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Jamil Chade

Brasil estuda abrir mão de vacinas para fazer doação para América Latina

vacina, vacinação - Getty Images
vacina, vacinação Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/09/2021 11h45

Resumo da notícia

  • Governo brasileiro procurou agência da OMS para manifestar desejo de doar doses e pediu informações sobre situação nos países vizinhos
  • Internamente, uma opção sob estudo seria abrir mão de doses da Covax Facility que ainda não foram enviadas ao Brasil e destiná-las para a região
  • Sem estar vacinado, Bolsonaro participa de cúpula da vacina convocada por Joe Biden, nesta semana

O governo brasileiro considera fazer doações de vacinas contra a covid-19 e estuda a possibilidade de abrir mão de parte dos imunizantes da Covax Facility, o mecanismo da OMS de distribuição de doses. Uma decisão final, porém, ainda não foi tomada e dependeria do próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A coluna apurou que, nas últimas semanas, membros do governo realizaram consultas com a Organização Panamericana de Saúde, indicando a disposição para doar doses para a América Latina. As reuniões tiveram como objetivo saber da situação regional e da distribuição de doses para cada um dos países do continente.

Internamente, uma das ideias sob consideração seria a de abrir mão de uma parcela das doses que o Brasil ainda aguarda para receber da Covax. O governo encomendou 43 milhões do mecanismo internacional. Mas recebeu apenas 14 milhões até agora. O restante poderia ser, em parte, alvo de um acordo.

O Brasil abre mão das doses que sequer ainda recebeu e, ao mesmo tempo, ganha um crédito na região por demonstrar generosidade.

O país já aplicou mais de 200 milhões de doses, sendo que a vacinação completa com duas doses é uma realidade para 37% da população. A consideração no governo, portanto, é de que os contratos hoje assinados e produção da Fiocruz e Instituto Butantan são sólidos. As quase 30 milhões de vacinas da Covax que ainda estão por chegar, portanto, poderiam ser negociadas.

Enquanto mais de 201 milhões de doses já foram aplicadas no Brasil, a Covax conseguiu apenas enviar 285 milhões de doses para 141 países do mundo, longe de sua meta de 2 bilhões de imunizantes até dezembro.

Para a OMS, o Brasil é uma das grandes apostas na busca de uma maior distribuição de vacinas na América Latina. Quando Marcelo Queiroga assumiu a pasta da Saúde, ele ouviu de Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, um apelo para que o Brasil assumisse seu "papel histórico" de liderança na área de saúde.

Um dos caminhos seria por meio da produção e distribuição de vacinas aos países vizinhos.

Há um mês, de passagem por Genebra, o ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, revelou que acredita ainda que, até o final de 2022, o Brasil pode começar a exportar vacinas produzidas no país, principalmente para os países da América Latina. Segundo ele, 15 linhas de pesquisas foram lançadas e algumas delas começarão a entrar na fase de testes clínicos.

Nesta semana, em Nova Iorque, Bolsonaro ainda participa da cúpula convocada pelo presidente americano Joe Biden para fechar um acordo na esperança de controlar a pandemia até meados de 2022. O objetivo é de que, até setembro do próximo ano, cada país consiga vacinar 70% de sua respectiva população.

Para o final de setembro de 2021, a meta da OMS era de atingir 10% de cada país. Mas diante da concentração de vacinas nas mãos de poucos governos, o objetivo não deve ser atingido.