2021 08h42Atualizada em 02/12/2021 10h12

O amanhecer está se tornando cada vez menos alegre em boa parte do planeta: o canto dos pássaros está mais raro, na medida em que seus habitats naturais são destruídos pelo avanço das intervenções humanas.

Não é de hoje que os pesquisadores alertam sobre o impacto da agricultura intensiva nas populações de pássaros. Um novo estudo de uma equipe internacional, publicado na revista científica Nature Communications, alerta que a "paisagem sonora" na Europa e na América do Norte se tornou cada vez mais pobre nos últimos 25 anos. Um patrimônio natural da Terra, a orquestra dos pássaros, está ameaçado.

O estudo, coordenado pelo britânico Simon Butler, combinou dados de populações de pássaros com gravações de cantos recolhidos por voluntários neste período, na época da primavera. A conclusão foi clara: a sinfonia hoje é menos impressionante do que já foi no passado.

Na França, esse monitoramento cabe ao Museu Nacional de História Natural, que há mais de 30 anos acompanha as populações de pássaros em 2.900 pontos do país. O coordenador do observatório, Benoit Fontaine, ressalta que não há registros de desaparecimento de espécies, porém o número de pássaros de muitas delas está em queda.

"Há lugares que costumavam ter presença de pássaros, mas agora não têm mais, o que significa que, pontualmente, há muitos lugares onde os cantos dos pássaros desapareceram. Entretanto, na Europa, faz muito tempo tempo que não acontece um desaparecimento total de uma espécie", afirma o biólogo especialista em conservação.

Variedade de pássaros substituída por espécies comuns

Fontaine aponta a atividade humana como a principal razão para o declínio, causado pela destruição dos habitats naturais dos bichos. A derrocada é ainda mais marcante no meio rural, onde costumava-se encontrar uma ampla variedade de pássaros que, pouco a pouco, foi sendo substituída por espécies mais comuns, de fácil adaptação a ambientes homogêneos, como os dos campos agrícolas.

"Constatamos um empobrecimento da paisagem sonora. Quando eles são muitos, eles são mais estimulados a cantar porque, em grande parte, o canto é um comportamento que serve para eles marcarem território", sublinha. "Quanto mais pássaros numa região, mais territórios adjacentes precisarão ser marcados. Os pássaros precisam do canto para se responderem uns aos outros. Se não tem território marcado ao lado, ele vai continuar cantando porque é o que ele gosta de fazer no seu território, mas ele não será estimulado a cantar mais para responder ao vizinho."

Desaparecimento das abelhas

Não é uma coincidência se o que ocorre com os pássaros remete ao fenômeno do desaparecimento das abelhas e insetos em geral - dois símbolos já consolidados da perda da biodiversidade mundial. O especialista francês explica que os dois eventos estão diretamente relacionados.

"Todos os pássaros, em um momento da vida deles, precisarão se alimentar de insetos, e se tiver menos insetos, haverá menos pássaros. Os dois fenômenos estão completamente ligados e são causados pela mesma razão: a destruição dos habitats, a agricultura intensiva, com uso abusivo de agrotóxicos, a redução de recursos para as espécies selvagens, que se tornam menos abundantes na natureza", lamenta o biólogo.

Benoit Fontaine destaca ainda que o problema é pouco estudado além das fronteiras da Europa e da América do Norte - mas provavelmente o resto do planeta também é atingido pela diminuição das populações de pássaros.

"Na maioria dos países do sul, não tem mecanismos de acompanhamento das populações. Para uma grande parte do mundo, somos obrigados a fazer projeções, extrapolações, portanto não temos dados muito precisos", constata. "Só que como a crise da biodiversidade é mundial, não tem razão para que os pássaros não estejam desaparecendo por todo o lugar", conclui.

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