O pós-brexit e o duplo choque na Europa

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Getty Images/iStockphoto

A reunião em Bratislava dos membros da União Europeia (UE) na última sexta-feira (16),  expos o duplo choque provocado pelo Brexit.

Na capital da Eslováquia, as discussões entre os 27 países tinham como pano de fundo questões mais amplas que a saída do Reino Unido. Havia uma clara discordância sobre os temas a serem tratados. De um lado, as análises do grupo dito dos "países mediterrâneos" (Grécia, França, Itália, Portugal, Espanha, Chipre e Malta) que se encontraram em Atenas no começo deste mês.

Com o apoio mais explícito dos governos da Itália e da Grécia, este grupo enfatizou os problemas econômicos, reivindicando um abrandamento das regras de rigor orçamentário europeias, defendidas sobretudo pela Alemanha.

De outro lado, havia os países do "grupo de Visegrad" (cidade histórica húngara), formado pela Polônia, a República Tcheca, a Eslováquia e a Hungria, muito mais preocupado com a segurança e a defesa das fronteiras europeias.

No final da reunião de Bratislava ficou claro que teses do grupo de Visegrad predominaram. Os 27 chefes de Estado e de governo decidiram reforçar a colaboração entre os serviços de segurança e as fronteiras externas dos países membros. Em particular um crédito de emergência foi concedido à Bulgária, que tem uma vulnerável fronteira de 240 km com a Turquia, uma das principais rotas da imigração clandestina para a UE.

Matteo Renzi, chefe do governo italiano, meio deixado de lado por Angela Merkel e François Hollande, protestou contra as decisões de Bratislava, vocalizando o desconforto do grupo dos países mediterrânicos ao lamentar que o tema do crescimento econômico não tenha sido tomado em conta. Na verdade, Renzi enfrenta uma situação difícil, com o endividamento crescente dos bancos italianos e a complicada campanha para o referendo constitucional que terá lugar no final deste ano.

Ao mesmo tempo em que se constatavam as divergências em Bratislava, os partidários do Brexit se dividiam em Londres. Assim, surgiu nos últimos dias um grupo influente no partido conservador que propõe uma ruptura radical com a UE, contrariando a maioria do partido e a primeira-ministra Theresa May, favoráveis a uma negociação equilibrada com os representantes dos 27 países em Bruxelas.

Intitulados "hard Brexit" pela imprensa britânica, os conservadores dissidentes, ligados ao pensamento de Margaret Thatcher, defendem que o Reino Unido saia completamente das redes da UE, abandonando até o projeto de manter uma simples união alfandegária com os 27 países europeus. Respondendo aos partidários do "hard Brexit", Jens Weidmann, presidente do Banco Central da Alemanha, advertiu que se o Reino Unido romper totalmente as amarras, saindo do Espaço Econômico Europeu (que inclui país fora da UE como a Suíça e a Noruega), o estatuto de Londres como praça financeira internacional será posto em xeque.

Em outras palavras, nem os 27 países remanescentes da UE, nem tampouco o Reino Unido, sabem direito o que fazer três meses depois do referendo do Brexit.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

UOL Cursos Online

Todos os cursos