Sentimos na pele o que vivem policiais, dizem repórteres do UOL sobre curso

Fernanda Calgaro e Kleyton Amorim
Do UOL, em Brasília

  • Kleyton Amorim/UOL

    Força Nacional simula confronto com manifestantes em curso para jornalistas no DF

    Força Nacional simula confronto com manifestantes em curso para jornalistas no DF

Os jornalistas do UOL Fernanda Calgaro, repórter, e Kleyton Amorim, cinegrafista, participaram nos últimos dias 28 e 29 de março de um curso oferecido pelo Ministério da Justiça para habilitar profissionais da imprensa a cobrir manifestações.

Cerca de 50 repórteres, fotógrafos e cinegrafistas de todo o país participaram do curso-piloto de imersão, com aulas teóricas e simulações práticas, na base da Força, localizada no Gama, cidade no entorno de Brasília.

Leia abaixo os depoimentos:

Relato de Fernanda Calgaro

O dia ainda está longe de amanhecer e somos acordados com o estouro e o clarão de bombas e música alta. No relógio, são 4 e pouco da manhã. Do lado de fora das barracas coletivas, policiais batem nas lonas e gritam em megafones para sairmos. Meio dormindo, andamos pelo terreno de grama e terra até uma quadra de esportes.

Ali, somos orientados a vestir pesados capacetes e longas caneleiras e segurar um escudo de acrílico.

Em questão de minutos, um pelotão de Choque, formado por sonolentos repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, está enfileirado. Enquanto o exército mambembe aguarda por instruções, são lançadas na direção da tropa granadas de gás lacrimogêneo. A fumaça se espalha rapidamente e em segundos começam a arder narinas, boca e olhos, que lacrimejam sem parar. Aflito e desnorteado, o grupo se espalha.

Embora eu já tenha participado da cobertura de várias manifestações, nunca tinha sentido o gás tão forte. Com a cabeça zunindo e bastante atordoada, um policial se aproxima e me tranquiliza: "Lembre-se, o efeito é temporário e reversível". Eu me acalmo, fecho a boca e insisto em respirar pelo nariz, apesar de ar algum parecer entrar. As lágrimas ajudam a limpar os microcristais na minha pele. A sensação melhora.

Assim, aturdidos pelo gás, caminhamos até uma área onde manifestantes, incorporados por policiais, nos esperam com frutas e bexigas de água. Escudos lado a lado, formamos uma barreira única, com a missão de conter a turba enfurecida, que golpeia contra os escudos. Os cinco minutos de confronto pareceram muito mais longos. Ao final, jornalistas/policiais e policiais/manifestantes se cumprimentam com um sorriso no rosto.

O objetivo do exercício era nos fazer sentir na pele, para valer, o que os policiais do Choque passam em uma manifestação: o campo de visão limitado pelo capacete e o escudo, o impacto dos embates e o peso dos equipamentos de proteção, sem contar o autocontrole para aguentar o efeito do gás e não sair da posição, evitando abrir um buraco na barreira.

Sentimos o que os policiais passam em uma manifestação: o campo de visão limitado pelo capacete e o escudo, o impacto dos embates e o peso dos equipamentos de proteção Fernanda Calgaro, repórter do UOL

Vivendo experiências intensas assim, passamos dois dias enfurnados na base da Força Nacional de Segurança Nacional no Gama, cidade ao redor de Brasília. Em outras simulações, agora já no nosso papel de profissionais da imprensa, treinamos como agir durante a cobertura de protestos e onde nos posicionarmos quando o Choque chegar, além de identificar os tipos de armamento e as circunstâncias em que são usados.

Na próxima manifestação, seguramente estarei mais bem preparada, mas uma coisa é certa: de todas as lições aprendidas, uma delas, a de técnicas de primeiros socorros, incluindo massagem cardíaca, espero, sinceramente, não ter que precisar colocar em prática nunca.

Relato de Kleyton Amorim:

O momento mais surpreendente do curso foi a nossa recepção, uma simulação real de manifestação colocando praticamente tudo o que ocorre, inclusive até feridos.

Não cheguei a ter medo, mas percebi que tinha que ter cuidado em dobro quando vi o comandante se machucar. Ali percebi que era um treinamento real em que qualquer um poderia se machucar inclusive nós, jornalistas.

Para mim, a dica mais útil foi a parte como se comportar após ser lançado um gás lacrimogêneo, o que evitar fazer quando ocorrer uma situação dessas.

A parte dos jornalistas atuando como se fossem a Força Nacional foi uma experiência incrível: de ver, de sentir o que eles passam em um momento de manifestação de como a adrenalina vai a mil Kleyton Amorim, cinegrafista do UOL

Mas não gostei do pouco tempo dado ao treinamento pratico, acho que poderia ser maior, ficou muito curto.

Para melhorar, o curso poderia ser mais pontual com a programação, tudo atrasou, e acho que isso prejudicou o nosso tempo de treinamento prático.

Curso para jornalistas no DF simula manifestações e confronto com polícia

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