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Irmandade Muçulmana esta perdendo a chance de deixar boa impressão no Egito

10.dez.2012 - Manifestante segura cartaz com o rosto do presidente do Egito, Mohamed Mursi, durante protesto pró-governo, no Cairo. A oposição do país rejeitou o plano de Mursi para realizar um referendo constitucional nesta semana - Amr Abdallah Dalsh/Reuters
10.dez.2012 - Manifestante segura cartaz com o rosto do presidente do Egito, Mohamed Mursi, durante protesto pró-governo, no Cairo. A oposição do país rejeitou o plano de Mursi para realizar um referendo constitucional nesta semana Imagem: Amr Abdallah Dalsh/Reuters

22/02/2013 00h01

O jornal Daily News do Egito informou que o tribunal administrativo nacional decidiu, na semana passada, que o popular “canal de dança do ventre” Al-Tet fosse tirado do ar por ter realizado transmissões sem ter licença. Quem é que sabia que o Egito tinha um canal de dança do ventre? (Será que a Comcast sabe disso?) O canal é evidentemente muito popular, mas aparentemente ele também é considerado ofensivo por algumas das forças islâmicas que estão em ascensão no Egito.

Não ficou claro que tipo de influência o partido Irmandade Muçulmana teve na proibição das barrigas dançantes, mas o que está claro é que ninguém no Egito está se divertindo muito hoje em dia.

O país está mais dividido do que nunca entre os partidos islâmicos e os partidos menos religiosos e liberais, e a moeda egípcia perdeu 8% de seu valor em relação ao dólar nos últimos dois meses. O que é ainda mais preocupante é o fato de, ultimamente, estar ocorrendo um aumento acentuado nos casos de brutalidade policial e estupro contra manifestantes da oposição. Tudo está se juntando à primeira impressão sobre o presidente Mohammed Mursi e a Irmandade Muçulmana: a impressão de que eles estão desperdiçando sua primeira chance no poder.

Em algum momento dos próximos meses, Mursi visitará a Casa Branca. Ele tem apenas uma chance de deixar uma segunda impressão caso queira continuar recebendo ajuda financeira do Congresso dos Estados Unidos. Mas, quanto mais eu olho para o governo da Irmandade Muçulmana no Egito, mais eu me pergunto se ele tem alguma segunda impressão a oferecer.

Desde o início da revolução de 2011, na Praça Tahrir, todas as vezes que a Irmandade Muçulmana se viu diante da escolha de se comportar de forma inclusiva ou acumular mais poder, o partido foi fiel a suas tendências bolcheviques e agarrou mais poder, sacrificando a inclusão. Essa afirmação se mostrou válida em relação à rapidez com que as eleições foram realizadas (antes que a oposição pudesse se organizar), em relação à velocidade com que uma nova Constituição foi elaborada e votada (antes que as queixas da oposição pudessem ser solucionadas) e em relação à inclusão de membros da oposição no governo (o mínimo possível). A oposição não é inocente nessa história, pois demorou tempo demais para se organizar, mas a avidez de Mursi por poder irá assombrá-lo daqui em diante.

O Egito está em uma condição econômica terrível. O desemprego entre os jovens é galopante, tudo está em estado de decadência, o turismo, os investimentos estrangeiros e as reservas sofreram uma queda acentuada. Como resultado, o Egito precisa de um resgate financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI). Qualquer ajuda financeira, porém, causará dores econômicas ao país – o que inclui cortes nos subsídios concedidos para a compra de alimentos e combustíveis com o intuito de reduzir o déficit orçamentário do Egito, que não para de crescer. Isso vai doer.

A fim de fazer com que os egípcios concordem com esse sofrimento, uma grande maioria parlamentar precisa se sentir investida dos poderes do governo e ungida de seu sucesso. Mas esse não é o caso hoje em dia. Mursi precisa desesperadamente de um governo de unidade nacional, composto por um amplo leque de partidos egípcios, mas, até agora, a Irmandade Muçulmana não conseguiu fechar nenhum acordo com a Frente de Salvação Nacional, a coalizão de oposição.

O Egito também precisa desesperadamente de investimentos estrangeiros para gerar empregos. Há bilhões de dólares de capital egípcio fora do país hoje em dia, pois os investidores do país, especialmente os cristãos, estão com medo de ter seu dinheiro confiscado ou de serem presos sob acusações ilusórias, como aconteceu a algumas pessoas após a queda do presidente Hosni Mubarak.

Uma das melhores coisas que Mursi poderia fazer por si próprio pelo Egito seria anunciar uma anistia a todos os membros da era Mubarak que não tenham as mãos manchadas de sangue ou que sejam considerados inocentes do roubo de dinheiro do governo sem a necessidade de longos julgamentos. O Egito precisa de todos os talentos e recursos financeiros próprios que for capaz de mobilizar internamente. Este não é o momento para vingança.

A Irmandade Muçulmana, porém, não precisa apenas de uma nova estratégia de governo. O partido precisa entender que sua versão do Islã político – que é resistente ao empoderamento das mulheres e ao pluralismo religioso e político – pode ser sustentável no Irã ou na Arábia Saudita, que têm enormes reservas de petróleo e gás para pagar pelo silêncio internacional em relação às contradições entre sua ideologia e seu crescimento econômico. Mas se você é o Egito e, basicamente, o seu único recurso natural é o seu povo – composto por homens e mulheres –você precisa ser tão aberto ao mundo e tão moderno quanto possível para poder liberar todo o potencial de crescimento que reside nas pessoas.

Conclusão: ou a Irmandade Muçulmana muda ou vai fracassar – e, quanto mais cedo o partido perceber isso, melhor. Eu compreendo por que a equipe do presidente Barack Obama prefere transmitir essa mensagem de maneira discreta: para que as forças políticas do Egito não comecem a se concentrar em nós (norte-americanos), em vez de se concentrarem umas nas outras. Essa é uma atitude sábia. Mas eu não acredito que estejamos transmitindo essa mensagem com força suficiente.

E os defensores da democracia egípcia certamente não estão transmitindo essa mensagem com força suficiente. Na semana passada, em carta aberta endereçada a Obama e publicada pela Al-Ahram Weekly, o ativista de direitos humanos egípcio Bahieddin Hassan escreveu que as fracas “posições adotadas pelo governo norte-americano têm dado cobertura política ao atual regime autoritário do Egito e permitiram que esse regime implementasse sem medo políticas antidemocráticas e cometesse numerosos atos de repressão”.

Não seria saudável para nós recriarmos com a Irmandade Muçulmana o toma lá, dá cá que mantínhamos com Mubarak. Ou seja: apenas seja bonzinho com Israel e enfrente os jihadistas que você poderá fazer o que quiser com seu próprio povo. Mas isso também não será mais possível. O povo egípcio tolerou esse tipo de postura do governo de Mubarak durante vários anos. Mas agora eles se mobilizaram – e eles perderam o medo. Tanto nós quanto Mursi precisamos entender que esse antigo toma lá, dá cá não é mais sustentável.