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O escândalo da Volkswagen atinge a União Europeia

Martin Winterkorn, ex-presidente-executivo da Volkswagen, renunciou nesta quarta - Julian Stratenschulte/EFE
Martin Winterkorn, ex-presidente-executivo da Volkswagen, renunciou nesta quarta Imagem: Julian Stratenschulte/EFE

23/09/2015 15h28

A queda registrada nas ações da Volkswagen e de outros grupos automobilísticos europeus, mostra que os prejuízos causados pela fraude dos controles anti-poluição praticada pela VW vão muito além dos danos sofridos pela fábrica do mítico Fusquinha, cujo patrão, o poderoso Martin Winterkorn, pediu nesta quarta-feira (23) demissão.

Além do tombo das ações da VW, que se desvalorizam 30 bilhões de euros na bolsa de Frankfurt, as açoes da Peugeot, Renault, Daimler, Fiat-Chrysler, BMW, e do índice europeu específico do setor automobilístico, caíram bastante no começo de semana, desenhando o choque que atinge toda a indústria europeia de carros com motor diesel.

Paralelamente, o escândalo enfraquece a posição da União Europeia (UE) nos acordos do Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) com os Estados Unidos e nas discussões sobre a próxima Conferência da ONU sobre o Clima (COP-21).

Iniciados em 2011, depois muitas negociações, os trabalhos do TTIP, prevendo a criação do “grande mercado transatlântico”, devem ser concluídos no final deste ano. Um dos pontos centrais do TTIP, é a unificação das normas de controle de consumo e segurança da fabricação de carros, de alimentos e de produtos farmacêuticos.

De maneira geral, a UE (e a imprensa europeia) sempre faz alarde das virtudes das normas europeias nesses setores, alegadamente melhores e mais severas que as normas consumistas dos Estados Unidos. Com a trapaça deliberada e maciça da VW, os negociadores da UE do TTIP vão ter que baixar a bola ao discutirem com seus homólogos americanos sobre esses assuntos todos.

Nas complexas negociações preparatórias da COP-21, que terá lugar em dezembro em Paris, o prestígio da EU também ficou abalado pelo tsunami gerado pela VW.

A Europa pretende dar lições ao resto do mundo, sublinhando a excelência de suas iniciativas para diminuir o emissão de gases de efeito estufa e o aquecimento global.

Junto com o presidente Hollande, Angela Merkel tem pressionado os outros países para que um acordo “ambicioso, global e coercitivo” seja assinado no final do ano na COP-21. Este foi, aliás, um dos objetivos da visita oficial da chefe do governo alemão a Brasília, no mês de agosto. 

Neste final de semana, a Conferência Anual da ONU contará com a presença do papa Francisco, de Vladimir Putin, entre outros líderes, além de Merkel. O evento marcante será o alceamento, pela primeira vez na história da ONU, da bandeira do Vaticano, pouco antes da chegada do Papa.

Mas haverá também, nas fileiras de diplomatas e de jornalistas presentes na ONU, algumas risadas irônicas quando Angela Merkel tomar a palavra para defender medidas globais contra o aquecimento planetário.

De fato, há gente na Europa e alhures, meio cheia de tomar pito do governo alemão, que não desgostou da enrascada que a VW criou para a Alemanha. Na língua alemã há uma palavra que designa precisamente esta forma de ressentimento: “Schadenfreude”, literalmente “alegria maligna”, ou seja, na linguagem corrente, “rir da desgraça alheia”.