Advogado de Bruno afirma que Eliza está viva e que investiga "paralelamente" seu paradeiro

Rayder Bragon
Do UOL, em Belo Horizonte

O advogado Rui Pimenta, um dos defensores do goleiro Bruno Souza, voltou a afirmar nesta segunda-feira (19) que não há comprovação da morte de Eliza Samudio, ex-amante do goleiro.

Antes de entrar para a sessão inaugural do julgamento do jogador e de mais quatro réus, no fórum Doutor Pedro Aleixo, em Contagem (MG), Pimenta disse que vai afirmar que existem provas repassadas por pessoas que teriam visto Eliza viva.

O caso Bruno em fotos
O caso Bruno em fotos

"Vou atuar para sustentar a tese e provar a inexistência desse crime. Não há materialidade nenhuma. A prova testemunhal do menor [referindo-se a um primo do goleiro que cumpriu medida socioeducativa em Minas por causa de envolvimento no sumiço de Eliza] dada à polícia foi desmentida perante a Justiça", disse o advogado.

Segundo ele, nos últimos dias, a defesa do goleiro recebeu informações de que Eliza foi vista em vários locais.

"Estamos verificando o fichário [de hóspedes] de um hotel em São Paulo. Vamos tentar recuperar as imagens desse local", disse Pimenta, referindo-se a imagens de câmeras de segurança que teriam captado imagens de Eliza no local no dia 25 de junho de 2010. Segundo a Polícia Civil mineira, a ex-amante do goleiro teria sido morta no dia 10 de junho daquele ano, na casa do ex-policial Marcos Aparecidos dos Santos, o Bola, que fica na cidade de Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Pimenta afirmou também ter tido informações de que Eliza estaria residindo no leste europeu.

Quando assumiu a defesa do goleiro, Pimenta afirmou que não negaria a existência do assassinato de Eliza, mas que tentaria provar que o crime ocorreu sem a participação ou o conhecimento de Bruno.

Questionado sobre a mudança de estratégia, Pimenta afirmou que, ao tomar conhecimento do processo, mudou de opinião. "O processo tem 15 mil folhas. À medida que você vai lendo, vai tomando pé do caso", disse.

Perito Sanguinetti

O perito George Sanguinetti, arrolado pela defesa do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, chegou por volta das 9h40 ao fórum e afirmou que vai apresentar o resultado de perícias feitas por ele, em 2010, na casa do ex-policial e no sítio do goleiro, que fica na cidade de Esmeraldas (MG) e que foi apontado pela polícia mineira como o local de cativeiro de Eliza.

"A perícia não encontrou nada na casa do Bola. Vou apresentar isso à juíza e aos jurados. Não existem provas de que Eliza esteve  no sítio em Esmeraldas", resumiu Sanguinetti, que fora contratado pela defesa do réu para fazer uma investigação paralela à da polícia à época da investigação do sumiço de Eliza.

Entenda

O desaparecimento de Eliza Samudio provavelmente teria entrado para a crônica policial como mais um caso anônimo, sem corpo nem solução, se não tivesse entre os acusados um personagem que imediatamente chamou a atenção do público em todo o Brasil: Bruno de Souza Fernandes, 27, então goleiro titular e capitão da equipe principal de futebol do Flamengo, do Rio.

Desde que o nome de Bruno emergiu como o principal suspeito pelo sumiço de Eliza, foi desfraldado um enredo --ainda inacabado-- repleto de reviravoltas, declarações polêmicas, versões fantasiosas e pistas falsas. A morte também provoca perguntas, por enquanto sem respostas: Bruno mandou matar Eliza? Onde está o corpo? Eliza pode estar viva?

Com o julgamento, Bruno e quatro réus presenciam versões do caso --e de fatos a ele relacionados-- narradas por advogados e testemunhas. Ao cabo de duas semanas, tempo previsto de duração dos trabalhos, sete jurados definirão se os cinco réus são culpados ou inocentes. A juíza Marixa Fabiane Lopes Rodrigues, do 1º Tribunal do Júri de Contagem, conduz o julgamento.

O desaparecimento de Eliza

A paranaense Eliza Silva Samudio tinha 25 anos em junho de 2010, quando, segundo relatos de amigos, saiu do Rio de Janeiro, onde morava, e foi para Esmeraldas, na região metropolitana de Belo Horizonte, para conversar com o goleiro Bruno, pai de seu filho, então um bebê de apenas quatro meses. O atleta estava em compromisso pelo Flamengo, mas iria logo depois.

