Após guerra inútil, a paz na Colômbia vai doer

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • Guillermo Legaria/AFP

    Manifestantes se concentram na praça Bolívar, em Bogotá, para celebrar o acordo de paz com as Farc

    Manifestantes se concentram na praça Bolívar, em Bogotá, para celebrar o acordo de paz com as Farc

(Para meus amigos colombianos, que não tiveram um só dia de paz em suas vidas.)

"Nesta guerra não houve vencedores nem vencidos", disse há alguns dias Timochenko, um dos líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). E a primeira coisa que pensei foi: que desperdício de vidas e de tempo.

São 52 anos de guerra e 220 mil mortos (segundo o Centro Nacional de Memória Histórica), e só agora perceberam que não serviu para nada?

Poderiam ter parado a guerra no primeiro ano, aos 10, ou mesmo quando já estavam lutando havia 40 anos. Mas continuaram brigando, com a esperança, suponho, de que em algum momento destruiriam seu inimigo. Isso nunca aconteceu.

Em várias de minhas viagens à Colômbia nas últimas três décadas, lembro-me de que voltei com a mesma conclusão: os guerrilheiros nunca poderão ganhar do Exército, e os soldados também não poderão vencer as guerrilhas. Inclusive na época de Álvaro Uribe --quando, a um custo altíssimo, se reduziu o número de guerrilheiros--, os colombianos nunca estiveram perto do fim da guerra.

Por isso, agora que a possibilidade de paz se aproxima, espero que não a desperdicem. Os colombianos decidirão em um referendo no próximo 2 de outubro se ratificam os acordos de paz entre a guerrilha das Farc e o governo do presidente Juan Manuel Santos. É uma oportunidade histórica, e uma das melhores notícias que tivemos ultimamente na América Latina.

"Depois da paz começa o mais difícil: a construção dessa paz", disse o presidente Santos há pouco diante da ONU. Ele tem razão.

O mais fácil seria continuar lutando. As inércias e os ressentimentos estão bem azeitados. As duas partes mandaram seus meninos e jovens lutarem, e essa é a fórmula perfeita para transmitir o ódio de geração em geração. Quem não quer vingar a morte de um filho ou uma filha, de um pai, uma mãe ou um irmão?

É impossível pôr-se no lugar de um pai que perdeu seu filho ou das crianças que cresceram sozinhas devido ao sequestro de sua mãe. Tenho certeza de que a dor é insuportável, paralisante, e que nunca desaparece totalmente. Mas só desejaria que casos como esses não voltassem a se repetir. É tudo. A paz lhes dá essa oportunidade. A guerra não.

"Há uma maneira de libertar os seres humanos da fatalidade da guerra?", o cientista Albert Einstein perguntou em uma carta ao doutor Sigmund Freud, em 1932. "Como é possível que as massas se deixem arrebatar até chegar ao delírio e à autodestruição?"

A primeira resposta de Freud a Einstein, também em uma carta, foi desanimadora. "Em princípio, os conflitos de interesses entre os seres humanos são solucionados mediante o recurso à violência", escreveu Freud. "Assim acontece em todo o reino animal, do qual o homem não haveria de se excluir." Mas depois ele nos dá a solução para as guerras. "A violência é vencida pela união: o poder dos unidos representa agora o direito, que se opõe à violência do indivíduo isolado", conclui Freud.

É exatamente isso o que está acontecendo na Colômbia. É o poder dos unidos; é a união dos inimigos que decidem deixar de sê-lo. E esse acordo negociado em Cuba durante quatro anos entre os antigos opositores dá lugar a novas regras.

A paz vai doer. Sim, sei que será repugnante que um assassino caminhe impune pelas ruas de Santa Marta ou que um ex-sequestrador viva a poucas quadras de uma de suas vítimas em Bogotá. Os crimes contra a humanidade não prescrevem e devem sempre ser processados. Mas haverá outras violações dos direitos humanos, igualmente trágicas para as vítimas ou seus familiares, que não serão processadas sob os acordos de paz ou que se perderão no esquecimento.

Afinal, só uma comissão da verdade, criada em um momento mais propício, poderá pôr ponto final a mais de cinco décadas de abusos. Se a verdade é a primeira coisa que se perde em uma guerra, só a paz poderá devolver à Colômbia o estado de ânimo necessário para olhar para trás com calma e justiça.

Continuam ressoando em mim as palavras de Timochenko. Nesta guerra entre irmãos e vizinhos ninguém ganhou e ninguém perdeu. Quantas vidas perdidas em vão. Que guerra tão inútil e absurda.

Governo e as Farc firmam paz após 52 anos de conflito

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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