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Minhas notas para o desempenho dos envolvidos no acordo nuclear com o Irã

Em pronunciamento em Washington, Obama defende o acordo nuclear com o Irã - Alex Wong/Getty Images/AFP
Em pronunciamento em Washington, Obama defende o acordo nuclear com o Irã Imagem: Alex Wong/Getty Images/AFP

Thomas Friedman

17/09/2015 00h01

O acordo nuclear do Irã agora está selado --por parte de Washington, nos Estados Unidos. Mas como esta foi uma das mais importantes mudanças de política externa dos EUA nas últimas quatro décadas, vale a pena olhar para trás e conferir o desempenho de seus principais atores.

Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã: nota A.

Sua previsão na semana passada que Israel não estará por aí em “25 anos” foi perfeitamente programada para complicar os esforços do presidente norte-americano, Barack Obama, na aprovação do acordo pelo Congresso. Khamenei é um cara mau. Quando pedi a um amigo especialista em Oriente Médio para explicar o comportamento de Khamenei, ele invocou uma maldição em ídiche contra o iraniano: “Que todos os seus dentes caiam, exceto aqueles que doem”.

Contudo, Khamenei também é um sujeito inteligente. Com este acordo, Khamenei acaba com as sanções paralisantes, o que seu povo deseja, aumentando o período necessário para que o país fabrique uma bomba nuclear de dois meses para um ano, por 15 anos. Por outro lado, faz com que o mundo abençoe o programa “pacífico” de enriquecimento nuclear, mesmo que tenha sido mentiroso. E ele conseguiu tudo isso transmitindo à sua base linha dura a sensação de que ele ainda é, na verdade, contra este acordo, e aos negociadores, a sensação de que é a favor. Assim, todas as suas opções estão em aberto, dependendo de como o acordo funcionará.

Ali, você é bom, meus cumprimentos. Quando eu for vender minha casa, posso lhe dar uma ligada?

Mas aqui vai uma observação para seus pais: “Ali tirou nota A, mas ele tem uma tendência a ser arrogante. Ele está confiante de que pode fechar esse acordo sem que haja qualquer transformação na política interna do Irã. Eu sugiro que vocês comprem para ele uma boa biografia de Mikhail Gorbachev.”

Dick Cheney: nota F.

Cito Cheney porque sua oposição ao acordo, que ele está vendendo junto com um novo livro, foi totalmente desonesta e de uma forma que resumiu grande parte da oposição republicana automática: este é um mau negócio porque Obama foi fraco.

Não, este acordo é o que é porque ele reflete o equilíbrio de poder, e o fator-chave para este equilíbrio é que os iranianos passaram a acreditar que os EUA nunca iriam usar de força para eliminar seu programa nuclear. Mas isso não ocorreu apenas por culpa de Obama. Os republicanos, Cheney pessoalmente, desempenharam um grande papel na perda de credibilidade dos EUA de ameaçar o Irã com o uso da força.

Após uma audiência no Congresso no dia 10 de setembro de 2007, o general David Petraeus disse à Fox News que o Irã estava financiando e orientando os insurgentes iraquianos xiitas que levaram a cabo atos de violência contra as nossas forças, as forças iraquianas e civis inocentes. O Irã foi acusado de fabricar bombas especiais para as estradas, responsáveis pela morte de centenas de soldados norte-americanos. No entanto, apesar de nossos comandantes dizerem isso publicamente, seus chefes, George W. Bush e Dick Cheney, recusaram-se a pedir uma retaliação contra alvos iranianos.

O Irã percebeu.

O mesmo ocorreu com as armas nucleares. Como escreveu Peter Beinart no “The Atlantic”, na semana passada, Cheney fez uma visita ao programa Fox News Sunday para criticar o acordo nuclear de Obama, “mas o moderador Chris Wallace, para seu crédito, preferiu perguntar a Cheney sobre suas próprias falhas no Irã. Wallace observou que, durante o governo Bush, as centrífugas do Irã para o enriquecimento de urânio 'passaram de zero para 5.000'. Cheney protestou, declarando que 'isso aconteceu no governo Obama, e não no nosso'. Mas Wallace manteve-se firme. 'Não, não, não', insistiu. 'Em 2009, já eram 5.000'. Cheney fez uma pausa por um instante, resmungou 'certo' e voltou aos seus pontos".

Nota para os pais: “Dick tem problemas para dizer a verdade, e ele não está sozinho. Algumas críticas republicanas deste acordo devem ser estudadas, mas nunca serão levadas a sério se o partido não falar francamente sobre o seu próprio papel na perda de nosso poder de dissuasão em relação ao Irã.”

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel: nota C.

Ninguém teve mais impacto do que Netanyahu em fazer o mundo impor sanções e levar a ameaça nuclear do Irã a sério. Mas sua briga imprudente com Obama, que ultrapassou os questionamentos sobre o tema e partiu para o endosso aberto dos rivais republicanos de Obama e um conluio com os líderes republicanos da Câmara para se dirigir ao Congresso, sem o apoio do presidente, prejudicou a ele, a Israel e ao acordo.

Se Bibi tivesse abraçado Obama, poderia efetivamente ter tornado Israel a sexta parte nas negociações com o Irã e fortalecido suas posições. Em vez disso, Netanyahu marginalizou Israel. E ao convocar eleições no meio de tudo isso e formar um gabinete de extrema-direita com colonos judeus extremistas, Netanyahu está fazendo o jogo do Irã: o Irã quer uma solução de um Estado na qual Israel nunca deixe a Cisjordânia e esteja em permanente conflito com palestinos e muçulmanos, para que o Irã possa melhor deslegitimar e isolar Israel.

Observação aos pais de Netanyahu: “Bibi não será punido por qualquer de seus erros; a política interna dos EUA garante esse fato. Mas, cuidado: isso só vai aumentar as chances de ele levar Israel para uma ocupação permanente e corrosiva da Cisjordânia, tornando o apoio a Israel uma causa cada vez mais republicana e perdendo a próxima geração de judeus norte-americanos.”

Presidente Barack Obama: nota I (incompleta).

Nota para os pais de Obama: “Este acordo faz sentido, ele pode manter o Irã longe de uma bomba. Mas Barack deve ir para a cama todas as noites durante os próximos 15 anos preocupando-se se o Irã está cumprindo sua parte. Esta é a melhor maneira de garantir que o presidente, seu partido e seus sucessores vão permanecer vigilantes e vão colocar em prática uma dissuasão eficaz para o Irã nunca construir uma bomba. Espero que ele tire um A, mas só a história poderá dar essa nota a ele.”

Tradução: Deborah Weinberg

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