Bruno mantinha um sítio na cidade mineira, onde costumava descansar e reunir amigos. Revelado pelo Atlético Mineiro em 2005, o goleiro estava no Flamengo e morava no Rio desde 2006. Foi no Rio que Bruno começou a se relacionar com Eliza, no início de 2009. Cerca de um ano depois, em fevereiro de 2010, eles tiveram um filho.

Amigos contam que o relacionamento entre os dois havia "azedado" logo que Eliza soube que estava grávida. Eles relatam que Bruno e Eliza brigavam muito, e o goleiro a teria agredido e obrigado a tomar remédios abortivos quando soube da gravidez. A pedido dele, Eliza teria ido ao sítio de Minas para tentar chegar a um acordo sobre a paternidade da criança. Foi e não voltou, dizem.

Investigação e "revelação"

Conforme a investigação, cerca de três semanas após Eliza ter sido levada para Minas, um telefonema anônimo para o Disque Denúncia (181) informou que ela havia sido agredida e morta no sítio do goleiro em Esmeraldas. Imediatamente a polícia conseguiu um mandado de busca e apreensão e seguiu para o local, onde fez buscas e encontrou roupas de mulher, fraldas e objetos de criança.

Mas foi no Rio que o caso "explodiu", no início de julho, quando a polícia encontrou, na casa do goleiro, em um condomínio fechado no Recreio dos Bandeirantes, um adolescente de 17 anos, primo do goleiro, que afirmou ter participado do sequestro de Eliza. Segundo depoimento do menor, ele e Luiz Henrique Romão, o "Macarrão", levaram Eliza e o bebê para o sítio em Esmeraldas.

Em seguida, de acordo com o adolescente, ela foi levada a Vespasiano, para a casa do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o "Bola", acusado de ser o executor do crime. Lá, Eliza teria sido amarrada, estrangulada e esquartejada, e partes do corpo teriam sido jogadas a cães da raça rottweiler, que as comeram. O bebê não estava junto, havia ficado 40 km para trás, no sítio em Esmeraldas, sob os cuidados da mulher de Bruno, Dayanne Souza.

No dia seguinte ao depoimento do menor, a Justiça de Minas Gerais pediu a prisão preventiva de Bruno e mais oito pessoas, todas suspeitas de participarem direta ou indiretamente do crime: Bruno, MacarrãoBola (suspeito de matar Eliza), Dayanne, Fernanda Castro (amante de Bruno), Elenilson Vítor da Silva (caseiro do sítio), Flávio Caetano de Araújo (amigo), Wemerson Marques de Souza (amigo) e Sérgio Rosa Salles (primo de Bruno). Os cinco primeiros começam a ser julgados hoje. Dos demais, um foi assassinado (Sérgio), um não foi pronunciado por falta de provas (Flávio) e dois serão julgados em data a ser definida.

O menor que contou tudo à polícia hoje é maior. Jorge Rosa foi condenado pelo juiz da Vara da Infância e Juventude de Contagem a cumprir medida socioeducativa por envolvimento no caso. As informações de Rosa serviram de base para as investigações da polícia. Porém, após apontar Bruno, Bola e Macarrão como os autores do crime, ele voltou atrás e negou a versão. Atualmente, faz parte de programa de proteção de testemunhas do governo de Minas Gerais.

Morte

Desde as prisões, em agosto de 2010, novos fatos surgiram, ora ajudando, ora embaralhando as investigações do que pode ter acontecido com Eliza em Minas Gerais. Dezenas de testemunhas foram ouvidas, delegadas foram afastadas do caso, acusados disseram ter sido agredidos ou passaram mal na prisão, e peritos chegaram a desqualificar provas colhidas durante o inquérito. Morte e tentativas de homicídio, além de lista de marcados para morrer, também estiveram presentes nesses dois anos. Um dos réus, Sérgio Salles aguardava o júri em liberdade e foi assassinado quando ia para o trabalho, em Minas Gerais.

