Quanto tempo irá durar o ocaso da diplomacia americana?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • SAUL LOEB/AFP

A declaração do presidente Trump considerando Jerusalém como a capital de Israel e sua determinação de transferir a embaixada americana para a cidade santa dos cristãos, dos judeus e dos muçulmanos, desestabiliza ainda mais o Oriente Médio. Mas aparece também como uma etapa suplementar do programa isolacionista que o levou à Casa Branca.

Trump está cumprindo o que prometeu a seus eleitores: "America first!". Como observou o "New York Times", Trump considera a questão de Jerusalém na perspectiva da política interna e não com um problema diplomático global. Por isso, escolheu seguir seus eleitores evangélicos e pró-israelenses favoráveis à elevação de Jerusalém à posição de capital de Israel, desconsiderando o equilíbrio no Oriente Médio, seus aliados dos países árabes ou ONU. O editorial desta quinta-feira (7) do "Le Monde" aponta as consequências mais amplas da mudança da política americana sobre Jerusalém. "Está claro que os Estados Unidos de Donald Trump...estão desmantelando um sistema de relações internacionais que eles próprios construíram depois da segunda guerra mundial."

De fato, a lista de rupturas e recuos internacionais operados por Trump desde sua posse continua se alongando. Logo no primeiro dia seu mandato, Trump comunicou que seu país sairia do Tratado de Parceria Transpacífica (TPP), integrando 12 países do Pacífico, assinado pelo presidente Obama em 2015. Na sequência, Trump abriu hostilidades contra o NAFTA, tratado de comércio unindo o México, os Estados Unidos e Canadá, vigorando desde 1994 sob a tutela e o estímulo dos cinco presidentes republicanos e democratas que precederam Trump na Casa Branca. Neste ano, houve a saída dos Estados do Acordo de Paris sobre o clima, a retirada do Acordo sobre a política nuclear do Irã, da Unesco e do Pacto Mundial sobre a gestão dos migrantes e refugiados adotado pela ONU. Sem falar da política de sabotagem dos representantes americanos na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Além de ofender aliados e aumentar a tensão internacional com sua tuitagem matinal, Trump desenvolve paralelamente, com a ajuda de Rex Tillerson na direção do Departamento de Estado, uma política de desmonte ("unraveling", segundo o "New York Times") da diplomacia americana. Contando com 14 mil integrantes, o Departamento de Estado, como outros serviços diplomáticos similares, é considerado e, mais ainda, se considera, como a elite da administração pública. Ora, vindo da direção da Exxon Mobil, onde trabalhou durante 41 anos, Rex Tillerson -, tal qual Donald Trump -, só conhece negociações de soma zero, onde só um vencedor come a torta inteira que está sendo disputada. Este tipo de raciocínio torna a diplomacia secundária e até dispensável.

Consequentemente, muitos cargos importantes do Departamento de Estado ainda estão vacantes ou ocupados por funcionários subalternos. Até meados de outubro, data da reportagem do "New York Times" referida acima, ainda não tinha havido nomeações de diplomatas seniores na direção de áreas importantes da diplomacia americana, como a Ásia, o Oriente Médio e a América do Sul. No seu editorial, o "Le Monde" escreve: "O anúncio de Donald Trump sobre Jerusalém é, simplesmente, uma violação da diplomacia como de resolução dos conflitos."

Resta saber, quanto tempo irá durar a não diplomacia americana.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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