O casamento do príncipe Harry cobrirá o prejuízo do Brexit?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

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    Príncipe Harry e Meghan Markle anunciam seu noivado nos jardins do palácio de Kensington

    Príncipe Harry e Meghan Markle anunciam seu noivado nos jardins do palácio de Kensington

A monarquia inglesa é um caso a parte na história contemporânea. Ao ser deposto em 1952, o penúltimo rei do Egito, Faruk I, vaticinou o fim progressivo das monarquias e a perenidade da Coroa britânica: "daqui alguns anos só haverá cinco reis, o rei de ouros, o rei espadas, o rei de copas, o rei de paus e a rainha da Inglaterra". 

As atividades da Casa de Windsor criam, em geral, um bom astral no Reino Unido. Tanto assim que as datas festivas da família real geram um impacto favorável na opinião pública e na economia inglesa. Séries estatísticas oficiais comprovam que o PIB inglês sempre cresce nos quadrimestres que coincidem com o nascimento de um príncipe real.

O mesmo quase sempre acontece nas épocas de casamentos régios. Por isso, espera-se uma conjuntura favorável na economia inglesa, na próxima primavera, quando ocorrerá casamento do príncipe Harry com a atriz americana Meghan Markle e o nascimento do terceiro filho do príncipe William e Kate Middleton.

Na verdade, a economia britânica precisará de todos os estímulos nupciais, batismais e sociais que a família régia e a totalidade dos súditos da rainha puderem oferecer nos próximos anos. Dados recentes da OCDE, mostram uma estagnação no Reino Unido, em contraste com o crescimento da zona euro.

Um relatório deste mês da organização internacional sediada em Paris prevê um relativo declínio do PIB britânico, o qual passará de 1,8% em 2016, para 1,5% neste ano, 1,2% em 2018 e 1,1% em 2019. Segundo a OCDE, a queda da economia deve-se "à contínua incerteza" das negociações do Brexit como também ao impacto inflacionário sobre o poder de compra das famílias britânicas.

Dependendo do acordo final com a União Europeia, tais previsões poderão melhorar ou, piorar mais ainda. Para a zona euro, a OCDE indica um crescimento de 1,8% em 2016, 2,4% em 2017, 2,1% em 2018 e 1,9% em 2019, confirmando a tendência registrada no conjunto dos países do G20.  

Neste contexto, o jornal econômico londrino City A.M. tentou medir as consequências econômicas do casamento de Harry e Meghan Markle, como também do nascimento do filho de William e Kate Middleton no ano que vem. Segundo o jornal, o nascimento do príncipe George, segundo filho de William e Kate, em julho de 2013, aumentou as vendas de varejo em apenas 243 milhões de libras, o que contou pouco no PIB de 1,8 trilhões de libras do Reino Unido naquele ano.

É improvável que o impacto econômico do nascimento do irmão ou da irmã do príncipe George se afaste deste padrão. No que concerne o casamento, as expectativas são mais variadas e incluem um afluxo de turistas americanos para assistir à união de sua compatriota com o príncipe inglês, mas também para fazer compras em Londres, aproveitando atual desvalorização da libra com relação ao dólar.

Tirando a variável do turismo, a comparação entre o casamento de Harry com o de seu irmão William, ocorrido em junho de 2011, não leva a conclusões muito otimistas. Segundo o City A.M., no quadrimestre em que o príncipe William e Kate juntaram os trapos, a taxa de crescimento do Reino Unido caiu de 0,5% para 0,2%. O motivo do prejuízo foi a combinação do feriado bancário decretado em homenagem ao casamento real com a queda das bolsas causada pelo tsunami de março de 2011 no Japão.

Não se sabe se haverá tsunami no Japão ou em qualquer outra parte do mundo na primavera de 2018. Porém, com a crise do Brexit, já é certo que não haverá feriado bancário em homenagem ao casamento de Harry e Meghan.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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