Premiê do Estado "Israel-Palestina", Netanyahu contribui para afundar seu país

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Andrew Burton/Getty Images/AFP

Israel tem estado recentemente sob intensas críticas internacionais. Parte delas, como a campanha "boicote, desinvestimento, sanções" (BDS), é um movimento para destruir Israel disfarçado como crítica política. Mas grande parte delas também é motivada pelo desejo de Israel de destruir a si mesmo, graças a eliminação constante pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de qualquer possibilidade de Israel se separar dos palestinos na Cisjordânia. 

Netanyahu é um homem que fica eternamente nadando cachorrinho no meio do Rubicão, sem nunca atravessá-lo, mas sempre provocando ("Estou indo, vou tomar uma decisão"), apenas para permanecer onde está, se mantendo entre todos seus rivais, de modo que apenas ela sobreviva. Enquanto isso, Israel afunda de forma cada vez mais profunda em um Estado binacional de fato controlado por extremistas judeus. 

Logo, este jornal terá que chamar Netanyahu daquilo que de fato se transformou: "primeiro-ministro do Estado de Israel-Palestina". 

Estou levantando isso agora porque Israel sob Netanyahu tem ido de mal a pior. Ele acabou de forçar a saída do ministro da Defesa, Moshe Yaalon. Yaalon, um ex-chefe do Estado-Maior do Exército, é um homem decente, um soldado modelo, determinado a preservar o Exército israelense como um exército popular, buscando os mais altos padrões de integridade no meio de um bairro muito perigoso. 

Netanyahu planeja substituir Yaalon por Avigdor Lieberman, da extrema direita, que se gaba de não dar a mínima ao que pensam os judeus americanos sobre o comportamento de Israel e um homem que, como noticiou o jornal "Haaretz", recentemente foi desprezado pela equipe de Bibi como um "falastrão tacanho", incapaz de ser até mesmo um analista militar, e cujo contato mais próximo com uma batalha real foi se esquivar de uma "bola de tênis". 

Lieberman, quando não está sendo investigado por corrupção, pensa em explodir a Represa de Assuã do Egito, condena como traidores os israelenses que querem que Israel saia da Cisjordânia e elogia um soldado israelense, o sargento Elor Azaria, que matou com um tiro na cabeça um agressor palestino ferido enquanto este estava caído no chão, aguardando cuidados médicos. 

Ao descrever a troca por Netanyahu de Yaalon por Lieberman, o colunista Nahum Barneam do jornal "Yediot Aharonot", escreveu: "Em vez de apresentar ao mundo um governo mais moderado antes das batalhas diplomáticas que virão no outono, Netanyahu apresenta o governo mais radical que já existiu na história israelense". 

O próprio Yaalon alertou: "Forças extremistas e perigosas tomaram Israel e o movimento Likud, desestabilizando nosso lar e ameaçando causar mal a seus habitantes". O ex-ministro da Defesa trabalhista, Ehud Barak, disse: "O que aconteceu é uma tomada hostil do governo israelense por elementos perigosos". O ex-ministro da Defesa do Likud, Moshe Arens, escreveu no "Haaretz" que Bibi e seus comparsas da extrema direita "insultaram não apenas Yaalon, mas também as IDF (o Exército israelense). Elas são um exército popular". 

Todo esse episódio teve início em 24 de março, quando Azaria, um médico, foi gravado em vídeo atirando no palestino ferido. Este era um dos dois palestinos armados com facas que esfaquearam um soldado israelense, o ferindo levemente. Azaria simplesmente decidiu por conta própria matá-lo. 

Yaalon e o chefe do Estado-Maior do Exército, o general de exército Gadi Eisenkot, reagiram prontamente, dizendo que essa não é a forma como o Exército israelense se comporta. Azaria foi indiciado por homicídio e conduta militar imprópria. Inicialmente, Netanyahu também disse que o assassinato violava os valores do Exército, mas quando sua base eleitoral de colonos saiu em defesa do assassinato, Netanyahu mudou de posição, pedindo à Justiça que visse de forma equilibrada o que aconteceu. Lieberman compareceu ao tribunal para demonstrar apoio a Azaria. 

Tudo isso incomodou profundamente Yaalon e a liderança do Exército, e estourou no Dia da Lembrança do Holocausto em Israel, quando o vice-chefe do Estado-Maior do Exército, o general de divisão Yair Golan, falando à nação, disse: "É assustador ver os desdobramentos horríveis que ocorreram na Europa começarem a se desdobrar aqui". Sim, você leu isso corretamente. 

Netanyahu repreendeu Golan, mas Yaalon, em um discurso aos altos generais do Exército, disse: "Continuem agindo de acordo com sua consciência humana e bússola moral, não de acordo com a direção em que os ventos estão soprando". Assim, Netanyahu, que só age de acordo com a direção em que os ventos estão soprando, demitiu Yaalon.

Desse modo, disse o filósofo religioso da Universidade Hebraica, Moshe Halbertal, estamos testemunhando "o partido do governo de Israel sendo transformado de um partido nacionalista linha-dura, que costumava ter uma base humanitária e democrática, em um partido ultranacionalista, que agora é definido por se voltar contra os 'inimigos' internos, os tribunais, as ONGs, o sistema educacional, a minoria árabe e, agora, o Exército, qualquer um que esteja no caminho de seu projeto de ocupação permanente da Cisjordânia. Tendo fracassado em apresentar uma solução para os inimigos externos, agora o Likud se concentra nos inimigos internos. Esta é uma grande transformação em Israel e deve ser vista com grande preocupação".

A liderança do Exército, acrescentou Halbertal, "está tentando transcender esta guerra de todos contra todos e impor a ordem moral no caos, em vez de inflamá-la para ganhos políticos míopes". 

Netanyahu faz exatamente o oposto. Para aqueles de nós que se importam com o futuro de Israel, esta é uma hora sombria.

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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