Combate à pobreza pode levar a França a economizar € 19 bilhões por ano
Faltando um dia para a apresentação do projeto do orçamento francês para 2025, que prevê grandes cortes nos gastos do governo, um grupo de cerca de trinta associações publicou um relatório sobre o custo da pobreza. De acordo com o estudo, a pobreza custa ao Estado francês cerca de € 119 bilhões por ano.
O relatório, intitulado "Lutter contre la pauvreté : un investissement social payant" (Lutar contra a pobreza: um investimento social lucrativo, em tradução livre), foi encomendado pelo coletivo Alerte, que inclui entidades caritativas como a fundação Abbé Pierre, o Emmaüs, o Petits frères des pauvres e o Secours catholique.
De acordo com o estudo, realizado pela empresa de consultoria Oliver Wyman, o Estado francês gasta € 119 bilhões por ano para reduzir a pobreza na França. Em detalhes, pouco mais de € 51 bilhões são gastos em benefícios sociais mínimos e outras formas de apoio.
Mas a pobreza também gera custos indiretos em áreas como educação, justiça e saúde. Os custos adicionais, que também incluem a perda de receita tributária, chegam a mais de € 67 bilhões por ano.
Inação do governo custaria ainda mais
Mais de nove milhões de pessoas na França vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, com menos de € 1.216 por mês, cerca de R$ 7.431,95, na cotação atual. A situação afeta 14% da população francesa.
O número não é novo. O que é novo, no entanto, é uma abordagem econômica para o problema, especialmente porque o combate à pobreza pode ser compensador, de acordo com Noam Leandri, presidente do coletivo Alerte: "Cada euro investido no combate à pobreza gerará economias em outros lugares de pelo menos um euro, se não mais", afirmou.
Esse é um estudo sem precedentes na França, porque nunca houve nenhum cálculo do real custo-benefício. Em outras palavras, quanto custaria e quanto se ganharia na luta contra a pobreza. Esse tipo de cálculo é mais comum no Canadá, na Inglaterra e na Irlanda.
Um círculo virtuoso para a economia
A data de publicação do relatório não foi escolhida por acaso, num momento em que o governo francês está tentando colocar suas finanças públicas de volta nos trilhos.
Mas, de acordo com o presidente do coletivo Alerte, a inação poderia custar ainda mais ao Estado. Ele afirma, inclusive, que um investimento adicional de € 8 bilhões por ano poderia ser benéfico para a economia francesa.
"E isso porque as pessoas poderão voltar a trabalhar, devolvendo a elas sua dignidade. Tudo isso terá um efeito positivo sobre a economia. Isso até aumentará o crescimento econômico. Um aumento estimado, a longo prazo, em meio ponto do PIB a cada ano", diz o documento.
Os € 8 bilhões de investimento seriam divididos entre o apoio às famílias, o retorno das pessoas ao trabalho e os problemas de moradia na França.
Austeridade
O coletivo espera convencer os parlamentares franceses a adotar uma lei que comprometeria o Estado a reduzir drasticamente a pobreza, ou até mesmo erradicá-la, até o final da década. Mas não há certeza de que a mensagem será ouvida.
Por enquanto, o governo do premiê francês Michel Barnier busca exatamente o oposto. Na quinta-feira (10), ele deve apresentar um plano de austeridade com o objetivo de encontrar pelo menos € 60 bilhões em economias para reduzir o déficit público da França.
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