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"Enterramos o pai. O tirano fica para vocês", diz filha de Malhães

Corpo do coronel reformado do Exército Paulo Malhães foi enterrado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense - Bernardo Tabak/ UOL
Corpo do coronel reformado do Exército Paulo Malhães foi enterrado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense Imagem: Bernardo Tabak/ UOL

Bernardo Tabak*

Do UOL, no Rio de Janeiro

26/04/2014 16h35

Passava pouco das 15h deste sábado (26), quando o corpo do coronel reformado do Exército Paulo Malhães foi enterrado, no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Malhães confessou à Comissão Nacional da Verdade (CNV) ter torturado e matado durante a ditadura militar no Brasil. Ele foi encontrado morto, na quinta-feira (24), dentro de casa, também em Nova Iguaçu. "Nós acabamos de enterrar nosso pai, o marido da Cristina. O coronel, o tirano, fica para vocês", disse Karla Malhães, uma das filhas do coronel.

Após uma oração e sob aplausos da família e amigos, o caixão foi baixado na sepultura. Cerca de 20 pessoas estiveram presentes no enterro.

Malhães prestou depoimento em março à Comissão Nacional da Verdade em que relatava ter participado de prisões e torturas durante a ditadura militar. Disse também que foi o encarregado pelo Exército de desenterrar e sumir com o corpo do deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971. Ele também contou detalhes sobre o funcionamento da Casa da Morte de Petrópolis, na Região Serrana fluminense, um centro clandestino de tortura e homicídios mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE).

A guia de sepultamento de Malhães indica como causa de morte "edema pulmonar, isquemia do miocárdio, miocardiopatia hipertrófica, evolução do estado mórbido (doença)". Familiares de Malhães disseram que ele tinha problemas cardíacos. No entanto, não é possível se tirar uma conclusão sobre a causa da morte a partir dos dados constantes no guia de sepultamento.

A guia de sepultamento do coronel da reserva Paulo Malhães - Bernardo Tabak/ UOL - Bernardo Tabak/ UOL
A guia de sepultamento de Malhães, que é emitido para possibilitar o enterro do corpo
Imagem: Bernardo Tabak/ UOL

A Polícia Civil não descarta nenhuma possibilidade para a morte do coronel, desde homicídio por motivo de vingança a latrocínio (roubo seguido de morte). A possibilidade de a morte ter relação com o depoimento de Malhães na Comissão da Verdade também é investigada. Na ocasião, ele afirmou ter participado de torturas, assassinatos e desaparecimentos de militantes políticos, inclusive dos restos mortais do ex-deputado Rubens Paiva.

De acordo com o relato da viúva Cristina Batista Malhães, três homens invadiram o sítio de Malhães na noite de quinta-feira (24) à procura de armas. A versão foi confirmada pelo delegado Fábio Salvadorete, responsável pela investigação. O coronel era colecionador de armamentos, disse a mulher aos policiais da DH-Baixada que estiveram na propriedade.

"Não estamos descartando nenhuma hipótese. Pode ter sido um homicídio por motivo de vingança e até mesmo um latrocínio, uma vez que foram levados vários pertences da vítima", afirmou Salvadorete. Segundo o delegado, os criminosos levaram dois computadores, pelos menos três armas antigas colecionadas pelo militar, um aparelho de som, joias e cerca de R$ 700 em dinheiro.

Cristina disse que ela e o caseiro foram amarrados e trancados em um cômodo, das 13h às 22h desta quinta-feira (24), pelos invasores. Em nota, a Polícia Civil informou que agentes "buscam imagens de câmeras de segurança que possam auxiliar na identificação" dos suspeitos de assassinar o militar. (* Com Agência Estado)

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