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Investigação na Itália aponta que máfia comprava armas no Brasil

Policiais europeus durante mega-operação que prendeu 90 suspeitos de ligação com a máfia italiana "Ndrangheta - 05.dez.2018 - Christoph Reichwein/DPA/AFP
Policiais europeus durante mega-operação que prendeu 90 suspeitos de ligação com a máfia italiana 'Ndrangheta Imagem: 05.dez.2018 - Christoph Reichwein/DPA/AFP

Andrea Torrente

Colaboração para o UOL, em Curitiba

25/10/2020 04h01

Não é só cocaína. A máfia italiana comprou e importou armas fabricadas no Brasil. É o que revela a denúncia, obtida pela reportagem do UOL, que a procuradoria de Catanzaro, no sul da Itália, ofereceu contra a 'Ndrangheta, facção que atua na região da Calábria e tem conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras organizações criminosas na América Latina.

A denúncia, de 13,5 mil páginas, deu origem ao megajulgamento "Rinascita-Scott" que começou em setembro, em Roma, contra 452 pessoas acusadas de serem integrantes da máfia calabresa. É o segundo maior julgamento da história italiana, atrás apenas do processo contra a máfia siciliana Cosa Nostra, concluído no início de 1990.

Por meio de um spyware, um software espião instalado no celular de Gregorio Niglia, um dos acusados, a polícia reconstruiu a importação de armas e drogas do Brasil. Em 17 de outubro de 2016, os investigadores interceptaram uma conversa ocorrida durante um jantar entre o traficante internacional Bruno Fuduli, o chefão do clã, Giuseppe Antonio Accorinti, e seu braço direito, Antonio Vacatello, ambos denunciados.

No diálogo, os quatro arquitetaram um plano para transportar "alguns contêineres" contendo armas e cocaína que haviam chegado do Brasil a um porto italiano. Para isso, eles precisarim de duas carretas e de um local para esconder o carregamento. Os investigadores não identificaram o porto e não houve apreensão, mas o diálogo deixou claro que os contêineres continham número não especificado de armas.

Após o jantar, Fuduli, que se suicidou em novembro de 2019, viajou ao Brasil para negociar uma compra de droga que foi escondida em carregamento de minérios oriundo de uma pedreira em Goiás. A carga teria sido enviada para Itália em navio porta-contêineres.

As investigações, que duraram anos, reconstruíram a estrutura da organização e apontaram que a 'Ndrangheta contava com a conivência de políticos de todas as esferas, empresários e até policiais. As acusações incluem associação mafiosa, lavagem de dinheiro, ágio, extorsão, homicídio, ocultação de cadáver e sequestro.

Em 2018, uma investigação de quatro países europeus e da Polícia Federal revelou um elo entre a 'Ndrangheta e o Primeiro Comando da Capital (PCC) para o tráfico internacional de drogas. De 2016 a 2018, duas toneladas de cocaína, avaliadas em cerca de R$ 1 bilhão saíram dos portos de Santos (SP), Salvador, Itajaí (SC) e Rio de Janeiro em direção à Europa.