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Balaio do Kotscho

Sobrevivemos! Que este Natal seja o último de um tempo de fome, dor e morte

Rita Maria Vitor de Souza, 59, recebe a doação de alimentos do projeto Ação da Cidadania durante o Natal Sem Fome, no Rio de Janeiro - DANIEL RAMALHO/AFP
Rita Maria Vitor de Souza, 59, recebe a doação de alimentos do projeto Ação da Cidadania durante o Natal Sem Fome, no Rio de Janeiro Imagem: DANIEL RAMALHO/AFP
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/12/2021 16h34

618.223 brasileiros já não estão mais entre nós para comemorar o Natal, não podemos esquecer.

Vamos lembrar esta noite de parentes e amigos que ficaram pelo caminho, vítimas da pandemia e de um presidente que despreza a vida dos outros, no comando de um governo formado por incompetentes alucinados e negacionistas como ele.

Não satisfeitos com a tragédia anunciada e consumada nestes últimos três anos de desgoverno, agora querem negar vacinas às nossas crianças.

Meu sentimento hoje é o de ser apenas mais um sobrevivente destes tempos de insânia, fome, dor e morte, que não tem mais fim.

Este ano, sobrevivi a mais um câncer, mas até já tinha esquecido disso, diante do que outras pessoas estão sofrendo.

Penso nas famílias que perderam os empregos, as casas, a comida na mesa, a saúde, a esperança no amanhã, o direito de sonhar com dias melhores.

Sinto vergonha por não poder ajudá-los, dar-lhe pelo menos um abraço, pois eles são milhões, uma enorme legião de deserdados em seu próprio país que não para de crescer.

E, no entanto, é preciso continuar vivendo e lutando para apressar o fim desta agonia, cada um no seu quadrado, no limite das suas forças.

Só tenho como arma as palavras, que vão perdendo a força e o sentido, diante de tantas mentiras despejadas sobre nós todos os dias pelos donos do poder.

Desisti de tentar provar que a terra é redonda, que o homem chegou à Lua, que a vacina salva e não tem contraindicações, que não há comunistas escondidos atrás de cada esquina.

É como falar com as paredes, as palavras vão e voltam como balas, perdem-se em diálogos impossíveis.

A cada dia o nosso país vai ficando mais pobre, mais burro, mais chato, mais desumano, mais sem noção e sem rumo, esperando não se sabe o quê.

Temos eleições no ano que vem, é verdade, mas não vejo ninguém discutindo um projeto de país. Os poucos debates giram apenas em torno de arranjos partidários, um candidato atacando o outro, não surgem novas e alentadoras lideranças em nenhum setor da vida nacional.

Perdemos as referências, os horizontes, os parâmetros, os limites.

As maiores barbaridades são naturalizadas, amortecidas, esquecidas de um dia para outro, sem provocar nenhuma reação.

Nunca vi o Brasil assim, triste e desalentado, tão sem perspectivas, fora do mundo, perdido em seu labirinto.

Outro dia, troquei o "vida que segue", que era muito conformista, por "vida que recomeça", mais esperançoso, mas já penso em mudar de novo. Eu estava muito otimista...

Não consigo transmitir o que não sinto, não quero enganar os leitores. A coisa tá feia, lamento dizer, e ainda vai ficar pior, se isso é possível.

Espero que este Natal tenha sido o último da pior quadra da nossa história, um tempo para apagar da nossa memória.

Apesar de tudo, Feliz Natal!

Em tempo: acabo de receber esta mensagem do filósofo popular Humberto Werneck:

"Quando você tiver um dia ruim, lembre de Sam Bartram, o goleiro que em 1937 ficou 15 minutos no gol sem perceber que a partida tinha sido suspensa por causa da neblina".