Ainda nesse período, uma juíza foi acusada de tentar extorquir Bruno para livrá-lo da cadeia, um suposto plano para matar outra juíza e um deputado foi descoberto, uma série de TV contando o caso quase foi impedida de ir ao ar e uma carta anônima chegou ao estúdio de um programa de rádio indicando o local exato de onde estaria o corpo de Eliza. Mesmo tendo sido revelado em sonho, o lugar indicado foi visitado pela polícia, que não encontrou nada por lá. A última revelação foi dada pelo padrasto de Eliza, para quem a enteada está viva.

A criança

Pivô involuntário do desaparecimento da mãe, o filho de Eliza e Bruno tem atualmente dois anos e oito meses e vive em Mato Grosso do Sul com a avó materna, que ganhou na Justiça o direito de criá-lo, depois de uma pendenga judicial com o avô, que também queria o menino.

Nesta segunda-feira (19), a mãe de Eliza, Sônia de Fátima Moura, afirmou ao UOL que Bruninho pergunta muito pela mãe. A avó diz que já explicou ao menino que a mãe morreu e não vai voltar.

Condenado ou absolvido, Bruno já declarou que não pretende brigar pela guarda do filho, cuja paternidade foi atribuída a ele pela Justiça do Rio de Janeiro em julho deste ano. Seu maior sonho é disputar a Copa do Mundo de 2014 como titular da seleção brasileira e dar o título ao país defendendo um pênalti cobrado pelo argentino Messi na final.

VEJA O O QUE SERÁ APRESENTADO NO JULGAMENTO DOS ACUSADOS

RÉU ACUSAÇÃO O QUE DIZ O MP O QUE DIZ A DEFESA
BRUNO Responde pelos crimes de sequestro e cárcere privado, homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver Mentor e mandante da morte de Eliza, ameaçou-a de morte durante a gravidez. O goleiro determinou que Eliza fosse sequestrada e levada a sua casa, no Rio de Janeiro. Acompanhou o deslocamento de Eliza, já sequestrada e ferida na cabeça após receber coronhadas, para Minas Nega a existência do crime. Eliza não foi morta porque não há corpo. Anteriormente, havia reconhecido a morte de Eliza, mas sem a participação, concordância ou o conhecimento do goleiro. A atribuição do crime havia sido dada a Macarrão, insinuando que o ex-braço direito nutria um "amor homossexual" pelo jogador
MACARRÃO Responde pelos crimes de sequestro e cárcere privado, homicídio triplamente qualificado, e ocultação de cadáver Também ameaçou Eliza durante a gravidez e foi o responsável pelo sequestro da moça no Rio de Janeiro. Foi o motorista do carro, com Eliza e o filho, na viagem para Minas Gerais. Dirigiu o veículo que transportou a moça até a casa de Bola. Amarrou as mãos de Eliza e desferiu chutes nas pernas da moça Não existem provas materiais do crime de homicídio. Ele declarou que, Para evitar "especulações", não adianta detalhes da estratégia de defesa a ser adotada
BOLA Responde pelos crimes de homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver Executor de Eliza, estrangulou a jovem dentro de casa, em Vespasiano. Esquartejou o corpo da mulher e atirou uma das mãos a cães rottweiler. Foi incumbido de desaparecer com o corpo Nega as acusações e afirma que apresentará "prova cabal" aos jurados, durante o julgamento, da inocência de Bola
DAYANNE Responde pelos crimes de sequestro e cárcere privado da criança Participou da "vigilância" feita sobre Eliza e o filho no sítio do goleiro em Esmeraldas, apontado pela polícia como o cativeiro de Eliza antes de sua morte. Sabia do plano para matar a ex-amante do jogador. Tentou desaparecer com o filho de Eliza, localizado posteriormente pela polícia em Ribeirão das Neves Nega que Dayanne soubesse do plano para matar Eliza, ela apenas cuidou da criança depois de um pedido do ex-marido. Sobrevivência do filho de Eliza se deu graças a Dayanne
FERNANDA Responde pelos crimes de sequestro e cárcere privado de Eliza e do filho dela Outra ex-amante de Bruno, auxiliou Macarrão a manter Eliza dentro da casa do goleiro no Rio antes da viagem para Minas. Cuidou do filho de Eliza nesse período e acompanhou Bruno e Macarrão na ida para Minas. Sabia da intenção do grupo de matar Eliza É inocente, não sabia de nenhum plano para matar Eliza. Não presenciou um cenário que remetesse ao crime atribuído a ela. A viagem a Minas Gerais com o goleiro havia sido programada um mês antes do crime. Não notou ferimentos em Eliza

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