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Opinião: Fala de Trump parece a de um agente secreto do Estado Islâmico

Sean Rayford/Getty Images/AFP
Imagem: Sean Rayford/Getty Images/AFP

10/12/2015 00h01

Há duas semanas, eu estava no Kuait participando de um seminário do FMI (Fundo Monetário Internacional) para educadores árabes. Por 30 minutos, discutimos o impacto das tendências de tecnologia na educação no Oriente Médio. E então uma autoridade de educação egípcia levantou sua mão e perguntou se poderia me fazer uma pergunta pessoal: "Eu ouvi que Donald Trump disse que precisamos fechar as mesquitas nos Estados Unidos", ele disse com grande pesar. "É isso o que queremos que nossos filhos aprendam?"

Eu tentei lhe assegurar que Trump não seria nosso próximo presidente –que o compromisso dos Estados Unidos com o pluralismo é profundo. Mas o encontro foi um importante lembrete de que algo que começa em Iowa aparece no Kuait cinco minutos depois.

Trump, ao alienar o mundo muçulmano com seu pedido para a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, está agindo como um agente secreto do Estado Islâmico. O EI quer que todo muçulmano nos Estados Unidos (e na Europa) se sinta alienado. Se isso acontecer, o EI não precisará mais recrutar ninguém. As pessoas simplesmente agirão por conta própria.

O EI e o extremismo islâmico são problemas muçulmanos que só podem ser consertados pelos muçulmanos. Classificar todos os muçulmanos como sendo inimigos só tornará esse desafio mais difícil.

Mas se Trump está errado, o presidente Barack Obama está certo? Em parte. Ele está certo ao dizer que a única forma de conseguir uma derrota sustentável do EI é com uma coalizão. Nós precisamos de forças muçulmanas sunitas capazes de ir de casa em casa contra o EI no Iraque. Nós precisamos de líderes espirituais sunitas que deslegitimem a mensagem do EI de coração em coração em toda parte. E precisamos que o Irã deixe claro que apoia um acordo equitativo de divisão de poder no Iraque entre sunitas e xiitas, para que os árabes sunitas moderados combatam o EI em vez de vê-lo como seu escudo contra o Irã.

O que Obama também entendeu certo é o velho ditado: "Se você está em uma partida de pôquer e não sabe quem é o otário, ele provavelmente é você". Esse é o jogo em que estamos no Iraque e na Síria. Todos os nossos aliados na coalizão para eliminar o EI querem o que queremos, mas como segunda opção.

Os curdos não vão morrer para libertar Mosul do EI para entregá-la ao governo liderado pelos xiitas em Bagdá; eles vão querer mantê-la. Os turcos querem primeiro bloquear os curdos. Os iranianos querem o EI esmagado, mas temem que se sunitas moderados tomarem seu território, ele poderão algum dia ameaçar os aliados do Irã no Iraque e na Síria. O governo saudita quer que o EI desapareça, mas sua prioridade agora é esmagar os rebeldes apoiados pelo Irã no Iêmen. E com 1.000 jovens sauditas se juntando ao EI como combatentes –e com a Arábia Saudita liderando mundialmente em tweets pró-EI, segundo um recente estudo da Brookings Institution– o governo saudita está cauteloso em liderar a luta anti-EI. Os russos fingem combater o EI, mas estão realmente na Síria para proteger Bashar al-Assad e derrotar seus adversários moderados.

Não é exatamente a aliança do Dia D. É um maço cheio de coringas, sendo que para nenhum deles a prioridade é derrotar o EI e substituí-lo por uma democracia multissectária no Iraque e na Síria, o que é a nossa meta. Mesmo assim, eu temo: esse pessoal do EI é inteligente e perverso. Quanto mais tempo controlarem o território, maior é a probabilidade de adquirirem algo realmente assustador, como uma bomba suja.

Forças terrestres americanas suficientes poderiam esmagar facilmente o EI, mas na manhã seguinte –quando tentássemos instalar um governo local decente para substituir nossas tropas– enfrentaríamos todas essas motivações de todos nossos parceiros de coalizão. Assim, o que fazer?

Eu faria um pouco mais de tudo: aplicaria mais pressão sobre nossos aliados sauditas para se juntarem à luta anti-EI com tropas terrestres; pediria aos sauditas e outros sunitas para deslegitimarem em alto e bom tom o EI; empregaria mais Forças Especiais americanas e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental); deixaria claro ao Irã que poderíamos suspender o acordo nuclear caso o Irã não seja um parceiro mais construtivo no Iraque e na Síria; e acentuar que apesar de sabermos que jihadistas violentos são uma minoria entre os muçulmanos, a noção de que são um grupo totalmente separado e distinto não é verdadeira.

A ideologia do EI vem diretamente da escola salafista, mais puritana e antipluralista, do Islã, que promove muita hostilidade contra "o outro" –xiitas, judeus, hindus, cristãos. Claramente, algumas pessoas estão recebendo permissão e inspiração desse Islã puritano para assassinar e semear o caos. Eu não posso reformá-lo, mas um movimento de muçulmanos deve, porque está isolando toda sua comunidade.

Há alguns bons sinais. A "NPR" (rádio pública nacional) noticiou na segunda-feira que "quando um homem empunhando uma faca esfaqueou três pessoas em uma estação do metrô no Leste de Londres, na noite de sábado, e gritou 'Isto é pela Síria' enquanto estava sendo algemado, um transeunte gritou: 'Você não é muçulmano, irmão!' "Você não é muçulmano. Você não é muçulmano', ele repetiu". O homem que fez a declaração não foi identificado, mas o hashtag '#YouAintNoMuslimBruv' começou a correr o mundo", sem dúvida impulsionado pelos muçulmanos. Nós precisamos de mais disso.

Quanto a Trump, ele pode ser bom nos negócios, mas não é um jogador de pôquer pronto para uma partida de alto nível no Oriente Médio. Sua retórica xenofóbica e suas ameaças irrealistas, infantis, de bombardeio em massa só servem para partidas de "Pesca" –não para um jogo de altas apostas. Além de atender aos interesses do EI ao manchar a presidência americana e nossos ideais democráticos, Trump está causando sérios danos à capacidade americana de liderar uma coalizão, o único veículo que pode tratar esse problema de forma eficaz.

#Você não é americano, irmão.

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