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Síria, Obama e Putin

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (à dir.), e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (à esq.), se cumprimentam antes de reunião na 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da organização, em Nova York (EUA) - Mandel Ngan/ AFP
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (à dir.), e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (à esq.), se cumprimentam antes de reunião na 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da organização, em Nova York (EUA) Imagem: Mandel Ngan/ AFP

Thomas L. Friedman

01/10/2015 00h01

Meritíssimo, ergo-me novamente em defesa da política do presidente Barack Obama na Síria.

Obama tem estado certo em sua ambivalência em relação a um envolvimento profundo na Síria. Mas ele nunca teve a coragem de sua própria ambivalência para explicar seu raciocínio para o povo americano. Ele continua se deixando pressionar a fazer e a dizer coisas que, no fundo, sabe que não vão funcionar, então ele fica no pior de todos os mundos: sua retórica ultrapassa a política, e a política não funciona.

Enquanto isso, os críticos republicanos de Obama carecem totalmente da sabedoria de nossa própria experiência. Eles defendem alegremente a política do “preparar, apontar, fogo!” na Síria, sem qualquer razão para acreditar que sua abordagem irá funcionar melhor do que no Iraque ou na Líbia. As pessoas que não sabem como resolver os problemas do centro da cidade de Baltimore acham que sabem como salvar Aleppo, e a partir do ar!

Pessoalmente, prefiro o líder que não conta com a coragem de sua própria ambivalência aos críticos que não têm a sabedoria de sua própria experiência. Mas a ambivalência não pode ser confundida com uma licença para não fazer nada. Podemos realizar algumas coisas que fazem a diferença, mas só se olharmos para os nossos inimigos e aliados na Síria sem traves nos olhos.

Por exemplo, o clichê reinante de hoje é que a raposa astuta, o presidente Vladimir Putin, da Rússia, mais uma vez superou os pés chatos americanos, enviando algumas tropas, aviões e tanques para a Síria para apoiar o regime do presidente Bashar al-Assad e para lutar contra as forças do Estado Islâmico que o ameaçam. Ah, se tivéssemos um presidente tão ousado, tão durão, tão inteligente!

É mesmo? Bem, pense nisso: vamos dizer que os EUA não fizessem nada agora e apenas deixassem Putin começar a bombardear o EI e ajudar Assad. Quanto tempo ia demorar para cada muçulmano sunita no Oriente Médio, sem mencionar cada jihadista, ter uma foto de Putin em uma mira em seu celular?

Os muçulmanos sunitas são a grande maioria na Síria. Eles são a seita dominante no mundo árabe. Putin e a Rússia seriam vistos como protetores de Assad, um pró-iraniano, xiita alawita genocida e criminoso de guerra. Putin alienaria todo o mundo muçulmano sunita, incluindo os muçulmanos russos.

Além disso, digamos que, por algum milagre, os russos derrotassem o EI. A única maneira de sustentar essa vitória seria substituindo-os por sunitas moderados. Quais sunitas moderados vão se alinhar com a Rússia enquanto Putin é visto como o principal defensor de Bashar al-Assad, o maior assassino de sunitas do planeta?

Putin foi para a Síria estupidamente em busca de uma demagogia barata para mostrar a seu povo que a Rússia ainda é uma potência mundial. Bem, agora ele está em cima de uma árvore. Obama e John Kerry deveriam deixá-lo lá por um mês --ele e Assad, combatendo o EI sozinhos-- e vê-lo tornar-se o inimigo público número 1 do mundo muçulmano sunita. “E aí, Vladimir, está funcionando para você?”

A única forma de Putin descer daquela árvore é com a nossa ajuda para forjar uma solução política na Síria. E isso só acontecerá se os russos e os iranianos forçarem Assad, depois de uma transição, a renunciar e deixar o país. Em troca, a oposição concordaria em proteger a segurança básica e os interesses da comunidade alawita de Assad, e ambos os lados teriam que admitir uma força internacional em terra para garantir o acordo.

Para chegar lá, entretanto, também precisamos combinar nossa retórica com os nossos interesses na Síria. Os nossos interesses agora são eliminar ou conter as duas maiores ameaças que estão gerando metástases: o EI, cujo crescimento pode ameaçar as ilhas de decência na região, como o Líbano, os curdos e a Jordânia, e a tragédia dos refugiados sírios, cujos números estão crescendo tanto que estão inundando o Líbano e a Jordânia e, se continuarem assim, poderão desestabilizar a União Europeia, nosso vital parceiro no mundo.

Se quisermos algo melhor --uma democracia para todas as seitas na Síria--, teríamos que entrar e construí-la nós mesmos. É insana a noção de que basta dar armas aos moderados da Síria.

No final de semana, o “New York Times” informou que “cerca de 30 mil combatentes estrangeiros viajaram de mais de cem países para o Iraque e para a Síria, desde 2011”. Então, 30 mil pessoas foram para a Síria para se unir ao EI e promover a jihad e um califado. Quantos árabes e muçulmanos entraram na Síria para promover a democracia? Aparentemente, zero.

Por que nós temos que procurar moderados como se estivéssemos procurando água no subsolo, e depois treiná-los, enquanto ninguém tem que treinar os jihadistas que se reúnem no local? Porque os jihadistas são movidos por ideais, mesmo que distorcidos. Não há massa crítica de moderados sírios tomados por ideais; eles vão lutar por suas próprias casas e famílias, mas não por um ideal abstrato como a democracia. Tentamos compensar isso com “treinamento” militar, mas isso nunca funciona.

Existem verdadeiros democratas na oposição síria? Certamente, mas não o suficiente, e sem a organização, motivação e crueldade de seus adversários.

Todo mundo quer uma intervenção imaculada na Síria, para parecer que estamos fazendo alguma coisa, mas sem o custo político de colocar tropas em terra ou de ter de fazer acordos desagradáveis com pessoas desagradáveis. Essa opção não existe.

Acho que a corrida apressada de Putin para a Síria pode, no final, deixá-lo com uma necessidade urgente de um acordo ou, pelo menos, de um cessar-fogo duradouro, que cesse os fluxos de refugiados. Por enquanto, se pudermos fazer isso, já será muito.

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