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Jamil Chade

Pandemia ameaça manter milhões de brasileiros na extrema pobreza até 2030

                                 Extrema pobreza atinge 1,2 milhão de pernambucanos, maior nível em oito anos, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2020 divulgada pelo IBGE. Recife é a capital mais desigual do País                              -                                 FILIPE JORDãO/JC IMAGEM
Extrema pobreza atinge 1,2 milhão de pernambucanos, maior nível em oito anos, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2020 divulgada pelo IBGE. Recife é a capital mais desigual do País Imagem: FILIPE JORDãO/JC IMAGEM
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/12/2020 07h16

Resumo da notícia

  • Sem ações, levantamento da ONU revela que mundo pode superar a marca de 1 bilhão de miseráveis ao final da década
  • No Brasil, impacto profundo da pandemia ameaça dobrar número de pessoas que ganham menos de US$ 1,9 por dia em comparação às projeções iniciais

A pandemia da covid-19 pode conduzir o mundo a superar a marca de 1 bilhão de pessoas vivendo em extrema pobreza até 2030. No Brasil, os números podem terminar a década longe da realidade que existia no país antes da eclosão da crise sanitária, com o dobro de pessoas na extrema pobreza em comparação aos avanços projetados para o país.

Os dados estão sendo divulgados nesta quinta-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no momento em que governos se reunem em Nova Iorque para lidar com a crise.

O levantamento revela como, sem ação para resgatar milhões de pessoas, os efeitos da covid-19 poderão ser sentido por anos ainda no mundo, mesmo com a existência da vacina. No início da semana, a entidade lançou seu maior apelo humanitário desde sua criação, alertando para o fato de que 235 milhões de pessoas terão de ser imediatamente socorridas em 2021 para poder sobreviver.

Antes da pandemia começar, a ONU estimava que 5,1 milhões de brasileiros vivam na pobreza extrema, ganhando menos de US$ 1,90 por dia. Num dos cenários desenhados pela entidade em que a economia não iria se reerguer rapidamente, o ano de 2021 começará com 7,9 milhões de brasileiros nestas condições.

A combinação de uma recuperação lenta da economia nacional e da falta de programas sociais poderia fazer com que essa realidade permaneça por anos. Em 2030, ainda existiriam no país 6,6 milhões de pessoas nessa situação.

Num cenário de uma crise mais suave, o Brasil verá um aumento no número de pobres. Mas chegará em 2030 com 3,9 milhões de pessoas na extrema pobreza.

Se a covid-19 não tivesse existido, as projeções indicam que o Brasil teria reduzido seu número de pobreza extrema para 3,6 milhões de pessoas em 2030.

Em termos percentuais, as taxas também revelam uma ameaça de um aumento na pobreza. Ela passaria de 2,4% antes da pandemia para 3,7% no início desta década. Em 2030, a taxa cairia para 2,9%. Mas ficaria distante da projeção de 1,6% dos brasileiros na extrema pobreza caso a covid-19 não tivesse existido.

ONU pede investimentos

Para a ONU, porém, há como evitar esse drama. Com investimentos, mais 146 milhões de pessoas pelo mundo poderiam ser retiradas da pobreza extrema em comparação com as tendências atuais da COVID-19.

No caso do Brasil, tais investimentos levariam o país a cortar de forma importante a taxa de pessoas na extrema pobreza, somando 1,7 milhão em 2030.

Cenários

Num dos cenários de uma crise mais suave, a ONU estima que, ao final da década, o mundo teria ainda 44 milhões de pessoas a mais entre aqueles qualificados como vivendo em extrema pobreza, em comparação aos números do início de 2020.

Mas num cenário mais pessimista de uma crise que não consegue ser superada, a entidade indica que uma recuperação poderia ser prolongada e que, portanto, "é provável que a COVID-19 empurre mais 207 milhões de pessoas para a pobreza extrema até 2030".

Para 80% do mundo, a crise econômica de 2020 persistiria pelos próximos dez anos devido à "perda de produtividade, impedindo uma recuperação total da trajetória de crescimento observada antes da pandemia".

Com isso, o número total de miseráveis no planeta não seria reduzido pela metade, como era o objetivo da ONU. Mas sim sofreria um dos maiores aumentos em décadas e desmantelaria os esforços por avanços sociais obtidos nos últimos 40 anos.

Resgate

Na avaliação da ONU, um conjunto focalizado de investimentos durante a próxima década em programas de proteção social, governança, digitalização e uma economia verde poderia não apenas evitar o aumento da pobreza extrema, mas realmente exceder a trajetória de desenvolvimento em que o mundo se encontrava antes da pandemia.

Neste cenário, mais 146 milhões de pessoas poderiam sair da pobreza extrema.

"Como esta nova pesquisa sobre a pobreza destaca, a pandemia da COVID-19 é um ponto de inflexão, e as escolhas que os líderes tomam agora poderiam levar o mundo em direções muito diferentes. Temos uma oportunidade de investir em uma década de ação que não só ajuda as pessoas a se recuperarem da COVID-19, mas que restabelece o caminho de desenvolvimento das pessoas e do planeta rumo a um futuro mais justo, resiliente e verde", disse Achim Steiner, administrador do PNUD.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL